Pequena África: lugar de luta contra a escravidão no Porto
10/09/2017 18:21
Elisângela Almeida/ Fotos: Matheus Aguiar

A Pequena África, na Zona Portuária, compreende o Cais do Valongo, o Instituto dos Pretos Novos, o Largo de São Francisco da Prainha e a Pedra do Sal, espaços de memória do combate à escravidão no Brasil. 

Reduto do samba carioca, a Pedra do Sal está entre os lugares que celebram a herança do povo africano

Lugar de luta e resistência que marcou a história da cidade e, principalmente, dos negros, a área que abrange desde a Zona Portuária até a Cidade Nova, conhecida como Pequena África, hoje é lugar de encontros de turistas e moradores que buscam diversão no Rio de Janeiro. Apesar das iniciativas de revitalização do local, ainda são poucas as ações para resgatar a memória do povo que fundou a região, que tem como principal referência o Cais do Valongo, declarado recentemente Patrimônio Histórico da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Segundo historiadores, o Cais do Valong foi o maior porto atracador de navios negreiros da América Latina. Construído no fim do século XIX, ele recebeu mais de 1 milhão de pessoas entre os anos de 1774 e 1831. No ano de 1843, ele foi reformado para a chegada da Imperatriz Tereza Cristina, futura mulher do Imperador Dom Pedro II, e passou a se chamar Cais da Imperatriz.

Nomeado de Pequena África pelo compositor Heitor dos Prazeres e eternizado por historiadores, o local tem apenas um museu e um centro cultural que buscam resgatar a cultura negra e sua importância social. O nome Pequena África, segundo o professor Romulo Mattos, do Departamento de História da PUC-Rio, é uma construção histórica de intelectuais dos anos 1980, que buscavam compreender a experiência social do negro na Zona Portuária.

O território é revelado no tempo por meio de um marco: o fim da escravidão no Brasil, que fez com que muitos negros libertos se mudassem para a cidade, que era a capital do país e referência cultural e econômica. Quando já estavam no Rio, eles se instarlaram principalmente na Zona Portuária, onde já existia uma comunidade africana pré-estabelecida, como afirma Mattos.

O Largo de São Francisco da Prainha reuniu sambistas e compositores famosos, entre eles Pixinguinha

– Essa região foi se assentando ali, como um espaço importante de vivência, de experiência do negro desde o fim século XIX. Com o tempo, logicamente que essa experiência do negro vai sendo enraizada na região, por elementos como as festas, por meio do mercado de trabalho, e, porque ali é a região portuária.

Vindos de todas as partes do país, em especial da Bahia, os africanos aportavam no Cais do Valongo, de onde já eram avistados pelos negros residentes do Morro da Conceição. Em busca de ocupação, os escravos libertos encontravam trabalho principalmente na estiva. Além de ser uma atividade desvalorizada no contexto da Primeira República, ela remontava à organização de trabalho da escravidão.

A grande concentração de negros na Zona Portuária garantiu a ascensão da cultura africana, por meio dos centros de candomblé, das casas das baianas, onde havia festas com comidas típicas. Entre elas está a famosa Tia Ciata, eternizada no livro Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, do professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e cineasta Roberto Moura. Segundo Mattos, compositores e cantores influentes, como o próprio Heitor dos Prazeres, residiam na região ou, quando não, a frequentavam.

- A moderna cultura carioca é altamente tributária do cotidiano dos negros, no que chamamos de Pequena África do Rio de Janeiro. A história do samba é muito tributária dessa experiência sociocultural subalternizada, de negros e brancos, mas especialmente de negros na região portuária e das suas festas, das suas tradições culturais e religiosas. Sua importância histórica para a região é porque dali saiu o que hoje a gente chama de moderna cultura carioca. O samba, por exemplo, obteve influência nas casas das tias baianas e nas festas que lá ocorriam.

A Pequena África influenciou não só a cultura da cidade, mas do país, aponta o professor Romulo Mattos. Ele afirma que na Era Vargas, quando ocorreu a tentativa de criar uma identidade nacional, foi utilizada a concepção carioca de cultura, que estava diretamente ligada ao negro daquela região.

