Futuro do setor energético
22/09/2020 20:00
José Abreu

Em Aula Inaugural, profissionais da área de energia refletem sobre os rumos do mercado na pós-pandemia

Profissionais da área de energia refletem sobre os rumos do mercado na pós-pandemia.

A Aula Inaugural do curso de pós-graduação MBE Energia, no dia 2 de setembro, promoveu uma discussão sobre as perspectivas do setor energético mundial e brasileiro. Pontos como as transformações no mercado, energia renovável e o uso do hidrogênio foram abordados pelo diretor geral da GM Siemens Brasil, André Clark, pela presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, Clarissa Lins, pelo diretor-presidente da Cosan, Luiz Henrique Guimarães, e pelo presidente ENGIE Brasil Maurício Bähr, que participaram da webinar O mundo pós-pandemia e os caminhos para o setor de energia no Brasil. 

O primeiro tópico que foi levantado foi o estado de transição da matriz energética mundial, que reduz o uso de produtos de óleo & gás para aderir a fontes renováveis de energia. O investimento global em energias renováveis atingiu US$ 288,9 bilhões em 2018, superando o valor do apoio financeiro à geração de energia a partir de combustíveis fósseis no mesmo ano.  

Um dos coordenadores do Instituto de Energia da PUC-Rio (IEPUC), o professor David Zylbersztajn foi um dos mediadores do debate e assinalou como as mudanças de matriz têm transformado empresas radicalmente há anos, a exemplo da montadora de carros elétricos Tesla que também investe pesado no ramo de energia. A companhia de Elon Musk alcançou o valor recorde de US$209,47 bilhões, mais alto que o preço de mercado de Volkswagen, Honda, Mercedes Benz e Ferrari combinadas. A estatística é mais destoante se comparado o número de carros produzidos: 10,8 milhões de automóveis do Grupo Volkswagen, contra 365 mil da Tesla. 

- Eu hoje presido o conselho de administração da Light e uma das minhas grandes preocupações, em termos de futuro, é não saber se uma empresa de distribuição de energia do jeito que ela é hoje, é capaz de sobreviver (às  mudanças do mercado) – assinalou Zylbersztajn, que mediou o encontro com o com outro coordenador da pós, professor Eloi Fernández Y Fernández.

Com a ampliação dos mercados e o surgimento de novas companhias, as empresas tradicionais expandem para melhor reagir a transformações drásticas. Pensando nisso, a multinacional alemã Siemens vai lançar no dia 1º de outubro um outro braço corporativo: A Siemens Energy. O diretor geral, André Clark, comentou que a nova companhia terá ações na bolsa negociadas em breve e já vai enfrentar alguns desafios pela frente.  

- É uma empresa que nasce com a seguinte questão: A demanda do mundo para energia elétrica vai crescer 50% até 2040, no entanto, existem 850 milhões de pessoas sem energia elétrica. Como é que estas pessoas vão consumir energia? E a grande questão: qual qualidade de energia?

O fenômeno de eletrificação – amplificação da infraestrutura da energia elétrica em locais que ainda não têm este tipo de sistema - já ocorre em algumas áreas, mas, apontam os profissionais da área, aumentará simultaneamente com a energia eólica, hidrelétrica, solar e a biomassa. Para Clark, por mais que estas matrizes tenham acumulado US$2,5 trilhões na última década, é uma nova e ainda desconhecida commodity que será responsável por uma mudança ainda mais profunda: O hidrogênio. 

- Hidrogênio verde é basicamente o hidrogênio gerado por energias renováveis, transformado em energia e pode ser retransformado em qualquer tipo de molécula transportável. A principal matéria-prima? Água e energia-elétrica. Isto o Brasil tem de sobra. 

O hidrogênio é o elemento químico mais comum do universo e, de acordo com Clark, dentre todos os países o Brasil é o com maior potencial para ser o principal participante no mercado mundial.

- Nunca se pensou a possibilidade de exportação de energia nessa escala e deste tipo no mundo, está nascendo, há muito debate ainda. A agência mundial de energia renovável está discutindo e já fez um pré-estudo sobre isso em termos de competitividade, e o Brasil está no topo da lista nesta área. Talvez tenhamos que debater bem isso, porque pode ser a próxima política pública brasileira, como forma de exportar energia limpa de alta qualidade para terceiros países, e o próprio Brasil.

Clarissa Lins indicou uma expansão da matriz hidrogênio dentro do fenômeno da eletrificação, influenciada pela grande indústria do óleo e gás que tem como principal produto os combustíveis fósseis, que são grande fonte de hidrocarbonetos. 

- A eletrificação é uma tendência inexorável, na medida em que precisamos descarbonizar também. Mas temos que encontrar esse novo papel e a contribuição para a indústria de óleo e gás, que permanece como indústria completamente relevante, sobretudo para aqueles setores em que a eletrificação é mais desafiadora do ponto de vista tecnológico. E aí surge o hidrogênio como uma ponte, que, no mínimo, aguça a nossa curiosidade.

Potência renovável já consolidada

Apesar de o Brasil ter a possibilidade de tornar-se a maior potência em produção de energia a partir do hidrogênio, o país já é protagonista nas energias renováveis há algumas décadas.  Somente em 2015, o Brasil investiu mais de US$ 7 bilhões (R$ 27 bilhões) em renováveis não convencionais e R$ 226 bilhões em energias renováveis. O diretor-presidente da Cosan, Luiz Henrique Guimarães, destacou que, apesar dos problemas, o Brasil precisa mostrar o que tem de melhor. 

- Nós temos muitos problemas como o desmatamento na Amazônia, mas não é só isso que o Brasil é. O Brasil tem muito mais do que os problemas que ele tem, e nós temos, como brasileiros, defender essa agenda (contra o desmatamento). Fazemos coisas erradas, e tenho certeza que como sociedade vamos corrigir, mas deve-se mostrar tudo de bom que nós temos, a enorme pujança da nossa indústria com 45% de (matrizes) renováveis enquanto a média mundial é 15%. 

O presidente da ENGIE Brasil, Maurício Bähr ressaltou também um quadro favorável de legislações e políticas públicas no país para o setor de energia. Segundo ele, no cenário da pandemia, em que as incertezas são muitas, o setor de energia manteve-se resoluto.

- As políticas públicas hoje em andamento no país são muito interessantes e são muito confiáveis, estamos passando por um momento de pandemia e em nenhum momento vimos algum tipo de desabastecimento. A logística do país continua funcionando maravilhosamente bem, energia elétrica abundante disponível.

Mais Recentes
Sustentabilidade Global
Conferência Anual da SDSN Brasil tem como tema central Cooperação para um Futuro Equitativo
Integrações de sucesso
PUC HACK premia três equipes que apresentaram soluções inovadoras para a sociedade afetada pela pandemia
Novo tecido antiviral para máscaras de proteção à Covid-19
Iniciativa é fruto de uma parceria entre o Centro Técnico Científico da PUC-Rio, Inmetro e Coppe/UFRJ