Espaços de identidade de negros e pardos
12/05/2021 19:44
João Jorge

Livro de professor da PUC-Rio conta a história dos clubes dançantes cariocas do século XX

Reprodução do livro A cidade que dança, de Leonardo Pereira

Em 1906, o poeta Olavo Bilac declarou que “O Rio de Janeiro é a cidade que dança”. A frase serviu de inspiração para o título do livro do professor Leonardo Pereira, do Departamento de História, que conta a trajetória dos clubes dançantes do Rio de Janeiro da Primeira República. A cidade que dança: clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933) preenche uma lacuna historiográfica ao descrever a jornada de associações carnavalescas e de dança. 

Pereira revela o surgimento destes locais a partir da relação deles com a política, religião, o racismo e até feminismo. Os grêmios eram formados majoritariamente por trabalhadores de baixa renda negros e pardos, que usavam o espaço para lazer. Por causa do constante controle policial exercido com a população negra na Primeira República, os sócios das associações se aproveitavam da legalidade dos clubes para forjar uma área livre de repressão, onde poderiam afirmar a legitimidade das próprias práticas culturais. 

- Os trabalhadores negros e pardos viram neste tipo de sociedade recreativa, que era legalizada, uma forma de conseguir a licença policial para criar seus espaços de lazer. Eram pessoas que não podiam participar dos clubes das elites da cidade. Mas que criaram, a partir de espaços precários, - às vezes em cortiços ou na sala de um dos sócios - associações com certa independência – afirma Pereira.

Segundo o professor, os clubes de maioria negra prevaleceram e expandiram a “febre dançante” citada no poema de Olavo Bilac. Já na década de 1920, quase todos os bairros da periferia do Rio tinham grêmios. O autor do livro ressalta também que a composição étnica das associações fomentou uma articulação importante entre os trabalhadores negros. Com os clubes, eles passaram a ter um ambiente importante de experiência cotidiana, articulação de laços de sociabilidade e afirmação das experiências em comum.

- Estes clubes foram espaços importantes de articulação e afirmação de legitimidade de trabalhadores negros e pardos. A partir destas associações, eles conseguiram um jeito de se inserir numa ordem republicana que tentava excluí-los.

O objetivo era o lazer, mas a atmosfera das agremiações carnavalescas se misturou com a religião. A presença de lideranças da religiosidade afro-brasileira nos clubes era comum, como no caso de João Alabá. O babalorixá fundou e presidiu a Liga Africana, uma famosa associação dançante dos anos 1910, cuja sede era a casa dele.

Ideia de nacionalidade mestiça 

Os clubes de maioria negra prevaleceram e expandiram a “febre dançante” citada no poema de Olavo Bilac. Reprodução do livro A cidade que dança

A influência, no entanto, não ficou restrita à religião. Segundo Pereira, os grêmios aos poucos conquistaram a imprensa carioca. A transformação das associações em um fenômeno social mais amplo, afirma o professor, está ligada aos diálogos estabelecidos pelos integrantes dos clubes com o universo letrado e com a imprensa.

- No mesmo momento de surgimento dos clubes dançantes, os jornais já tinham se constituído como uma empresa comercial que tentava expandir a base de leitores. Para atrair novos consumidores, os grandes jornais do Rio passaram a atentar para a força do fenômeno dos clubes dançantes. Este processo começa com a atuação de um jornalista negro do Jornal do Brasil, Francisco Guimarães, o ‘Vagalume’. 

Segundo o historiador, o sucesso da coluna do “Vagalume” fez com que os grandes jornais do Rio também criassem espaços de divulgação das atividades das pequenas associações dançantes. O que, por sua vez, aumentou a legitimidade das agremiações e reforçou o fenômeno. A partir deste período, assinala Pereira, as tradições culturais negras passaram a integrar a base de uma nova ideia de nacionalidade, uma nacionalidade mestiça.

Com a aceitação na imprensa e sendo bem-vistos pela sociedade, os clubes ganharam cada vez mais importância política, apesar do sistema eleitoral excludente do país. De acordo com o professor, os trabalhadores negros e pardos não ficaram passivos em relação à falta de representatividade e usaram o ambiente da associação para concretizar negociações políticas.

- As agremiações se convertiam em espaços de lutas dos trabalhadores, como em protestos e passeatas de operários. Eles também passam a apoiar candidatos ligados ao seu meio social e a sua causa. Isto acontece tanto em eleições locais quanto em eleições presidenciais. Não é por acaso que, já na década de 1910 e 1920, muitos destes grêmios recreativos entraram na folha de pagamento eleitoral de lideranças políticas importantes do Rio de Janeiro. 

Clubes dançantes cariocas do século XX. Reprodução do livro A cidade que dança

O autor de A cidade que dança: clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933) lembra que a campanha presidencial de Hermes da Fonseca foi uma das primeiras que se valeu grandemente do apoio das associações carnavalescas. Depois que Hermes da Fonseca foi eleito, ele reconheceu, inclusive, a legitimidade dos clubes.

Pereira fez também uma descoberta durante a pesquisa do livro: a forte presença feminina nos grêmios dançantes. De início, apenas os homens compunham a diretoria das associações, mas, com o tempo, a participação das mulheres aumentou. 

- Um resultado surpreendente da pesquisa foi a percepção de que a participação das mulheres mudou ao longo do tempo. Elas aos poucos foram entrando nas diretorias dos clubes. Até chegar ao ponto de associações que tinham a diretoria completamente feminina. Ou seja, você tinha disputas de gênero dentro dos próprios grêmios, pelos quais as mulheres trabalhadoras tentavam afirmar o espaço de atividade na esfera pública.

O historiador ressalta ainda que, apesar da distância temporal entre os fatos do livro e os dias de hoje, o preconceito contra a periferia não mudou. Pereira afirma que antes da aceitação social, os clubes dançantes eram malvistos e taxados de promover uma musicalidade associada à barbárie, sexualização e promiscuidade. 

- O preconceito apenas muda de forma e de objeto. A forma como o funk e os bailes funk são vistos no Rio de Janeiro é muito parecida. A criminalização do espaço de lazer da juventude negra e periférica ainda é muito semelhante ao discurso de criminalização e ataque dos espaços dançantes do início do século 20 – aponta. 

Serviço:

A cidade que dança: clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933)

Autor: Leonardo Affonso de Miranda Pereira

Editora da Unicamp

Ano da Publicação: 2020

Páginas: 360 

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