Para Matos, o passado de morte da Pequena África é algo pouco abordado nos tempos atuais de turismo e comércio da região. O professor explica que cultura positiva e memória de dor se misturam, pois, se de um lado está a Pedra do Sal, reduto do samba carioca, o Largo São Francisco da Prainha, os Jardins Suspensos do Valongo, do outro existe o pouco conhecido Cemitério dos Pretos Novos, onde hoje funciona o Instituto dos Pretos Novos (IPN).
Alguns africanos que aportavam no local com doenças eram abrigados nas chamadas Casas de Engorda, onde recebiam cuidados para serem vendidos pelas ruas da cidade. Os que não vingavam, ou não conseguiam ser vendidos, eram enterrados no Cemitério dos Pretos Novos, que recebeu esse nome justamente por abrigar africanos não escravizados. De acordo com Mattos, o modo de sepultamento, que não atendia às tradições ancestrais dos negros, mostrava uma faceta violenta da escravidão, que é a banalização da morte, e a percepção que os brancos da época tinham em relação ao corpo e aos objetos dos africanos. Eles poderiam ser descartados quando não fossem mais produtivos aquela sociedade.

Durante a Primeira República, no fim do século XIX, a região passou a ser estigmatizada pela grande concentração de negros. Matos explica que a Pequena África é relevante para a moderna cultura carioca e que, apesar de todo destaque que se dá ao local, é preciso desconstruir o conceito de Pequena África como algo bom, sem, contudo, apagar a história do negro na cultura do Rio de Janeiro. Para o professor, é preciso considerar a diversidade que a região da Zona Portuária teve e que resiste até os dias atuais, e relembrar também a história de luta do povo africano.

– É preciso tomar cuidado. Isso é uma construção histórica. E ela responde a questões importantes, que é o não apagamento da história dos negros na memória cultural no Rio de Janeiro. Mas, por outro lado, os historiadores têm que desconstruir essas construções históricas, de acharem que havia realmente um pedaço de África ali.

Cais do Valongo

Aterrado duas vezes, o Sítio Arqueológico do Valongo conta parte da história de escravidão no Brasil

Por decreto do Vice-Rei, Marquês do Lavradio, o porto do Rio de Janeiro foi transferido em 1774 para a região do Valongo, com o intuito de retirar da Praça XV o comércio de negros que desgastava a imagem da cidade. Com o novo cais, o tráfico de africanos também mudou, e assim nasceu a Rua do Valongo, atual Rua Camerino, onde foi criado um mercado direcionado para a escravidão.

O Cais do Valongo se tornou ponto central da região que atualmente é conhecida como Pequena África, no Rio de Janeiro. Para a professora Iamara da Silva Viana, do Departamento de História, a escolha do lugar como Patrimônio Histórico é tardia, diante da importância dele. Segundo Iamara, a seleção é fundamental não somente para os descendentes dos negros escravizados, mas para todos os brasileiros. Ela acredita que lugares como o Cais devem ser lembrados pelo passado de morte e para que a história não se repita.

– Tornar o Cais do Valongo Patrimônio Mundial traz um significado todo especial porque ele é elevado à mesma categoria de outros Patrimônios Mundiais que são igualmente importantes, como Aushwitz, o campo de concentração na Polônia, e Hiroshima, no Japão, que também foram locais de sofrimento, e isso para nós, brasileiros, é algo de grande valia.

Segundo a professora, a nomeação pela Unesco ocorreu pela maior presença política de intelectuais negros comprometidos com a história e também a intervenção do Movimento Negro. Para ela, é importante a participação de universidades e professores na formação de profissionais comprometidos com a história da escravidão no país, e com preservação da memória.

O Cais foi indicado para Patrimônio pela Prefeitura do Rio de Janeiro e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Iamara afirma que a escolha é merecida, pois marca a luta dos negros contra a escravidão e contra a opressão. Para ela, é uma forma também de manter viva a memória do local.

– Eles resistiram do jeito que podiam, matavam os seus senhores com veneno porque conheciam plantas. Se suicidavam, as mulheres abortavam, tudo isso como forma de resistir. Tentamos recuperar parte da história do Brasil que ficou esquecida por muito tempo. É um lugar de memória extremamente forte, tendo em vista que nossos antepassados construíram o que temos hoje, econômica, política, cultural e socialmente falando.

Mapa da Pequena África 

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