Autonomia nas mãos do ouvinte
17/11/2017 14:15
Fernanda Cubel

Programas de podcast oferecem conteúdos sob demanda

Há 13 anos, o Personal On Demand Broadcast, o Podcast, surgiu como uma opção de conteúdo de áudio por download ou streaming. No Brasil, o pioneiro foi o programa Digital Minds, lançado em 21 de outubro de 2004. Em homenagem à data, foi criado o #DiadoPodcast, um movimento anual para promover o podcast brasileiro nas redes sociais. Apesar da crescente visibilidade, a plataforma enfrenta o desafio de atrair investimentos do mercado nacional e conquistar um público acostumado a receber informação ao ligar o rádio.

O estudante de economia Miguel Gracia comenta sobre o processo de criação dos episódios do ‘Nauseante’. FOTO: Matheus Aguiar

No universo dos podcasts, os programas variam de ficção a conversas entre amigos, com temas como games, humor e tecnologia. O ouvinte pode baixar o conteúdo ou escutar por sites e aplicativos, chamados de “agregadores de podcast”. Entre eles, destacam-se o ITunes e o Teiacast, a Netflix do podcast. O diferencial é a autonomia do ouvinte: ele pode ouvir o que quiser, na hora que quiser.

Hoje, o podcast brasileiro recebe investimentos de veículos tradicionais, como a rádio CBN e o jornal O Globo. Na produção autônoma, destaca-se o Nerdcast, com um milhão de downloads por episódio. As mulheres também têm espaço na plataforma: o Mamilos, por exemplo, é referência no debate de assuntos polêmicos sob o ponto de vista feminino.

O estudante de Economia Miguel Gracia começou a gravar podcasts em maio deste ano. No Nauseante, ele fala sobre assuntos gerais, como a carreira do cantor Chris Cornell e o medo de envelhecer. Para gravar os episódios, Gracia elabora uma pauta, destaca alguns pontos e chama colaboradores. O estudante acredita que o mais difícil é conseguir “prender” o público.

- Acho que o desafio para fazer um podcast atraente é o mesmo que um professor enfrenta para dar uma aula. Você não pode perder a atenção do ouvinte e, para isso, tem que trazer algo novo o tempo todo. Para conseguir isso, o ritmo é essencial.

Apesar de abrir espaço para as produções independentes, o podcast enfrenta dificuldades no meio publicitário. Como o consumo é on demand, faltam dados que ajudem o mercado a entender como a mídia e os consumidores se comportam. Gracia gostaria de fazer do podcast seu único trabalho, mas admite ser difícil conseguir investimentos.

- Ainda estamos muito presos em mídias tradicionais. A publicidade não enxerga o podcast como uma oportunidade para fazer propaganda de nicho. Eles preferem aplicar dinheiro para colocar um comercial em uma novela das oito.

Para o professor Alexandre Caroli, do Departamento de Comunicação Social, a dificuldade em tornar o podcast rentável é um dos principais motivos para a plataforma ainda não ter alcançado tanta visibilidade no Brasil. Segundo o professor, os produtores não sentem segurança para serem podcasters de profissão.

- O problema não é o conteúdo, mas sim ter na internet uma exposição que garanta que o profissional possa viver disso. No momento em que a crise econômica der uma trégua, as possibilidades devem aumentar.

O professor Creso Soares Jr., do Departamento de Comunicação Social, defende que as empresas de Comunicação precisam monetizar as plataformas digitais. Para Creso, também é importante analisar qual será o alcance do material preparado por essas fontes autônomas.

- A ampliação da oferta de conteúdo é inevitável. Mas será que no Brasil nós vamos conseguir criar podcasters? Pessoas que sejam referência no podcast como o Felipe Neto é no Youtube?

O ouvinte de podcast está ligado ao universo digital. De acordo com Gracia, os mais velhos podem ter dificuldade para chegar ao conteúdo, o que torna o podcast menos acessível que uma rádio tradicional. Caroli argumenta que, apesar dessa limitação no acesso, há interseção entre os públicos dos dois meios.

- No momento em que a CBN produz podcast, o ouvinte passa a ser um exemplo dessa interseção. É um consumidor de uma rádio hard news, mas que convive bem com a tecnologia, a ponto de absorver o conteúdo dos podcasts.

Caroli ressalta que o crescimento do podcast será gradual, mas que não eliminará a rádio tradicional. Segundo o professor, o futuro deve ser uma grande convivência entre as plataformas de áudio.

- Se uma emissora de rádio deixar de existir a culpa não vai ser do podcast. Pode ser por uma crise de conteúdo que talvez o podcast pudesse ajudar a resolver. Mas em qualquer meio, se você tiver um produto de qualidade, você vai sobreviver.

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