Força do trabalhador: greve parou indústrias do país há 100 anos
19/07/2017 15:21
Bell Magalhães

A greve que provocou a paralisação dos maiores centros industriais no início do século XX

Em junho de 1917, cerca de 400 operários – a maioria mulheres - da fábrica têxtil Cotonifício Crespi, na Mooca, em São Paulo, paralisaram as atividades. Uma greve com características próprias, mas também semelhante a outros movimentos da época, como o protesto contra a alta de preços e início de greves parciais. Porém, ela se transformou, mais tarde, em uma greve generalizada que abrangeu todas as categorias, seguida de saques, motins, manifestações e choques entre manifestantes e repressores.

Operários grevistas descendo a Ladeira do Carmo (SP). Imagem do Arquivo A Cigarra/DA Press

O baixo investimento no setor fabril também se tornou um estopim para o movimento. Mesmo com a entrada das indústrias no Rio de Janeiro e em São Paulo, o país vivia ainda dependente de um único produto, o café. Politicamente, era uma sociedade comandada pela oligarquia cafeeira. Com a política do café--com-leite, existia um domínio dos partidos republicanos paulista e mineiro. De acordo com o professor de história do Colégio Santo Agostinho, Vinicius Sabato, durante esse período, o investimento no setor industrial era pequeno.

– Economicamente, o país ainda dependia do café, a economia era muito instável porque qualquer alteração da economia internacional refletia massivamente no país. Socialmente, o Brasil ainda era marcado por uma ruralização forte. Grande parte da população vivia em um campesinato pobre e em situação de extrema miséria, como o Nordeste que vivia secas seguidas.

Além disso, os trabalhadores conviviam em condições insalubres, sem férias pagas ou descanso semanal. As jornadas chegavam a durar 16 horas, e os donos das fábricas usavam trabalho infantil indiscriminadamente. As mulheres, que eram maioria nas fábricas, também se revoltaram contra o assédio sexual praticado pelos contramestres e funcionários que monitoravam as fábricas. Ao passo que ganha força e abrange outros estados, a pauta de reivindicações passou a incluir desde exigências relacionadas ao trabalho até as de cunho político, como a libertação dos presos que faziam parte do movimento. No fim de junho, a paralização da Crespi atingiu os 1.500 funcionários da fábrica, e, em julho, já havia parado a cidade de São Paulo. Segundo o professor Leonardo de Carvalho, do Departamento de História, nessa época, o custo de vida era alto, e, muitas vezes, o salário não cobria as despesas mensais dos trabalhadores.

– As pessoas precisavam se alimentar, pagar o aluguel, trocar um par de sapatos, e o salário não dava. Pelo fato de ser uma industrialização recente e de empresários que não eram genuinamente industrialistas, a potencialização dos lucros era feita a partir da alta exploração da mão de obra e da drástica redução dos custos.

Um grupo do 1º Batalhão da Força Pública, armados, dispersando os grevistas na praça Antônio Prado, na região central de São Paulo. Imagem do Arquivo A Cigarra/ DA Press

O movimento ganhou força quando milhares de grevistas acompanharam o cortejo fúnebre do sapateiro espanhol José Inegues Martinez, de 21 anos. De acordo com o jornal O Estado de S.Paulo, que cobriu o fato na época, Martinez morreu com um tiro no estômago, após a ação de uma unidade da cavalaria da polícia para dispersar manifestantes que quebravam barris de cerveja na frente da fábrica da Antarctica. Mais tarde, outras cidades paulistas, como Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba e Ribeirão Preto, e Poços de Caldas, em Minas Gerais, se juntaram ao movimento.

Os processos de organização sindical já estavam encaminhados quando explodiram as greves de junho na Crespi e na Antarctica. A declaração de greve na Crespi, por exemplo, foi posta em prática depois de uma reunião na Liga Operária da Mooca. Ao mesmo tempo, era reconhecido o papel de militantes anarquistas e sindicalistas que há anos atuavam em São Paulo e que, ao longo da primeira metade de 1917, tentaram constituir movimentos e organizações de classe, com ideologias de anarquismo e marxismo, muitas vezes trazidas por imigrantes europeus, principalmente os italianos, que moldaram os ideais grevistas.

Figuras importantes como o italiano Teodoro Monicelli, que já havia participado e coordenado greves gerais na Itália, deram um rumo diferente às manifestações. Foi ele quem inicialmente fez a proposta de uma greve geral organizada em São Paulo, ainda em maio de 1917, quando as primeiras paralisações parciais em algumas fábricas eclodiam pelo estado. Por causa dessa participação ativa no movimento, Monicelli, assim como o anarquista Luigi Damiani, foram deportados do país. No caso dos brasileiros, o jornalista e anarquista Edgard Leuenroth usava o jornalismo e a militância como forma de educar, conscientizar e expor para classe operária a precariedade do sistema. Ele também alertava para a necessidade de se posicionar quanto a isso. Mais tarde, Leuenroth foi condenado e preso como um dos responsáveis por organizar a greve geral. Segundo Carvalho, essa circulação cultural chamava a atenção do governo desde o início do século XX, como o exemplo da Lei Adolfo Gordo, que previa a deportação de qualquer imigrante envolvido em sindicatos e manifestações.

