Viva o SUS
02/04/2021 18:50
Lorena Teixeira e Luanna Lino

O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão ministra Aula Inaugural do Departamento de Psicologia na qual afirma que o Sistema Único de Saúde faz parte do processo civilizatório brasileiro

Ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão

Médico sanitarista e ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão ministrou a Aula Inaugural do Departamento de Psicologia como tema A Saúde Coletiva no Brasil durante a Crise da Covid-19, no dia 19 de março. Logo no início da palestra, ele fez uma defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e apresentou uma série de slides que demonstraram a importância do SUS para a população brasileira.

Temporão afirmou que o SUS é produto de um longo e complexo processo de construção e da luta pela cidadania e saúde como um direito básico. O médico assegurou que o ideário da reforma sanitária brasileira não era apenas desenvolver um sistema de atenção à saúde, mas, na verdade, construir um conjunto de políticas sociais e econômicas para impactar de forma radical as condições de vida da população.

- O Sérgio Arouca (1941-2003), um saudoso sanitarista e meu amigo, dizia com muita frequência que tanto a reforma sanitária brasileira quanto o SUS poderiam ser sintetizados em uma única frase que seria compreendê-las como parte do processo civilizatório brasileiro.

José Gomes Temporão apontou 11 dimensões dos impactos do SUS como política pública, entre elas a repercussão nas condições objetivas e subjetivas de vida, e destacou a política de transplantes, a segunda maior do mundo em números, e o programa de imunizações. O efeito na dimensão econômica também foi mencionado por ele, assim como a redução de desigualdades entre regiões e classes sociais e o impacto político-ideológico.

Por causa das conquistas do SUS e do desempenho anterior do Brasil durante a pandemia de H1N1, em 2009, e Zika, em 2015, o ex-ministro afirmou que havia uma expectativa positiva em relação a como o país iria lidar com a pandemia do novo coronavírus, não apenas por parte dos brasileiros, mas, também, por uma perspectiva mundial.  Ele citou as 280 mil mortes por Covid-19, registradas no início de março, e a crise sanitária, econômica, social e ética que esta situação provocou.

 - Onde nós falhamos? Acreditem ou não, mas nós não temos até hoje um plano nacional de combate à Covid-19, o Ministério da Saúde ainda não construiu este plano

Temporão argumentou sobre os aspectos nos quais o Brasil falhou frente ao combate do novo coronavírus, e apontou como exemplo a desigualdade estrutural que afeta diretamente as pessoas menos favorecidas. Segundo ele, pesquisas confirmam que nos bairros mais pobres da cidade de São Paulo o número de mortes foi, em média, três vezes maior do que nas regiões mais ricas da cidade. Ele afirmou que a situação atual do Brasil de combate à pandemia é vergonhosa para a ciência e a medicina.

- O uso de máscara deixou de ser colocado como prioridade, inclusive atacado pelo Presidente da República de modo permanente. Com uma única exceção, quando o ex-presidente Lula foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal, e, no mesmo dia, em uma audiência pública, o Presidente da República apareceu de máscara pela primeira vez desde o início da pandemia.   

Ele disse que se o Brasil tivesse encontrado uma estratégia coerente e organizada, baseada na ciência e na saúde pública, hoje haveria no país metade, ou menos da metade, de óbitos. Temporão comparou a quantidade de pessoas vacinadas em 2021 e 2009 e ressaltou que o país tem os dois maiores fabricantes de vacinas no mundo, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Butantan.

- Em 2021, vacinamos apenas 10 milhões de pessoas em dois meses, enquanto, em 2009, nós vacinamos 90 milhões em três meses, por isso, hoje, já poderíamos ter vacinado 60 milhões de pessoas. Nós cometemos erros em que não poderíamos, pois, aqui nós temos capacidade. Se não tivéssemos o Butantan e a Fiocruz, não teríamos vacinado ninguém da população brasileira.

O ex-ministro da Saúde encerrou a palestra destacando que a ciência abre um futuro menos sombrio e que ela proporcionou, por meio do desenvolvimento, a vacina, que é a resposta para o mundo superar a pandemia. Ele observou que as vacinas, como a do Butantan, são radicalmente inovadoras por terem sido produzidas em menos de um ano, porque, até então, apenas a vacina da caxumba havia sido desenvolvida em um espaço de tempo tão curto.

 

 

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