Acumular riqueza é desafio maior para mães independentes
30/09/2021 15:17
Giovana Sargentelli e Vinicius Portella

Pesquisa de doutorado de ex-aluna da PUC-Rio revela o impacto do nascimento de uma criança na renda de mulheres e homens que criam filhos sozinhos.

O debate sobre a desigualdade de gênero e o seu reflexo na desigualdade econômica tem crescido ao redor do mundo. As diferentes análises sobre esta relação normalmente esbarram na disparidade entre os salários de homens e mulheres; na dificuldade de inserção feminina no mercado pela presença de estereótipos sexistas; e em normas sociais que relegam a mulher às profissões de menor poder político e financeiro. Estas são questões da pesquisa de doutorado de Renata Almeida, jornalista formada na PUC-Rio, ex-repórter da TV PUC e economista, que vive em Oslo, capital da Noruega, e traz uma nova perspectiva acerca do tema.

Jornalista e economista Renata Almeida. Foto: TV PUC-Rio

A análise foca na maternidade e na paternidade como fatores determinantes para a diferença do acúmulo de riqueza entre homens e mulheres. A partir dos dados disponibilizados em 2016 pelo Eurosystem Household Finance and Consumption survey, do Banco Central Europeu, a doutoranda observou quatro grupos: pais e mães que criam os filhos sozinhos, e mulheres e homens solteiros que não precisam sustentar ninguém. 

 

Os resultados apontam para uma grande disparidade no rendimento de pessoas cisgêneras do sexo masculino e feminino. Mulheres que criam sozinhas um filho acumulam menos riqueza que as que não têm filhos (27%) e os pais que criam filhos sozinhos (40%). Ou seja, mesmo sem a obrigação de gastar com uma criança, as mulheres independentes ainda são menos beneficiadas que os homens. Os pais solteiros compõem o grupo mais privilegiado, inclusive ganham mais que os homens sem filhos. A média é de 31% a mais, quando comparados às pessoas sem crianças dependentes e às mães, dado que reforça o objeto central da pesquisa: os homens recebem um “prêmio” financeiro após o nascimento de um filho, enquanto as mulheres são prejudicadas quando se encontram na mesma situação.

Photo by Sandy Millar on Unsplash

Uma das principais causas para tamanha disparidade é o conjunto de normas sociais estabelecido em cada sociedade. Diante da estrutura social sexista que determina a criação de um filho como responsabilidade feminina, a mulher geralmente divide o trabalho e os estudos com as tarefas domésticas. Assim, os países mais tradicionais, no que diz respeito às relações sociais e de gênero, costumam apresentar maior desigualdade na acumulação de riqueza. 

 

- É claro que essas normas sociais se refletem no mercado de trabalho, em como vai ser a dinâmica familiar após o casamento e após o nascimento dos filhos. Por exemplo, a Noruega é o país com maior número de mulheres CEOs no mundo, e é um país que tem um nível de normas sociais tradicionais mais baixo. 

 

Entre a faixa etária dos 16 e 34 anos, a desigualdade de renda entre os grupos existe, mas não é tão relevante. Com o passar do tempo, a diferença aumenta e aprofunda o abismo econômico já presente na sociedade. A pesquisa mostra que a situação se agrava a partir do choque demográfico determinado pelo nascimento de uma criança. É comum ver mulheres abandonarem o emprego para cuidar do bebê e, de acordo com a pesquisa, a perda salarial não é recuperada no futuro.

 

Mecanismo adotado na Noruega, a licença paternidade é um dos instrumentos que pode equalizar a situação e diminuir a disparidade econômica. No Brasil, enquanto as mães têm direito a quatro ou seis meses de interrupção, a licença parental vai de cinco a 20 dias. Esta estrutura do mercado de trabalho favorece os pais e gera um cenário de maior poder financeiro nas mãos dos homens, como observa Renata.

 

- Os homens quando viram pais não sofrem uma penalidade no mercado de trabalho e na progressão de carreira. Na verdade, eles têm uma maior facilidade em conseguir promoções e melhores salários. Isto se reflete, obviamente, na habilidade em que eles têm de fazer investimentos, de ter as economias maiores, de ter um retorno de renda maior. Com todos estes passos, eles geram uma riqueza maior lá na frente.

 

Apesar de terem uma expectativa de vida maior, as mulheres se aposentam mais cedo e acumulam menos riqueza do que os homens. A lacuna de renda prejudica a capacidade de poupança e impacta os níveis de consumo. As mães economizam 23% a menos em relação àqueles que não têm filhos, ao passo que os pais não sofrem este impacto negativo. Assim, a participação das mulheres no mercado financeiro e a capacidade de realizar investimentos de alto risco são menores, já que há menos segurança e mais instabilidade financeira. Renata ressalta que as consequências desta desigualdade não se restringem à esfera privada e interferem diretamente na organização política e econômica da estrutura social.

 

- Isso tem implicações na sociedade, em termos de quanto essas mulheres têm poder de barganha em diversas esferas da vida delas. Não só dentro de casa, mas também na vida pública, no debate público, nas decisões políticas, nas empresas. Em todas as discussões pertinentes à sociedade.

 

A pesquisa desmistifica a ideia de que a diferença de renda viria da simples preferência das mulheres por determinadas profissões, pela falta de habilidade e educação financeira ou pela questão da maternidade. O ponto central está na falta de equidade determinada por uma estrutura social que privilegia o homem em detrimento da mulher, sob o signo de normas e comportamentos estabelecidos em todas as esferas da vida. Assim, o nascimento de uma criança produz efeitos opostos para pais e mães independentes, e a desigualdade de gênero se perpetua a partir da disparidade econômica.

 

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