Reverência a um clássico
11/05/2018 18:50
Ana Vitoria Barros

Em comemoração do aniversário do livro Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural, de Silviano Santiago, encontro promove debate e exibe vídeo-homenagem

Obra de Silviano Santiago completa 40 anos de lançamento. Foto: JP Araújo

Em homenagem aos 40 anos do livro Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural, de Silviano Santiago, uma celebração foi organizada no auditório do CTC na quarta-feira, 9 de maio. Uma mesa de debate foi realizada com os professores Eneida Leal Cunha e Frederico Coelho, do Departamento de Letras, que publicaram textos na edição de maio do Suplemento Pernambuco, dedicado à obra de Santiago e lançado na ocasião. O encontro também teve a presença do professor do Departamento de Letras da UERJ, Ítalo Moriconi, e a exibição de uma vídeo-homenagem ao escritor.

Silviano Santiago foi homenageado pela excelência de sua produção em 2017. Desta vez, o encontro foi para lembrar o clássico da crítica cultural brasileira escrito pelo autor. Durante o debate, os professores da PUC falaram sobre o conteúdo dos ensaios produzidos para o Suplemento. Para Eneida, relembrar a obra de Santiago, lançada em 1978, é importante porque possibilita abordar não somente o autor mas também o professor que ele foi durante muitos anos do Departamento de Letras.

A professora ainda mencionou a publicação sem título de Santiago conhecida entre os alunos de Doutorado como “Texto da Semente”. Apresentado como um relato de pesquisa, a professora destacou o foco que Santiago dá a carta escrita por Pero Vaz de Caminha. Para ela, o autor dialoga com o documento em um momento em que a historiografia literária é um campo de grande prestígio.

– O que me interessa nesse retorno temporal do Silviano, no modo como ele conduz o retorno no “Texto da Semente”, é que ele promove uma realocação temporal do outro contra a negação da sua contemporaneidade, promovida pela razão moderna e linear como forte efeito hierarquizante. Ele recupera no texto essa contiguidade etimológica que existe entre as ações de semear e colonizar para fazer a sua crítica à cultura histórica.

Outro ponto destacado pela professora foi o texto produzido por Santiago para a introdução de um conjunto de livros publicado em 2000 por conta da comemoração dos descobrimentos. Para ela, Santiago faz um balanço de grande parte da própria produção crítica ao apresentar a coleção. Eneida observou que, no texto da introdução, o autor não se refere a nenhum dos 11 autores presentes na obra. De acordo com Eneida, ele “vai se ocupar daquilo que esses livros não trazem”. 

– Ele abdica dos livros farol e olha no retrovisor, porque é no retrovisor que ele vai encontrar os textos que, segundo ele, constituíram as hierarquias, as separações que instituem o país.
É essa imagem vista pelo retrovisor que é mais consistente na constituição do país do que os livros farol. É nesse espelho retrovisor, intempestivo e quase a contrapelo, que ele faz uma articulação indelével entre a construção da liderança da hierarquia, da ordem social e do racismo correlato do escravismo.

A professora Eneida Leal Cunha destacou a importância de se retomar a obra publicada em 1978. Foto: JP Araújo

O professor Frederico Coelho destacou a presença do Suplemento Pernambuco atualmente no campo da crítica literária e da divulgação literária no Brasil. Ele ressaltou também como o livro Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural é ao mesmo tempo singular na força e múltiplo na perspectiva de assuntos. Ele acredita que o intelectual produziu textos que, 40 anos depois, ainda são profundamente impactantes e rendem discussões não como peça de antiquário ou arquivo, mas como pensamento vivo.

– São textos muito ricos no sentido de se ler hoje em dia entendendo a trama desse intelectual que vem com o intuito que não era comum na época: 
enfrentar o contemporâneo em um momento em que era um risco falar sobre o que estava acontecendo no calor da hora. Isso mostra também o perfil intelectual do Silviano até hoje, que não foge na hora de debater os temas mais polêmicos da contemporaneidade.

O professor do Departamento de Letras da UERJ Ítalo Moriconi fez mestrado e doutorado com Santiago e trabalha atualmente em uma coletânea de ensaios do intelectual. Ele destacou a estrutura quadripartite do clássico de 1978, que reúne a literatura comparada, os estudos de Literatura Brasileira, a produção contemporânea e uma análise e interpretação. Para Moriconi, os cursos com o autor, nos anos 1970 e 1980, moldaram o perfil dele como professor de literatura brasileira.

– A palavra que me vem à mente para resumir a personalidade intelectual do Silviano é lincado. O texto dele, essas faces dele estão o tempo todo dialogando entre si. Não há propriamente uma hierarquia, principalmente nesse momento entre os textos que foram publicados em Uma literatura nos trópicos e os textos do curso. Em um certo sentido, o texto do Silviano é hipertextual a priori. E isso é um desafio às novas gerações das áreas de letras porque eu acho que está faltando leituras mais lincadas.

Os professores Eneida Leal Cunha e Frederico Coelho, do Departamento de Letras, e Ítalo Moriconi, professor do Departamento de Letras da UERJ comentam a obra de Silviano Santiago. Foto: JP Araújo

Na segunda parte do encontro, foi exibido uma vídeo-homenagem, produzido em parceria com o Núcleo de TV do Projeto Comunicar, com uma  coletânea de depoimentos de alunos de Santiago na década de 1970. Para o intelectual, a homenagem foi bonita e comovente na medida em que os ex-alunos, hoje mestres, compartilham mais memórias com ele do que com a experiência de ter feito mestrado e doutorado na PUC.

– Eu achei curioso que muitos dos depoimentos giravam em torno disso, que é importante no ensino. Não é o papel solitário de um indivíduo, mas é a constituição de uma rede em que todas as pessoas têm uma importância relativa e uma importância substantiva na medida em que constituem à sua maneira de dar aula, de escrever, de publicar livros e, sobretudo, de pensar a cultura brasileira. É muito bonito ver que, diversos alunos daquela época, hoje professores, grandes pensadores, lembram aqueles tempos.

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