Incorporar saberes populares na atuação social das universidades
26/10/2017 12:54
Helena Carmona

Em palestra no auditório do RDC, padre José Ivo, S.J., afirma que as instituições de Ensino Superior jesuítas devem buscar conhecimento fora da academia  

Padre José Ivo Follmann, S.J. / Foto: Isabella Lacerda

A transdisciplinaridade, ou seja, incorporar saberes e percepções de fora da academia, é um caminho a ser trilhado pelas instituições jesuítas de Ensino Superior para a resolução de conflitos socioambientais. A afirmação é do padre José Ivo Follmann, S.J., que ministrou palestra nesta quinta-feira, 26, terceiro dia da Semana de Estudos Amazônicos (Semea). Parafraseando um antigo ditado católico, “extra Ecclesiam nulla salus” (fora da Igreja não há salvação), ele afirmou que, para as universidades, fora da transdisciplinaridade não há salvação.

O padre definiu conflitos socioambientais nos países em desenvolvimento como a expressão de uma luta contra a imposição unilateral de uma concepção de desenvolvimento da qual esses países são vítimas. Para ele, a ideia de que o planeta foi transformado em um palco de disputas está sintetizado nas batalhas travadas na Amazônia.

— Mas o que significa uma universidade apoiar a luta dos povos da Amazônia? Por trás dessa violência [contra os povos amazônicos], está uma injustiça institucional e histórica, que já está impregnada na nossa sociedade. Portanto, essa atuação não deve ser apenas assistencialista, mas também transformadora de estruturas sociais.

Padre José Ivo recorreu ao conceito de responsabilidade social universitária, do teólogo Xabier Gorostiaga, S.J., para explicar como isso se dá na prática. Ele comentou que Gorostiaga propõe que as universidades se orientem a partir de três pretensões: a sociedade que queremos, os sujeitos para essa sociedade e as universidades necessárias para formá-los.

A sociedade que queremos, para padre José Ivo, é uma com hábitos culturais radicalmente diferentes e crítica ao modelo econômico de produção e consumo, como o Papa Francisco aponta na Encíclica Laudato Si’ e seu conceito de ecologia integrada. Os sujeitos que a formam devem ser homens e mulheres competentes, mas não no sentido usual da palavra.

— Aqui, competentes não significa altamente qualificados para se venderem a peso de ouro para determinados interesses dominantes, mas sim competentes para colocar-se a serviço da construção do bem maior para todos. Por isso, não só competentes, mas também conscientes, comprometidos e compassivos.

A Universidade que formará esses indivíduos, para o religioso, deve ir além da interdisciplinaridade e em direção à transdisciplinaridade. Segundo ele, ainda há uma muralha que separa universidade e sociedade, que deve ser derrubada para dar lugar a uma forte integração, pautada no reconhecimento do outro, no compromisso social e no cuidado ambiental.

— Estar a serviço do bem comum é o papel público primeiro da universidade, porque todo ecossistema, seja ele uma favela, um empreendimento de produção agropastoril, ou uma aldeia indígena, é constituído de todas as esferas das relações humanas e naturais.

 

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