A Amazônia no coração da Igreja e da Universidade
02/06/2020 22:53
Letícia Messias e Paula Veiga

Professores e representantes da Igreja abordam diferentes resoluções da Universidade para a proteção da Floresta Amazônica e seus povos

Organizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (NIMA) e transmitido on-line, o seminário Sínodo para a Amazônia – Resultados e Ações ocorreu na sexta-feira, dia 22. O encontro tratou de ações realizadas pela Universidade com base nas propostas elaboradas no Sínodo para a Amazônia, em outubro de 2019, a partir de uma iniciativa do Papa Francisco frente à realidade da Pan-Amazônia. A PUC-Rio desenvolve projetos que articulam a comunidade acadêmica e a floresta, com o objetivo de envolver diversos setores da instituição.

Dentro das iniciativas abordadas, a professora Virginia Totti Guimarães, do Departamento de Direito, debateu sobre o trabalho da Universidade relacionado aos direitos humanos na região. A PUC-Rio se responsabilizou pelo fornecimento de subsídios para a elaboração de um informe especial de violação de direitos humanos de povos indígenas e tribais na Panamazônia. Nas palavras da professora, o informe deve ser um instrumento de defesa de direitos, e a Universidade ganha um protagonismo importante ao divulgar o documento de uma forma acessível aos povos amazônicos.

Já o professor Felipe Sussekind, do Departamento de Ciências Sociais, trouxe para a pauta de discussões o mapeamento Pan-Amazônico para se pensar na violação de direito. A partir deste trabalho, ele afirmou que há uma incompatibilidade do pensamento branco com qualquer tipo de alteridade, o que resulta em violência contra os povos da Amazônia, em ações diretas e indiretas, com a destruição de costumes e integrantes das tribos. O trabalho elaborado por Sussekind divide a ofensiva contra os indígenas em três categorias: ecocídio, genocídio e etnocídio, com a morte do corpo, do espírito e do habitat dos povos.

O empreendimento, no entanto, não se limita para fora do campus. A professora Maria Helena Rodriguez, do Instituto de Relações Internacionais, destacou a criação da disciplina Pan-Amazônia, uma iniciativa do Instituto de Relações Internacionais (IRI) para inserir a floresta no centro das discussões. De acordo com ela, a ideia surgiu a partir da análise dos debates ocorridos em torno do assunto, com pautas sobre crise ambiental, pressão econômica e um modelo predatório extrativista, além da ameaça contra os povos indígenas. Ela afirmou que, no meio destas questões, havia poucos projetos qualificados para apresentar uma análise sem viés ideológico. 

— Estamos realizando uma experiência piloto neste semestre, com o objetivo de trazer um projeto interdisciplinar em que todos os departamentos possam fazer parte. Neste momento, nós temos aproximadamente 25 alunos matriculados, de diferentes cursos. Ficamos felizes, pois, mesmo em um semestre tão conturbado como este, nós conseguimos acolher tantos estudantes de diferentes áreas. Seguiremos com este propósito para os próximos anos. 

Diálogo com a ciência e a universidade

Ao fazer um panorama sobre os últimos anos do Sínodo, a professora Moema Miranda, do Departamento de Filosofia, destacou a Carta Laudato Si’ e afirmou que o pontificado do Papa Francisco busca trazer um diálogo mais profundo com a ciência. Ela relembrou, ainda, o que este momento pode significar para a preservação da Amazônia, pois, de acordo com a professora, durante a pandemia, madeireiros e garimpeiros avançam e destroem ainda mais a floresta. Neste sentido, a participação da Igreja e o diálogo com as universidades se tornam, segundo ela, ainda mais importantes.

— Neste mundo pandêmico, madeireiros e garimpeiros não fazem home office. Eles estão avançando e destruindo a floresta Amazônica, causando um estrago imenso. A força da Igreja se faz exigência. E acho que o diálogo com as Pontifícias são de imensa importância. Acho que o capital está se organizando para voltar com mais voracidade para atuar nessas áreas. A floresta está chegando ao limite, e nós temos o dever moral, ético e espiritual de nos somarmos em uma ação solidária, urgente e emergente em defesa da Amazônia.

A professora Eva Miranda Rezende, do Departamento de Teologia, fez um panorama sobre o documento final do Sínodo e destacou a mudança climática. De acordo com ela, o manifesto faz um apelo ao mundo e convida todos os países para participarem solidariamente em defesa do bioma amazônico. Há o reconhecimento de que existem leis, mas, segundo ela, são violadas pelo extrativismo, que ocorre com impunidade. Eva ressalta, ainda, que defender os Direitos Humanos no local não é apenas um dever político e social, mas também cristão. 

— O Sínodo pontua muito bem que a dimensão política e ética da palavra de Deus com a vida é fundamental, e ele faz uma pergunta clara: de que lado nós estamos? Diante de todos os abusos feitos à Amazônia e aos seus povos, qual é o nosso posicionamento enquanto cristãos? Ele denuncia a violação dos Direitos Humanos, os danos socioecológicos que ocorrem. É um apelo muito forte. E aí eu destaco o trabalho da PUC como uma grande inserção da comunhão entre o conhecimento científico, teológico e o dos povos tradicionais. É um belo trabalho e queremos que seja ainda mais aprofundado. 

Um relato gravado pelo Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J. foi apresentado durante o debate. Ele refletiu sobre a importância de discutir a temática do Sínodo da Amazônia no meio acadêmico e na sociedade. Para o Reitor, a gravidade que afeta a região não se limita à devastação da floresta, mas também o novo vírus que abala o povo residente da Amazônia.

Em defesa da Amazônia

O professor da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (PUG) padre Adelson Araújo, S.J., reforçou a abordagem, ao lembrar do envolvimento da Igreja com a floresta ao longo dos anos. Segundo o religioso, em 1971 o Papa Paulo VI já dizia que “o Cristo aponta para a Amazônia” e, em 1980 e em 1991, o Papa encontrou líderes indígenas na Amazônia durante visitas ao Brasil. Padre Adelson Araújo também lembrou a afirmação do Papa Francisco: “A Amazônia é um teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira”.

— A primeira frase que o Papa Francisco me disse foi: ‘a Amazônia está em meu coração’. É um terreno fértil para nascer um símbolo. O espírito de Deus está movendo nossa presença para a Amazônia, é um chamado para novos caminhos de evangelização. Devemos continuar nos incomodando, no bom sentido da palavra, para que não nos acomodemos. 

O debate teve a participação do diretor do Departamento de Teologia, padre Waldecir Gonzaga, do professor da PUC padre Adelson Araújo dos Santos, S.J., do diretor do Departamento de Ciências Sociais, professor Marcelo Burgos, da professora Virginia Totti Guimarães, do Departamento de Direito, do professor Felipe Sussekind, do Departamento de Ciências Sociais, do professor Luiz Felipe Guanaes, do Departamento de Geografia e Meio Ambiente, da professora Juliana da Silva, do Nima, do Coordenador da Coordenação Central de Estágios e Serviços Profissionais, professor André Lacombe, do Departamento de Administração, da professora Maria Helena Rodriguez, do IRI, da professora Eva Aparecida Rezende, do Departamento de Teologia, e da doutoranda Moema Miranda, do Departamento de Filosofia.

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