A importância da água nas diversas sociedades
07/07/2021 13:39
Gabriel Meirelles e Lorena Teixeira

Seminário Internacional Leaving No One Behind – Water and Inequalities mostra relação entre oferta de água no mundo e a desigualdade social

Com a finalidade de discutir sobre a água e a desigualdade social, a PUC-Rio recebeu pesquisadores por videoconferência na sexta-feira, dia 2 julho, no seminário internacional Leaving No One Behind – Water and Inequalities. O debate teve a participação de professores da Universidade e de convidados da Índia, da República Democrática do Congo e de outros países.

O Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., foi o primeiro a falar na abertura do seminário. Doutor em Botânica, o sacerdote tem como inspiração para abordar o assunto da água e desigualdade social a encíclica Laudato Si, do Papa Francisco. O texto traz as questões do esgotamento dos recursos hídricos, da impossibilidade de manter uma sustentabilidade da água com os padrões de consumo de hoje e da qualidade da água para as comunidades mais pobres. Padre Josafá discorre sobre “uma nova hidroética”, que tem quatro pilares acerca da água: uma concepção menos econômica e mais sistêmica (como este recurso está presente nas culturas, religiões e ecossistemas); a importância nas mudanças climáticas; reeducação ambiental; e preservação para as gerações futuras.

– Temos que olhar uma concepção mais sistêmica da água. Nos dias de hoje, sua concepção é mais econômica, e não tanto sistêmica. Precisamos ver a importância da água nas culturas e na perspectiva teológica, porque é um fator muito importante para as religiões. Por exemplo, o uso nas dimensões sacramentais e para purificação – afirma.

Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J.

O presidente do Conselho do Programa Hidrológico Internacional (IHP) da UNESCO, Fadi Georges Comair, revelou que a nona fase do programa foi aprovada na véspera do seminário (no dia 1º de julho) pelo conselho. Segundo Comair, foram definidas cinco prioridades para serem desenvolvidas até 2030: pesquisa científica e inovação; educação quanto à importância da água no mundo atual; compartilhamento de dados e conhecimentos; inclusão do conceito de gestão hídrica no contexto das mudanças globais; e governança com base na ciência para melhor adaptação e resiliência. O presidente do IHP afirmou, ainda, que a união entre as nações é fundamental para o sucesso desta estratégia.

– Eu realmente gostaria que a água fosse uma questão de ética porque ela une todas as pessoas do mundo, independentemente de suas religiões e origens étnicas. A água não deveria ser uma ferramenta usada para a guerra, mas sim para a paz. Não deveria ser administrada de maneira hegemônica, mas equitativa e racional, para que a próxima geração garanta água para suas vidas e a segurança alimentar – observa.

Fadi Comair, presidente do Conselho do Programa Hidrológico Internacional (IHP) da UNESCO

O Decano do Centro de Ciências Sociais, professor Luiz Roberto Cunha, apresentou a PUC-Rio aos participantes estrangeiros no início do seminário. O economista ressaltou as características naturais do Campus, como a vegetação e a presença de macacos e esquilos, além da estrutura física e a divisão em centros acadêmicos. Cunha destacou alguns programas sociais e ambientais realizados pela PUC-Rio. Um deles foi o auxílio oferecido pela Universidade aos estudantes que tiveram dificuldades em frequentar as aulas online por conta da falta de internet ou equipamentos eletrônicos.

– Com a pandemia, muitos alunos não tinham acesso a computadores ou internet. Iniciamos um programa de inclusão digital, pelo qual 633 estudantes foram beneficiados com 517 computadores e 362 cartões para o acesso à internet. Professores, outros alunos e a sociedade doaram material ou verba para essa ação. Esta é uma campanha de inclusão muito importante, porque como estamos trabalhando online, todos os estudantes podem ter a mesma condição (de acompanhar as atividades acadêmicas) – compartilha.

Decano do Centro de Ciências Sociais, professor Luiz Roberto Cunha

Membro do Comitê Científico e Técnico da Fundação Príncipe Alberto II de Mônaco, a doutora Milagros Couchoud apresentou as particularidades da região do Mar Mediterrâneo, uma das áreas mais afetadas pelas mudanças globais. Segundo ela, 250 milhões de habitantes estarão expostos à extrema pobreza se não houver a aplicação de soluções para o acesso à água. A presidente de honra do Instituto Mediterráneo del Agua trouxe alguns caminhos para a resolução do problema, como a mobilização de recursos convencionais e não-convencionais e a conscientização de que a água é um bem público. Couchoud mostrou, ainda, alguns exemplos de técnicas antigas para a distribuição de água em países como Tunísia, Egito, Argélia, França e Malta, e concluiu com o apelo para o melhor uso da tecnologia em favor da equidade hídrica.

Doutora Milagros Couchoud, presidente de honra do Instituto Mediterráneo del Agua

O professor Rogério Ribeiro de Oliveira, do Departamento de Geografia, foi convidado para falar sobre as florestas, a água e as pessoas do Rio de Janeiro. Ele comentou sobre a produção de café, carvão, cana-de-açúcar e a agricultura desde os séculos XVII e XIX até hoje. Oliveira também falou sobre a população das favelas, por exemplo, a Rocinha, localizada em um dos morros do Rio de Janeiro e que, por conta disso, encontra dificuldade no acesso à água e utilizam os pequenos riachos presentes nos morros para suprir essa falta. E abordou, no fim da apresentação, um dos perigos existentes para as pessoas que vivem perto das montanhas: o deslizamento. 

– Muitas florestas não estão bem conservadas, por isso, acontecem os deslizamentos quando ocorrem chuvas muito fortes. Se as florestas estão bem conservadas, as possibilidades de deslizamentos acontecerem são menores. E a causa das destruições das florestas são as queimadas que ocorrem com muita frequência no calor – sinalizou.

O professor do Departamento de Serviço Social Rafael Soares Gonçalves falou sobre as catástrofes provocadas por chuvas nas favelas do Rio de Janeiro e os projetos comunitários de reflorestamento das encostas da cidade. Logo após, a professora Maria Sarah da Silva Telles, do Departamento de Ciências Sociais, foi convidada para apresentar uma análise sobre as desigualdades no Brasil.

Professor Rogério de Oliveira (à esquerda); professor Rafael Gonçalves (à direita); e professora Maria Telles (embaixo)

A professora Nilza Rogéria de Andrade Nunes, do Departamento de Serviço Social, encerrou o evento com uma abordagem sobre o trabalho precário no Brasil e a pandemia da COVID-19. Segundo ela, o Brasil vive em um capitalismo destrutivo que é responsável pela destruição dos direitos sociais do trabalho, que está causando uma grande massa de indivíduos sem trabalho, sem salário e segurança social.

– A posição do governo federal do Brasil, no contexto da pandemia, é pautada pelo movimento de salvar a economia pelo qual, consequentemente, está aumentando cada vez mais a pobreza da classe trabalhadora. No primeiro trimestre de 2021, o Brasil teve 50 milhões desempregados, uma taxa de emprego de 14,8% e 6 milhões de pessoas desanimadas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar – comenta.

Professora do Departamento de Serviço Social, Nilza Rogéria Nunes

De acordo com o titular da cátedra Paul Poupard na Universidade de Santo André (Mumbai, Índia) e um dos organizadores do evento, Giuseppe Musumeci, a segunda parte do seminário Leaving No One Behind – Water and Inequalities ocorrerá no dia 8 de outubro.

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