– Desde 1907, existia essa lei, e ela dizia que os estrangeiros acusados de atentar contra a segurança do país seriam deportados. Ela é um marco nessa criminalização do movimento operário. A visão do sindicalista, e mais ainda do imigrante, como baderneiro era clara antes mesmo da greve.

Grevistas, a maioria mulheres operárias de várias fábricas da capital paulistana, em direção ao largo do Palácio do Governo para reunião com o secretário da Justiça e Segurança Pública. Imagem do Arquivo A Cigarra/DA Press

Os representantes das ligas operárias, das corporações em greve e das associações político-sociais que compõem o Comitê de Defesa Proletária reuniram-se na noite do dia 11 de junho, depois de consultar as organizações que faziam parte, expuseram as reivindicações da população, e que não eram dadas pelo Estado. Dentre os pedidos de melhoria, constava a liberdade às pessoas detidas por conta da greve; respeito ao direito das associações e sindicatos dos trabalhadores; que nenhum operário fosse demitido por participar do movimento grevista; fim da exploração do trabalho de menores de 14 anos; proibição do trabalho noturno para menores de 18 anos; proibição do trabalho noturno para mulheres. Eles também exigiam aumento de 35% nos salários inferiores a cinco mil réis e de 25% para os mais elevados; data certa para o pagamento dos salários, a cada 15 dias, e se atrasasse, cinco dias após o vencimento; garantia de trabalho permanente; jornada de oito horas e semana de trabalho de cinco dias e o pagamento de 50% em trabalhos com horas extras.

Em São Paulo, o dia 16 de julho foi marcado pelo fim da greve por uma negociação única entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais. Já no Rio e em Porto Alegre, os movimentos só terminaram quando cada setor entrou em acordo com o patronado. Algumas classes, como os pedreiros, ainda entraram em greve dias depois, em 18 de julho. Apesar da tentativa de conciliação, parte dos empresários queria negociar diretamente com os funcionários, e se negava a assinar os acordos. De todo o modo, os industriais assumiram diante da comitiva de jornalistas, o compromisso de manter a concessão feita, de 20% sobre os salários; que não seria dispensado nenhum operário que tenha participado da greve; o respeito ao direito de associação dos operários; o pagamento dos salários dentro da primeira quinzena após o mês vencido e o acompanhamento das iniciativas para melhorar as condições morais, materiais e econômicas do operariado de São Paulo. A formalização, contudo, só foi garantida em 1943, com a criação e consolidação das Leis de Trabalho pelo presidente Getúlio Vargas.

Após a greve, sindicatos paulistanos se organizaram para firmar os direitos conquistados. A estrutura sindical, que surgiu em 26 de agosto, refundou a Federação Operária de São Paulo (FOSP) e fez renascer ligas de ofício anteriores a 1914. Em bairros populares como, Mooca, Brás, Lapa, Cambuci, Ipiranga, Bom Retiro e Vila Mariana, surgiram ligas operárias que agregavam trabalhadores independentemente da profissão.

Edgard Leuenroth

Nascido em Mogi Mirim, Edgard Federico Leuenroth (1881-1968) foi um tipógrafo, jornalista, arquivista e propagandista e um dos mais respeitados militantes anarquistas da Primeira República brasileira. Trabalhou desde os 10 anos de idade e, em 1897, entrou no jornal O Commercio de São Paulo, onde ocupou o cargo de tipógrafo durante 12 anos. No mesmo ano, fundou o jornal crítico e literário O Boi, publicado até 1898, que posteriormente se tornaria a Folha do Braz, protetor dos direitos dos moradores do bairro. Em 1903, fundou o Centro Tipográfico de São Paulo que, mais tarde, tornou-se a União dos Trabalhadores Gráficos.

Edgard Leuenroth. Arquivo Edgard Leuenroth/Unicamp

Durante as 20 primeiras décadas do século XX, o movimento anarquista estava em pleno auge e Leuenroth, um dos principais líderes, participava dos movimentos grevistas, pela imprensa e na rua, com discursos encorajadores e liderando protestos. Foi um dos articuladores da Greve de 1917, pela qual foi julgado e condenado, e porta-voz do Comitê de Defesa Proletária, conselho que representava os interesses dos trabalhadores. Participou da fundação do Partido Comunista do Rio de Janeiro, em 9 de março de 1919. Nesse mesmo período, colaborou no jornal A Voz do Povo, descontinuado no final de 1920 quando Estado começa a perseguir a imprensa operária.

Ajudou a criar o Centro de Cultura Social, ligado ao movimento anarquista, mas, por falta de investimento, entrou para o caminho do sindicalismo. Atuou na fundação da Associação Paulista de Imprensa (API), em 1933, e foi um dos diretores provisórios do Sindicato dos Profissionais da Imprensa do Rio de Janeiro. Edgard Leuenroth trabalhou até o fim da vida com jornalismo e o usava como veículo de militância política e instrumento de organização e formação da classe trabalhadora. Colecionou documentos da imprensa operária e anarquismo para um projeto de propaganda e educação dos trabalhadores para a revolução, com a intenção de construir uma memória do proletariado brasileiro. Em 1974, o acervo do jornalista foi adquirido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que se tornou mais tarde o Arquivo Edgard Leuenroth.

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