Provocações desafiadoras
31/08/2021 18:36
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Padre Josafá reflete sobre alguns desafios que devem ser enfrentados pelo Estado, pelas instituições e organizações da sociedade civil

O Papa Francisco, no livro intitulado Deus e o mundo que virá (2021), nos fala da importância de buscar e cultivar modelos de desenvolvimento mais sustentáveis, contrários de alguns modelos atuais, apoiados no consumismo, na especulação, na dependência de combustíveis fósseis, na manipulação das tecnologias que não visam ao bem comum, na escassez de investimento no trabalho e na destruição da natureza. Neste contexto, ele nos apresenta algumas questões desafiadoras, tanto para a sociedade como para as  instituições.

A primeira está relacionada com a economia e as finanças ecológicas, elencando quatro critérios que deveriam ser apoiados pelas empresas: inclusão dos excluídos, promoção dos últimos, bem comum e cuidado com a Criação. Embora uma universidade não deva ser considerada uma empresa, no sentido mais rigoroso da palavra, sobretudo aquelas que são comunitárias e não visam fins lucrativos, alguns desses critérios podem ser aplicados no modo de ser da instituição.

Olhando para a realidade da PUC-Rio, cremos que três destes critérios já estão sendo vividos pela nossa Universidade. A inclusão dos excluídos aparece na nossa política de bolsas, permitindo que muitos jovens excluídos social e economicamente possam estudar numa Universidade que se destaca pela excelência no ensino e na pesquisa, além dos vários projetos sociais que são realizados em diferentes departamentos e unidades complementares. Embora tenhamos sido obrigados a fazer alguns ajustes em razão dos problemas econômicos gerados pela pandemia, continuamos apoiando esta atividade filantrópica que tanto orgulha a nossa Universidade.

 O critério do bem comum pode ser contemplado tanto na cultura de pertencimento existente na PUC-Rio como nos princípios e valores de nosso marco referencial, inspirando as práticas e conteúdos na docência e na pesquisa. Um dos itens do número 14 de nosso Marco Referencial nos recorda que devemos dar “primazia do bem comum sobre os interesses individuais”. Formamos pessoas para exercer o bem comum na sociedade e nas diferentes profissões, engajadas na preservação ética, tanto daquilo decorrente do princípio da dignidade da pessoa humana como no uso universal dos bens, patrimônio de todos. Numa sociedade marcada pelo individualismo, a formação para o bem comum é uma exigência fundamental, quebrando a mentalidade fragmentada e abrindo espaço para uma nova visão mais sistêmica, humanística e fraterna.

O critério do cuidado com a Criação é algo que vem permeando nos últimos anos o modo de ser e agir da PUC-Rio, seja pela preservação de seu campus ecológico, como no engajamento da Universidade nas metas de sua agenda ambiental institucional. Além da criação e manutenção de estruturas que são pontos de referência no compromisso socioambiental da Universidade, aumenta progressivamente a consciência acadêmica, no ensino e na pesquisa, do papel relevante que devemos ter com a nossa casa comum planetária, tão ferida com as mudanças climáticas, a extinção de espécies, a carência de uma educação ambiental, o pouco investimento nas tecnologias limpas, a falta de ações mais efetivas no combate ao desperdício, às injustiças dos descartes sociais e ambientais, o retrocesso de algumas políticas públicas, o descumprimento de leis e legislações de proteção ao meio ambiente etc.

Esses são os grandes desafios que temos diante dos nossos olhos, devendo ser enfrentados pelo Estado, instituições e organizações da sociedade civil. Cabe a nossa PUC-Rio conservar, melhorar e ampliar os critérios provocadores propostos pelo Papa Francisco, pois eles serão bons indicadores para que a nossa Universidade esteja no caminho certo.

                 Padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J. – Reitor da PUC-Rio

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