Narrativas sobre o feminicídio
20/04/2021 17:45
Esther Obriem

A pesquisadora Flora Thomson-DeVeaux revela como foi a produção do podcast Praia dos Ossos sobre o assassinato de Ângela Diniz

Em 30 de dezembro de 1976, a socialite mineira Ângela Diniz foi assassinada pelo namorado com quatro tiros em uma casa na Praia dos Ossos, em Búzios. O empresário Doca Street (1934-2020) foi condenado e teve o direito de cumprir a pena em liberdade com argumento que agiu em legítima defesa da honra. Após 40 anos do crime, a Rádio Novelo lançou o podcast Praia dos Ossos para investigar os detalhes do caso. A pesquisadora e coordenadora de produção do programa, Flora Thomson-DeVeaux, participou de uma palestra, no dia 15 de abril, em que apresentou um pouco do processo de criação e apontou o legado do programa para as novas gerações. 

A obra é composta por oito episódios com duração média de 50 minutos com uma análise minuciosa do assassinato e materiais jornalísticos da década de 1970. O podcast não é dividido em ordem cronológica, mas cada parte tem uma dinâmica específica de contar a história com objetivo de prender a atenção dos ouvintes. Flora destacou que a capacidade de imaginar o cenário com poucas descrições permitiu à equipe explorar os recursos sonoros para ajudar na ambientação.

– Pode parecer muito descrição, mas não chega perto do que lemos em um texto. Tentamos pincelar, e é incrível como um pouco vai longe no podcast, porque, se eu falo duas coisas sobre a casa, você consegue imaginar um pouco. A dificuldade é qual detalhe escolher e qual vai ser mais chamativo. Se gastarmos muito tempo em descrição visual, acaba parecendo um pouco pobre, então, nós damos só umas pinceladas para ambientar e tentamos explorar a parte sonora.

O Brasil ocupa o 5° lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Para Flora, o aspecto central do podcast não é, necessariamente, o uso de histórias deste tipo de violência contra a mulher, mas a forma como as pessoas reproduzem os casos. Segundo ela, a equipe que produziu Praia dos Ossos estava em um campo com conceitos machistas e generalizados, mas, completou, um possível legado do programa é a conscientização da maneira que a história dos crimes é narrada na sociedade. 

– O podcast está muito em cima de como as narrativas nascem, evoluem, são reproduzidas e ganham mais autoridade, e do dano que isso pode trazer tanto para as pessoas quanto para a sociedade. Não é que somente um podcast vai resolver tudo, mas um legado possível é se, depois de ouvir o programa, a pessoa ficar mais atenta como os crimes, e mais especificamente o feminicídio, são narrados em todas as instâncias. 

Pesquisadora e coordenadora de produção do podcast Praia dos Ossos, Flora Thomson-DeVeaux. Foto: Rayanne Azevedo

Flora explicou que o site oficial do podcast e o grupo do facebook foram desenvolvidos após a equipe analisar produtos estrangeiros que constroem um universo narrativo. Segundo a coordenadora de conteúdo, todos os componentes que não cabem no programa, como a questão visual, são publicados nas páginas oficiais do Praia dos Ossos. Ela também comentou que a diretora de estratégia, Kellen Moraes, tinha o intuito de ir além da plataforma e criar uma experiência 360° para os ouvintes.

– A ideia também ficou muito clara quando visitamos o jornal O Estado de Minas e eles puxaram um material da Ângela Diniz, que era composto por pilhas de fotos. É um acervo que não estava disponível em outro lugar, mas que sabíamos que o ouvinte ia amar consumir. Nós distribuíamos estes conteúdos bônus nas plataformas. E as partes da minha pesquisa, eu publicava quase como uma coluna no grupo do facebook para criar algo mais dinâmico e porque o pessoal tinha muita curiosidade. 

A coordenadora de conteúdo lembrou que a locução do repórter Ingo Ostrovsky no programa foi um caminho para solucionar a ausência de registros de reportagens em rádio da época. De acordo com Flora, o jornalista narra todos os materiais antigos para representar uma voz do passado e para os ouvintes não confundirem com os arquivos originais. Ela acredita que Ostrovsky consegue representar a multiplicidade de personagens, como colunistas sociais, da década de 1970. 

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