Aluna de informática se destaca no combate ao racismo algorítmico
30/03/2021 23:07
Juan Pablo Rey

Cientista da computação, Nina da Hora incentiva a democratização do conhecimento na área

Nina da Hora e dois de seus principais projetos: Computação sem Caô e Ogunhê.

Recém-promovida ao Conselho Consultivo de Segurança do Brasil da rede social TikTok, a estudante de Ciência da Computação da PUC-Rio Ana Carolina da Hora, de 25 anos, tem se destacado na luta contra o racismo e o sexismo presentes área de informática. Aluna do 8º período, ela alia a vida acadêmica com projetos como o podcast Ogunhê, que apresenta cientistas importantes do continente africano, e o Computação sem Caô, que busca descomplicar conceitos do setor para o público.

Nascida e criada em Duque de Caxias, onde vive, Nina, como gosta de ser chamada, busca combater o racismo algorítmico. A estudante explica que as máquinas são programadas majoritariamente por homens brancos, e as tecnologias muitas vezes são um reflexo dos que a produzem. Ela comenta que o racismo algorítmico ocorre na transição do mundo físico, que conhecemos, para o digital.

- Vivemos em uma sociedade que xingamentos racistas fazem parte do dia-a-dia. Imagine que as pessoas que praticam isso são tecnicamente também muito boas e estão à frente de projetos que criam tecnologias inseridas neste contexto. Por exemplo, uma tecnologia de reconhecimento facial para segurança pública com os dados da base da polícia. Estes dados majoritariamente incriminam pessoas negras. O racismo algorítmico não é algo que as máquinas fazem porque são inteligentes, mas é um reflexo da sociedade.

Com o intuito de valorizar cientistas negros muitas vezes esquecidos nas instituições de ensino, Nina criou o podcast Ogunhê (@ogun.he). Em cada episódio, a estudante apresenta um pesquisador do continente africano e suas contribuições para a ciência. Nina revela que nutre um carinho especial pelo projeto, que começou como um diário pessoal e foi aprimorado durante estágio dela na Apple Developer Academy da PUC-Rio.

- Compartilhar informações e a parte educativa está dentro de qualquer projeto que eu vá fazer. O Ogunhê, quando pensei, não tinha este nome. Era um diário de cientistas pretos que eu tinha do continente africano. Nas escolas, os professores não davam estes exemplos para mim, essas referências não chegavam. Ele traz referências para que eu continue dentro da ciência e é uma forma sutil de entender o continente africano por outra perspectiva, além das doenças e das guerras. É um continente muito rico.

Outro projeto de destaque da jovem cientista é o canal no YouTube Computação sem Caô, que já conta com mais de cinco mil inscritos. Nele, Nina ensina conceitos da computação de forma simples e gratuita. Ela explica que a democratização de temas como este pode ajudar a desenvolver tecnologias mais plurais.

- Penso que a minha missão, dentro de deixar o mundo melhor, é ensinar para as pessoas de forma mais acessível os conceitos da computação. Quanto mais pessoas negras, indígenas, LGBT e idosas entenderem os conceitos da tecnologia, vamos conseguir tem um debate mais acessível. O debate não vai ficar só com quem é técnico, com homens brancos. O debate precisa chegar aqui em Caxias, precisa ir para Nova Iguaçu, para a Rocinha. Quero que esta seja minha contribuição.

Leveza com o reconhecimento

O reconhecimento do trabalho de Nina fez com que ela fosse convidada para palestrar em convenções de prestígio como o Universa Talks 2020 e o Menos30 Fest, da Rede Globo, ao lado do renomado físico formado pela PUC-Rio Marcelo Gleiser. A estudante também foi selecionada pela Apple Developer Academy para participar da conferência anual de desenvolvedores nos Estados Unidos, com tudo pago. Nina revelou sentir leveza com o reconhecimento recebido após todas as dificuldades enfrentadas.

- Quando conversei com os professores, logo que entrei, falei que trabalhava e era difícil deixar esses projetos, já que eles me ajudavam em casa. Alguns entendiam, outros não. Quando vejo os professores que não entendiam me parabenizando é um peso que tiro das costas de reconhecimento por parte deles. Todas as dificuldades que passei na PUC me fizeram conhecer pessoas muito legais. É muito gratificante ter este reconhecimento do trabalho.

Nina conta que o interesse pela ciência surgiu ainda na infância, com o que ela chama de “pequenos processos”. Ela revela que, quando criança, gostava de desmontar as coisas de casa e, logo aos 14 anos, aprendeu a programar pela primeira vez na extinta linguagem ActionScript.

- Algumas vezes minha mãe ficava irritada com a finalização que nunca acontecia, eu desmontava, via o que tinha dentro e não montava de novo. Depois, na linguagem ActionScript, comecei a fazer joguinhos em flash, estilo testes de Facebook, de BuzzFeed. Descobrindo isso, comecei a pesquisar mais e conhecer a terminologia de computação, de tecnologia. Na época, para mim, era tudo novidade. Participei de um evento que misturava tecnologia e entretenimento, o CG Extreme. Ali comecei a concretizar na minha mente que a tecnologia invadia outros espaços. Estes processos acabaram me jogando para dentro da Ciência da Computação. Sempre falei que queria ser cientista, só não sabia de que área.

Agora, durante o período de isolamento social, Nina tem mais tempo para ficar em casa com a família, já que passava aproximadamente seis horas por dia no transporte público. De acordo com ela, Beethoven, Negão, Cacau, Mel, Tina, Jade e Sara, os sete cachorros que tem em casa, também ajudam a enfrentar o momento difícil com mais naturalidade.

- Como eu não ficava muito tempo em casa, almoçava sozinha, tinha que fazer tudo correndo. Mudei minha rotina drasticamente para melhor, tenho um momento de pausa, de respiro. Por outro lado, tenho sentido falta da interação com pessoas, de ir para lugares diferentes.

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