Os 100 anos da Revolução Russa
01/06/2017 18:12
Bell Magalhães e Thays Viana

Na madrugada de 24 para 25 de outubro de 1917, os bolcheviques organizaram uma insurreição que tomou o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, Rússia. Foi o fim da era dos czares e a implantação do regime socialista marxista. Desde então, nem a Rússia nem o Ocidente seriam os mesmos. Movimento marcado por contrastes completa um século.

Leon Trotsky e Vladimir Lênin / Arte: Diogo Maduell

Na madrugada de 24 para 25 de outubro de 1917, os bolcheviques organizaram uma insurreição que tomou o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, Rússia. Foi o fim da era dos czares e a implantação do regime socialista marxista. Desde então, a Rússia começou a quebrar paradigmas e a trilhar um caminho que se tornou definitivo para o país e o mundo. Nem ela e nem o Ocidente seriam os mesmos.

Ironicamente, o movimento que ficou conhecido como Revolução de Outubro, na realidade, foi deflagrado no mês de novembro. Há uma diferença de aproximadamente 13 dias do calendário juliano para o gregoriano, que só foi adotado após a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1918.

No início do século XX, a Rússia era um país agrário e rural – 80% da população viviam no campo – com uma economia considerada atrasada em relação ao resto da Europa. A indústria era incipiente, enquanto em outros países, como Inglaterra, Alemanha e França, ela já estava em um estágio de produção mais avançado. O país, que ocupa uma área de 17.100.000 km2, transitava entre uma agricultura forte e o campesinato muito explorado.

Professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Fernando Vieira afirma que a agricultura ainda não havia atingido uma etapa capitalista e estava em processo de modernização. Por outro lado, a indústria era centrada nos setores mais tradicionais do capitalismo como a siderurgia, indústria bélica, têxtil e de alimentos.

– Ela enfrentava uma grande contradição, fruto dessas “duas Rússias”: uma que buscava se aburguesar e outra, tradicional, centrada na autoridade do czar e na aliança com os novos proprietários.

Na política, esta nação do Oriente ainda vivia sob a sombra do absolutismo e era comandada por imperadores que, durante séculos, implantaram medidas que propiciaram as grandes desigualdades sociais: no século XX, o país tinha uma população de 170 milhões de pessoas, grande parte analfabeta. Todo este contexto socioeconômico e político provocou uma série de insatisfações. Some-se a isso que a Rússia se envolveu em dois conflitos que causaram mais descontentamento. Entre 1904 e 1905, os russos perderam para os japoneses a briga pelos territórios da Coreia e da Manchúria. Mais tarde, ao entrar na Primeira Guerra Mundial, ela sofreu várias derrotas que desmotivaram e desmoralizaram mais ainda o povo.

Greves e rebeliões passaram a fazer parte do cotidiano dos russos, cada vez mais insatisfeitos, especialmente com atos radicais com relação ao operariado. Um dos momentos críticos foi em janeiro de 1905, com o chamado Domingo Sangrento, quando soldados do império fuzilaram manifestantes. Tal atitude levou a mais inconformismo por parte das camadas populares. Tanto assim, que, em outubro, o czar Nicolau II implantou uma série de ações, como a criação da Duma (Parlamento), uma tentativa de aplacar os ânimos de operários, homens do campo e burgueses. Segundo o professor Mário Ângelo Brandão, do Departamento de História, a Rússia vivia um período de enorme carestia, experiência que ele qualifica como terrível e devastadora, agravada pela Primeira Guerra.

– Quando o rei foi obrigado a aceitar uma espécie de monarquia constitucional, ele aceitou o diálogo com duas instâncias, uma delas, o parlamento, e, a outra, os sovietes, que eram os conselhos populares – assinala.

Vladimir Lênin considerava que os fatos que ocorreram em 1905 foram o início da luta pela implantação do socialismo marxista. Inspirado nas ideias do filósofo Karl Marx, escritas no século XIX, o líder dos bolcheviques trabalhou com o conceito de luta de classes, desenvolvido pelo teórico, mas com adaptações para a realidade do século XX. Assim, a classe trabalhadora deveria organizar uma ação revolucionária com o objetivo de exterminar o capitalismo e promover mudanças socioeconômicas.

De acordo com Brandão, o fato de as ideias marxistas terem encontrado um terreno fértil na Rússia era algo mais ou menos previsível. Tanto que, diz, não por acaso a segunda tradução de O Capital, de Marx, foi para o russo.

– Você tem uma penetração significativa dessas ideias. Há uma inteligência urbana que discute e debate esses temas. As leis marxistas trazem uma solução, uma resposta racional para um mundo que se propõe mais moderno.

