Universidade, um canal de democratização do poder
22/03/2021 15:22
Maria Clara Aucar e Nathalia Movilla

Em Aula Inaugural do Departamento de Filosofia, professora Marilena Chaui defendeu a urgência de lutar contra a crueldade e o ódio ao pensamento

Marilena Chaui durante Aula Inaugural. Arte: Rayanne Azevedo

A professora emérita da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí ministrou, no dia 15, a Aula Inaugural do Departamento de Filosofia. Durante o encontro, cujo tema foi Obra do Pensamento: o trabalho universitário, a escritora, que é uma estudiosa da obra do filósofo do século XVII Baruch Espinoza, destacou a necessidade de combater a crueldade e o ódio ao pensamento. A palestra foi mediada pelo Coordenador de Graduação do departamento, professor Edgar Lyra, e pelo assessor especial da Reitoria, professor Danilo Marcondes.

Marilena citou o momento crítico em que a população brasileira vive e como autoridades do país, segundo ela, têm uma fala cruel. Por causa disso, ela enfatizou a necessidade de as universidades promoverem discussões profundas sobre como um discurso como este promove um ódio ao conhecimento e ao pensamento. Doutora Honoris Causa pelas Universidades de Paris, Córdoba, San Juan, Sergipe e Brasília, Marilena ressaltou os direitos pelos quais as minorias alcançam a igualdade e têm a possibilidade de reivindicá-los.

- Um direito não é particular e específico, ele é geral e universal. Válido para todos os indivíduos, todos os grupos e todas as classes sociais; mesmo quando são direitos específicos como os das chamadas minorias.

Para a filósofa, não é por acaso que o ódio ao pensamento tenha desencadeado políticas de desclassificação de todas as formas de escolas e universidades. Marilena afirmou que o neoliberalismo introduz a universidade como organização ao defini-la como empresa. Ao citar a obra O naufrágio da universidade, de Michel Freitag, ela lembrou que a universidade sempre foi uma instituição social, regida por um princípio de diferenciação que lhe confere autonomia perante outras instituições.

- A universidade tornou-se inseparável das ideias de formação, reflexão, criação e crítica. Com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade se tornou também uma instituição inseparável da ideia de democracia e de democratização do saber. É isto a universidade. Contra o ódio ao pensamento, contra o cinismo, contra a arrogância da terra plana e da vacina que nos transforma em jacarés.

Ao ser questionada pelo professor Edgar Lyra sobre a linguagem hermética utilizada pelas universidades, a filósofa relembrou a sua tese de doutorado, finalizada há 50 anos. Ela recordou que o início do doutorado foi na França, e a tese abordaria ontologia de Espinoza. Mas com a decretação do Ato Institucional 5 (AI-5), a situação da USP ficou vulnerável e ela decidiu fazer o doutorado no país com outro tema. Para encaixar o trabalho com a realidade brasileira, a filósofa decidiu falar sobre a discussão de Espinoza acerca do direito à liberdade política e à crítica a todas as formas de violência. Após cinco décadas, a escritora lamentou ao dizer que, se fosse hoje, ainda seria necessário abordar este assunto.

- É preciso compreender que ao trabalhar com os outros e ao querer que a obra de pensamento seja algo coletivo, a linguagem hermética fecha todas as portas e a linguagem fácil não abre nenhuma. Nós temos que encontrar o meio termo, e esperando, tanto como Dante e como Drummond, que no meio do caminho a gente não se perca.

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