Calouros da pandemia
09/03/2021 18:10
Maria Clara Aucar

Estudantes que ingressaram no Ensino Superior em 2020 relatam como é viver a experiência acadêmica apenas pelo computador

Rodrigo Cohen, estudante do curso de Engenharia de Produção da PUC-Rio. Foto: Rodrigo Cohen 

Um caminho para encontrar a profissão, a aquisição de um outro tipo de conhecimento, uma forma diferente de aprender e ainda a possibilidade de fazer novas amizades são apenas algumas das razões que transformam a entrada no Ensino Superior em um momento único. Mas a chegada da pandemia frustrou a expectativa de milhares de estudantes que, desde o início de 2020, aguardam pela oportunidade de vivenciar esta nova fase. Para eles, a universidade ainda se resume à tela do computador ou do smartphone.

Maria Eduarda Ferreira, de 19 anos, está no 2º período dos cursos de Psicologia, na PUC-Rio, e de Letras, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela conta que os grupos para a realização de trabalhos acadêmicos, formados pelos professores, e os trotes remotos, organizados por alunos veteranos, foram essenciais para que ela pudesse conhecer pessoas novas a distância.

– No caso da PUC, não sei se foi o intuito da Universidade de tentar aproximar as pessoas, mas aproximou. Além de termos uma troca intensa de conteúdo, foi bom por este lado, para podermos nos conhecer. A comissão de trote também foi bem legal, fez várias gincanas para que nós não nos sentíssemos desamparados. Isto também tira um pouco do estigma desta dinâmica, porque prova que nem todo trote precisa ser intenso; é sempre uma tentativa de unir as pessoas.

Outros métodos também têm sido utilizados para auxiliar o desenvolvimento social, acadêmico e profissional dos alunos. Um deles é o Programa de Mentoria criado pelo Serviço de Orientação ao Universitário do Centro Técnico Científico (SOU-CTC) da PUC-Rio. O projeto foi implantado no segundo semestre de 2020, e o objetivo é orientar os alunos do 1º período dos cursos de Engenharia, Física, Matemática, Química e Ciência da Computação.

A mentoria é feita de forma voluntária e é formada por alunos veteranos designados a calouros de cursos correspondentes. Para o estudante do 2º período do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio Leonardo Jafif, de 19 anos, a iniciativa do SOU-CTC foi uma surpresa positiva para o início de sua vida acadêmica. Ele comenta que o mentor dele o ajudou a escolher quais matérias cursar e a conhecer outras pessoas.

– Eu recebi uma mensagem de um mentor no período passado e achei um pouco estranho, porque perguntei a alguns veteranos e nenhum sabia o que era o programa. Mas ele era muito simpático e me explicou que o projeto começou durante a pandemia, para ajudar os calouros que não conhecem ninguém. Eu fui apresentado a uma outra aluna caloura, que fazia todas as aulas comigo. Ela me colocou no grupo de WhatsApp da turma e nós nos falamos até hoje.

Ambiente de estudos da Maria Eduarda. Foto: Maria Eduarda Ferreira

A ausência do ambiente universitário para a realização de disciplinas práticas, a falta de proximidade com os professores e a não existência de uma sala de aula tradicional também são questões que afligem os calouros da pandemia. Estudante do 2º período de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Larissa Bruno de Abreu, de 19 anos, comenta é uma decepção ser privada das atividades práticas do curso e ter aulas de campo adiadas

– Para não perder estes momentos, optei por fazer matérias mais teóricas, com base em exatas e educação. Também tem a questão da explicação; é muito complicado para mim tirar dúvidas pela plataforma on-line, pois sou muito tímida. Muitas vezes, abrir o microfone em uma aula ou ligar a câmera atacam a minha ansiedade. Então, frequentemente, eu evito tirar dúvidas.

Se não fosse a pandemia da Covid-19, Larissa estaria no 3º período. Ela comenta que o medo de ficar com as matérias atrasadas, de não conseguir se adaptar ao ensino on-line, e a insatisfação de não poder aproveitar a conquista de passar para o curso de sua escolha foram angustiantes.

– Eu pensei em trancar o curso, mas ainda tinha expectativas de que tudo poderia voltar ao antigo normal no final de 2021; infelizmente, imagino que isto não será possível. É uma situação muito complicada, porque o desespero em relação a minha formação torna-se cada vez maior. Eu tenho medo de não conseguir ter experiência o suficiente para ser uma boa profissional.

Rito de Passagem

A chance de alunos calouros de terem a experiência completa de transição do ambiente escolar para o universitário é quase um rito de passagem. Estudante do 3º período do curso de Engenharia de Produção da PUC-Rio Rodrigo Cohen, de 18 anos, diz que o fato de ter frequentado duas semanas de aulas presenciais em março de 2020 foi importante para que ele conseguisse sentir a mudança do Ensino Médio para o Superior. E neste curto tempo, estabeleceu algumas relações com colegas de sala que o ajudaram ao longo do primeiro semestre.

– No primeiro período, há uma matéria em que nós somos divididos em grupos e temos que trabalhar com as mesmas pessoas até o último dia de aulas. Eu não imaginei que durante a pandemia este sistema pudesse continuar assim, mas ainda bem que deu certo, porque fazer faculdade on-line sozinho seria muito difícil. Eu e o meu grupo marcávamos ligações para resolver os trabalhos e, no final, sempre tínhamos uma conversa mais descontraída.

A volta ao ensino presencial e às salas de aulas é um momento muito esperado, tanto por alunos quanto por professores. Esta não será uma tarefa fácil em um mundo pós-coronavírus, em que muitas pessoas estarão habituadas ao isolamento. A previsão de Maria Eduarda é que ela tenha algumas dificuldades nas relações interpessoais.

– Eu entrei na universidade, mas não vivi o ambiente. Talvez, eu seja uma caloura já no 4º ou 5º período e tenha que aprender tudo de novo. Eu me renovei para o EAD e vou precisar me renovar para o presencial e aprender várias coisas novas, mas acho que será bom. Mesmo com medo, será uma motivação, terei vontade de ir para a universidade e poderei ver as pessoas novamente.

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