Para o professor Leonardo de Carvalho, do Departamento de História, o discurso de Lênin era coerente e linear.

– A grande felicidade de Lênin foi conseguir captar, como uma antena, quais eram os anseios da população naquele momento e direcionar um discurso radical para conseguir esses objetivos. Mas em termos de estratégia política, ele se moldava em torno das situações.

Em fevereiro de 1917, sem conseguir controlar o clamor popular e a insubordinação de militares, o czar abdicou, foi preso e, posteriormente, fuzilado. Um governo provisório foi instalado, de caráter liberal e burguês. Um dos comandantes da revolução de fevereiro, Alexander Kerensky foi nomeado como Ministro da Justiça e ainda exerceu as funções de Ministro da Guerra e Primeiro Ministro. Mas o sistema apresentava muitas fragilidades, inclusive porque protelou reformas. Com isso, houve uma propagação da violência, como dois mil casos de assassinato de proprietários de terras por camponeses. O governo provisório foi derrubado pelos bolcheviques, comandados por Vladimir Lênin e Leon Trotsky.

Ataque à polícia do Czar nos primeiros dias da revolução de março. Imagem do livro 'The Russian Bolshevik Revolution', de Edward Alsworth Ross

Após assumir o país, Lênin tomou algumas atitudes: retirou a Rússia da Primeira Guerra, implantou forte controle político, nacionalizou bancos e indústrias, transferiu a capital para Moscou. O líder dos bolcheviques, no entanto, travou ainda muitas lutas até conseguir apaziguar os diversos grupos existentes na nação e estabilizar o novo sistema político. Carvalho lembra que, de 1918 até 1921, a Rússia enfrentou uma guerra civil, na qual se envolveram 16 nacionalidades, entre ingleses, franceses e alemães.

– Os outros países ficaram surpresos quando a Revolução ocorreu, durante a Primeira Guerra. Boa parte das nações capitalistas que estavam envolvidas nesse grande conflito mundial vão ficar muito preocupadas com o exemplo que poderia vir da Revolução Russa. Um medo de que esse bolchevismo internacional tomasse conta da Europa – observa.

Durante o processo de consolidação do regime, Lênin fundou um partido único, o Partido Comunista. Em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi criada. Decisões que sinalizavam que outros tempos estavam por vir.

– Aos poucos, o país adquiriu uma bagagem cultural com a renovação da literatura, que já era fantástica, o surgimento da poesia concretista, e diálogo com o dadaísmo e o futurismo. A Rússia tinha uma tradição cultural muito forte e com a revolução ela se liberta um pouco dos formalismos. Mas aí gera um embate interno – assinala Vieira.

Já para Carvalho, houve um outro ponto positivo, a redefinição do papel social da mulher, que passou não só a integrar a produção mas também se tornou presente no mercado de trabalho.

– Com a Revolução Russa surgiu um modelo de sociedade, de economia, e também um modelo de representação cultural que, em três décadas para a frente, vai acreditar que tem poderes e potencial de ser um modelo para o resto do mundo. É algo que só vai ter paralelo com a sociedade norte-americana, que no século XX vai se tornar hegemônica - analisa.

Início do protesto, em São Petesburgo, em julho de 1917. Imagem do livro 'The Russian Bolshevik Revolution', de Edward Alsworth Ross

Cem anos depois, o país tenta estabelecer uma nova identidade com o fim da URSS, no início da década de 1990. Carvalho comenta que a Rússia rural ficou para trás e se tornou uma sociedade moderna, com grandes cidades urbanizadas, grandes universidades e centros de pesquisas respeitados até hoje. Mas, por outro lado, o professor acha que há marcas a serem superadas.

– Sem dúvida, dá para ver que a Revolução Russa deixou um legado. O Estado russo, como organização pública, ele ainda é herdeiro do estado soviético. A Rússia continua sendo, aos olhos do Ocidente, um lugar onde existem governantes autoritários, corruptos, onde a violência não é condenada abertamente. Então, há uma intolerância recorrente.

Vieira observa que tanto Boris Yeltsin quanto Vladimir Putin representam modelos autoritários que aprofundaram o nacionalismo russo e pouco contribuíram para a questão democrática.

– Putin, diferente de Yeltsin, avançou na questão social recompondo algumas perdas após o fim da URSS. Isso explica parte do apoio que obtém no país.

Pelo lado econômico, comenta o professor, o fim da URSS resultou na formação de empresas ligadas aos quadros dirigentes do antigo PCURSS (PCUS), que se inseriram no mercado monopolizado e, com isso, houve geração de fortunas individuais.

– Hoje, a Rússia é um Estado que se recupera militarmente e que busca nova inserção nas relações internacionais. A postura adotada na Guerra na Síria revela a retomada de um protagonismo.

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