Aldeia Maracanã: resistência indígena no coração da cidade
14/07/2017 15:24
Dóris Duque

A Aldeia Maracanã, localizada no meio da cidade no bairro Maracanã, é uma ocupação indígena que começou no terreno do prédio do antigo museu do índio em 2006. A intenção é a resistência cultural e a garantia de que os índios não sejam vistos apenas em livros e museus, eles estão vivos e sua cultura também.

 

Foto: Dóris Duque

O prédio às margens da Avenida 13 de Maio abrigou o Museu do Índio de 1953 a 1978, com a transferência da instituição para Botafogo. Abandonado desde então, começou a ser ocupado por índios de várias etnias em 2006. Em 2013, passou às mãos do consórcio liderado pela Odebrecht para a construção de um shopping e de um estacionamento para o Estádio do Maracanã. Pedido de reintegração de posse terminou com a expulsão à força dos índios, que após seguidos protestos tiveram do governo a promessa de que o prédio seria preservado e transformado em um Centro de Referência da Cultura dos Povos Indígenas. No entanto, o prédio continua abandonado, com tábuas nas janelas e portas e cercado por grades. Desde então, grupos se mantêm na área, em resistência.

Foto: Dóris Duque

Visão geral do acampamento. Não há saneamento, nem água, nem eletricidade. Com a dificuldade de conseguir bambu e palha para a construção das ocas os ocupantes dormem em barracas de camping, embaixo de uma grande lona – que também serve para captação de água da chuva – e até nas árvores, é possível ver na árvore maior à direita da imagem algumas tábuas nos galhos altos, moradia de Dário Xucurú. A armação de varas no meio da imagem é uma estrutura para o crescimento de maracujás que quando estiverem grandes formarão um teto ali. Ao fundo um braseiro arde embaixo de uma grelha cheia de peixes em folhas de bananeira.

 

Foto: Dóris Duque
 

O acampamento diante do prédio, com o estádio ao fundo. Por fora da grade passam os torcedores em dias de jogo. Carros da polícia fazem vigilância 24 horas por dia, do lado de fora, à direita. No chão, as palavras “indígena” e “Odebrecht”, cujos negócios com o poder público estadual são investigados e levaram à prisão do comando da empreiteira.

 

Foto: Dóris Duque

Sem abrigo. Em dias de chuva, o asfalto empoça dentro das barracas improvisadas, e em dias de sol quente é o calor que irradia do chão, tornando o espaço inabitável. De acordo com a professora de Artes Júlia Muniz, do povo Xavante, a ocupação recebia bambu e palha do Jardim Botânico, utilizadas para a construção de ocas, mas o fornecimento foi interrompido.

 

Foto: Dóris Duque

Roça. Os indígenas retiram blocos de asfalto do estacionamento para plantar. A intenção é aos poucos transformar a área em uma bolha de natureza no meio da cidade. Cada abertura feita, por menor que seja, é usada para plantar algo. Na foto, a primeira roça da aldeia já está na segunda produção de milho, há também abóbora, mamão, maracujá, banana, vários tipos de feijão, mamona e um jatobá que foi a primeira semente a ser jogada na terra, mas que foi sufocado por outras plantas, acreditava-se ter morrido, mas é possível ver um brotinho que no futuro se tornará uma grande árvore. Eles também usam plantas que nascem espontaneamente entre as outras, consideradas ervas daninhas, mas boas para consumo e usos medicinais. Entre elas a chaia, original do México, que precisa ser cozida para ser consumida, pois crua é tóxica. Quando cortada, a folha secreta um sumo que segundo Júlia é “uma beleza para curar verruga”.

 

Foto: Dóris Duque

A intenção das plantações é o reavivamento do solo e a autonomia alimentar, para deixar de depender de doações e restos de feira. Já consomem alimentos de suas roças, como abóbora – esta estava coberta por um monte de palha tanto para proteger do sol quanto dos olhos alheios. Segundo Dário Xucurú, mais de uma vez tiveram frutas roubadas dos pés.

 

Foto: Dóris Duque

Dário Xucurú mostra uma muda de Pau-Brasil plantada no acampamento: “Foi esse o explorado pelo colonizador, foi tirado por eles, e agora estamos trazendo de volta”

 

Foto: Dóris Duque

Em contraste com os prédios e carros em volta, mamoeiros, bananeiras e outras espécies disputam espaço com o mato e o asfalto. As que crescem mais foram plantadas perto dos limites da aldeia, para proteger visualmente e para delimitar o espaço, que por enquanto é marcado com os pedaços de asfalto empilhados fazendo um perímetro impedindo motos e bicicletas de cortar caminho por dentro do acampamento.

 

Foto: Dóris Duque

Mudas e sementes são doadas por colaboradores e simpatizantes que têm sítios ou outra forma de adquiri-las. A falta de água para regar as plantas os deixa à mercê das chuvas. Muitas mudas não sobrevivem ao calor e ao sol.

 

Foto: Dóris Duque

A placa informa aos passantes a existência da aldeia e o tamanho da área, de 14.300 metros quadrados. Uma espécie de demarcação do território indígena.

 

Foto: Dóris Duque

As paredes e muros do prédio estão cobertas de desenhos grafismos e escritos. Este desenho específico é uma homenagem às mulheres grávidas que passaram pela aldeia e que participaram da resistência. Kwzá puru’a significa mulher grávida.

 

Foto: Dóris Duque

Desenho celebra a união de todos os povos que lutaram e continuam lutando pelo espaço e pela permanência cultural dos indígenas no Rio de Janeiro. Quase 305 etnias se uniram por todo o Brasil pela causa indígena.

 

Foto: Dóris Duque

Maracanã. Entre os desenhos nas paredes está o da ave que dá nome ao local, a maracanã, ou maritaca. Abaixo, um grafismo em cestaria. “Por não ter escrita como a dos brancos, a forma de escrita são os grafismos. Pintamos na pele com jenipapo (cor preta) e urucum (cor vermelha)”, lembra a professora de Artes e índia xavante Julia Muniz. Cada povo tem um grafismo diferente, um padrão diferente. Nessa foto nota-se também a janela do prédio com os vidros quebrados e fechada por dentro com tábuas.

Foto: Dóris Duque

Adereços. Ao longo do dia, os índios também fazem artesanato para vender, produções diferentes de cada etnia. As peças não são iguais aos adereços utilizados pelos povos em suas cerimônias e rituais.

 

Foto: Dóris Duque

Fogueira. Ao anoitecer, uma fogueira é acesa no meio do acampamento e são distribuídos tocos de árvore como assentos ao redor. É nessa hora que começam a chegar mais pessoas. Na foto, Alice Way-Way e Potyra Guajajara, casada com o chefe da aldeia, José Urutau Guajajara, sacode uma maraca, chocalho feito de coco ou cabaça.

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