IEPUC lança livro que traça panorama da energia solar no Brasil
30/03/2021 23:44
Juan Pablo Rey

Na contramão da crise gerada pela pandemia, setor cresceu 58% em 2020

Livro é fruto de ampla pesquisa sobre o setor de energia solar.

O Instituto de Energia da PUC-Rio (IEPUC) lançou o livro O Sol vai voltar amanhã: um espectro de análises sobre a energia fotovoltaica, já disponível em livrarias físicas e digitais. Fruto de parceria entre a Universidade e a Petrogal Brasil, o projeto de pesquisa explica a tecnologia fotovoltaica, contextualiza sua utilização no Brasil e faz uma análise sobre a cadeia produtiva do setor.

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a geração via painéis solares teve uma alta de 58% em 2020 quando comparada ao ano anterior. De acordo com o consultor e pesquisador do IEPUC professor Luis Fernando Mendonça, o crescimento do mercado em tempos de crise se deve também ao fato de que as pessoas, ao ficar em isolamento social, passaram a se preocupar mais com as despesas e a olhar com mais atenção para as fontes de geração distribuída de energia.

- A energia solar tem a geração centralizada, que são as usinas maiores que visam atender uma determinada demanda de energia solicitada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Neste caso, você tem uma grande quantidade de energia que é colocada no mercado e vai para as distribuidoras, passam pelas redes de transmissão e chega ao destinatário final. E a geração distribuída, chamada de mini ou microgeração, que vai até uma determinada capacidade. Dentro deste processo, você pode ter um consumo de qualidade mais alta, ou seja, gasta menos para receber aquele conforto em casa. Por incrível que pareça, a pandemia não afetou porque, agora, as pessoas estão motivadas ao verem suas contas aumentarem.

Mendonça destaca que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê crescimento da gestão centralizada de 3,3 gigawatts para 8 GW até 2030, e de 4,6 GW para – em visão pessimista, segundo ele - 17 GW na gestão distribuída, durante o mesmo período no país. O professor, no entanto, demonstra preocupação quanto o problema ambiental ao questionar o que será feito com as placas que estragarem ou chegarem ao fim de suas vidas úteis. O estudo destacou apenas uma empresa na América Latina que faz a coleta destes resíduos.

- Você tem que fazer alguma coisa com o painel. Vai fazer o quê? Tem metais nobres. É um processo que não está bem resolvido, e isso é um grande desafio à frente. A Austrália está montando a maior usina solar do mundo, o equivalente a 20 mil campos de futebol. São milhões de painéis. O que vai fazer com os painéis depois?

Módulos fotovoltaicos: uma alternativa de energia sustentável.

Um outro fator que contribuiu para o aumento da utilização da tecnologia fotovoltaica no Brasil nos últimos anos foi a grande redução de custo. De acordo com o pesquisador do IEPUC e professor da UERJ, Marco Antonio Haikal, o preço das instalações centralizadas e distribuídas caiu vertiginosamente durante a década passada, o que tornou a energia fotovoltaica mais competitiva.

- Era caro. Antigamente, o custo por KW era proibitivo. A tecnologia também não era aquela maravilha. De lá pra cá, este custo caiu quase que 100%. Além disso, tivemos uma evolução muito grande na eletrônica de potência, que são os inversores. O inversor fica o tempo todo procurando o ponto que vai gerar potência máxima. A eletrônica não caiu o preço tanto quanto os módulos, mas melhorou muito a eficiência do sistema. As estruturas também baratearam, ficaram muito mais eficientes, utiliza-se menos material.

Haikal explica que a durabilidade das placas mais tradicionais, de silício, é de 20 a 25 anos e que, ao longo deste período, existe uma diminuição da capacidade original dos painéis de 20%. O professor, que instalou módulos fotovoltaicos em casa, destaca o recurso solar de boa qualidade do Brasil.

- Se comparar com a Alemanha, o pior lugar do Brasil é muito melhor que o melhor lugar da Alemanha. O Brasil, em termos de problemas atmosféricos e a própria insolação, é muito bom. Justifica investir em energia solar fotovoltaica no Brasil. Comparado a maior parte da Europa, estamos em uma situação melhor, estamos em situação quase tão boa quanto a Turquia, que também tem energia solar de muito boa qualidade. Um dos problemas que nós temos é o dólar alto, que encarece o sistema fotovoltaico.

Retorno do investimento

Ao fazer o investimento nos módulos fotovoltaicos, uma das principais preocupações é em quanto tempo ocorrerá o retorno financeiro do valor gasto. De acordo com o coordenador do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Energia Solar da Coordenação Central de Extensão (CCE), professor Florian Pradelle, este período depende da legislação local, das previsões feitas no valor do dólar e, também, da regulação da ANEEL, que está sob revisão. Ele defende que haja um incentivo tributário para que a energia solar possa crescer ainda mais no país.

- No final de 2019, a ANEEL colocou na mesa de discussão uma mudança da regulação no sentido de como ia ser cobrada a energia que se produz em excesso e injeta na rede. Isso fez com que muitas pessoas acabassem correndo para tentar aproveitar essas condições favoráveis de contratação. Teve toda uma questão política, acabou que a mudança ainda não ocorreu. Mas há um projeto de lei circulando no Congresso que fala justamente deste ajuste na resolução 482/2012 da ANEEL. Isto iria mudar muito esse período em que você tem retorno no investimento inicial. A questão da regulação é muito importante, além da redução do custo inicial de instalação.

Pradelle enfatiza que ainda há melhorias a serem feitas nos três momentos da cadeia. Na produção, ele acredita em uma redução da quantidade de matéria para produzir a energia, o que diminuirá ainda mais os custos para o consumidor. Na operação, o professor crê em avanços na questão da limpeza dos painéis e na otimização do armazenamento de energia. No fim de vida útil, Pradelle defende a criação de caminhos para a reciclagem dos módulos fotovoltaicos. O acadêmico valoriza a abrangência do estudo que resultou no livro, que dá ao leitor um panorama completo e atualizado a respeito da energia solar no Brasil.

- O livro tem três características: a abrangência, a atualidade, pegamos os últimos dados, as últimas tecnologias e perspectivas, e o terceiro aspecto é que o livro trouxe a discussão com foco no mercado nacional. Até onde sei, é a única obra que reúne todas estas características.

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