Fábulas e fantasias para melhorar a cognição
19/10/2021 15:11
Gabriel Meirelles

Em tese de doutorado, psicóloga cria um jogo de RPG para auxiliar jovens com Transtorno do Espectro Autista

Caverna é um dos cenários desafiantes que fazem parte das histórias do jogo Fábulas & Fantasias / Foto: Jeremy Bishop on Unsplashed 

Uma psicóloga elaborou um jogo de RPG (jogo de interpretação de papéis) para auxiliar no desenvolvimento de crianças de 9 a 12 anos de idade com Transtorno do Espectro Autista (TEA) leve. Andreza Moraes da Silva defendeu a tese de doutorado no dia 2 de setembro sob a orientação da professora do Helenice Charchat Fichman, do Departamento de Psicologia, e com co-orientação do professor Leonardo Cardarelli, do Departamento de Artes & Design. O objetivo da ferramenta é estimular nos jogadores a flexibilidade cognitiva – capacidade de lidar com a novidade, com o diferente.

Intitulado Fábulas & Fantasias, o jogo consiste em pequenas aventuras que exigem dos participantes cooperação, a fim de que eles encontrem soluções criativas e incomuns para o cotidiano deles. Um dos personagens é o mestre, papel desempenhado por um neuropsicólogo. Ele fica responsável por conduzir a história, mediar a interação das crianças e avaliar se a solução proposta é adequada para resolver determinado problema. Antes do início da narrativa, os demais participantes recebem duas cartas cada com utensílios a serem usados nos desafios. Algumas possibilidades de objetos para os jogadores são espada, maçã, balde e corda. Com estes pertences, as crianças pensam em maneiras de derrotar vilões, como o ogro de duas cabeças.

Cartas em preto e branco de Fábulas & Fantasias. Elas são do formato tarot e medem 8x11cm / Crédito: Isadora de Luna

Além das cartas em preto e branco, há outros dois materiais físicos: o manual com as regras e as histórias e dois dados de seis lados – um branco, menor, e um dourado, maior. O objetivo dos dados é motivar as crianças a pensarem de maneira flexível. Se a ideia sugerida por elas atender o objetivo, elas ganham o direito de jogar o dado dourado. Se não, lançam o dado branco.  Fábulas & Fantasias não abre espaço para o fracasso. Se a solução proposta não for flexível, o mestre vai usar um discurso de motivação para incentivar as crianças a “pensar fora da caixa” na tentativa seguinte.

Para Fábulas & Fantasias chegar ao formato final, Andreza realizou, com auxílio da equipe do SPA (Serviço de Psicologia Aplicada) da PUC-Rio sessões com um grupo de três meninos diagnosticados com TEA leve e que apresentam facilidade de comunicação. Ela conta que estava nítido nos rostos deles o envolvimento na atividade e a alegria em participar da brincadeira. Segundo Andreza, as crianças riam das situações e não queriam ir embora. A psicóloga compartilhou os comentários das mães dos garotos e disse estar muito satisfeita com o resultado do trabalho. O jogo cumpriu o objetivo e trouxe mais qualidade de vida para os jovens e seus familiares.

– De acordo com as mães, os meninos estavam mais felizes e era o lugar onde mais gostavam de ir. Para um deles, o mais introspectivo, era o único lugar que gostava de ir. Outro não participava de nada na escola, mas aceitou jogar handebol. Todas as mães trouxeram que os filhos estavam mais falantes e querendo ajudar em casa – revela.

Psicóloga e doutora Andreza Moraes da Silva, criadora do jogo Fábulas & Fantasias

Andreza ressalta o potencial das crianças, que, mesmo com as dificuldades geradas pelo TEA, conseguem alcançar êxito nas atividades cotidianas caso recebam a ajuda necessária. A psicóloga acredita que uma das razões para a felicidade dos meninos com Fábulas & Fantasias é a sensação de pertencimento e de eles poderem ser autênticos. Segundo ela, os rapazes passaram por situações de bullying nas escolas por serem diferentes dos colegas.

– O que me trouxe aqui é enxergar o potencial destes garotos. É não criar a expectativa de ver crianças impotentes quando ouvir o diagnóstico TEA. Pelo contrário. É ver tudo o que elas podem fazer e oferecer formas de elas se mostrarem, porque mesmo com todas as dificuldades de socializar, elas procuram, querem e buscam esta troca. Elas têm este desejo e sofrem por não conseguir se enquadrar no mundo como ele é – observa.

Jogos e funções cognitivas

Para a orientadora do projeto, professora Helenice Charchat Fichman, poucas pesquisas evidenciam a importância e a validade dos jogos em tratamentos neuropsicológicos, e o trabalho de Andreza se torna um diferencial na busca por este reconhecimento científico. A coordenadora do SPA defende que os jogos sérios devem ser analisados e testados para verificar se eles ajudam, de fato, no desenvolvimento de habilidades humanas, já que são aliados no tratamento de crianças, principalmente com TEA, segundo a professora.

– A ideia inicial da Andreza era fazer um doutorado que pudesse pensar em algum tipo de intervenção dentro da prática clínica, mas no formato de pesquisa. A gente está vendo para o futuro a possibilidade de usar os jogos para treinar as funções cognitivas comprometidas e até mesmo habilidades sociais, porque eles têm um potencial muito grande de simular as atividades da vida diária – afirma.

Professora Helenice Charchat Fichman, orientadora de Andreza / Foto: Matheus Aguiar

O co-orientador, professor Leonardo Cardarelli, explica porque o RPG é o estilo de jogo mais adequado à finalidade do trabalho de Andreza. Neste modelo, os jogadores criam personagens para si, raciocinam as melhores formas de atravessar as etapas, e o mestre avalia se as proposições estão dentro das regras ou não. O professor-mentor do Prisma Game Lab ressalta a importância de Fábulas & Fantasias não ser digital. Segundo ele, as crianças já vivem inseridas em um mundo eletrônico, então o jogo de mesa, além de proporcionar uma interação maior entre os participantes, contribui para tirar os jovens do cotidiano e estimular ainda mais a flexibilidade cognitiva.

– O RPG é um tipo de jogo que, apesar de ter regras, não há soluções prontas. Ele vai muito nesta dinâmica de apresentar um problema, ouvir uma solução e tentar adequá-la ao conjunto de regras. Dentro destas possibilidades é que o RPG é importante para os jovens com TEA, porque eles têm dificuldade de improvisar, de pensar numa saída alternativa. Não há uma resposta certa. Quase tudo é possível dentro deste universo fantasioso. Isto em si já estimula uma estrutura mais aberta de resposta – explica.

Cardarelli acredita que os jogos são meios excelentes para a formação de caráter. O designer destaca a socialização que eles permitem e como a simulação de situações irreais agrega à vida dos participantes. Ele desmente a ideia do jogo como “perda de tempo” e uma maneira de ocupar o ócio. O professor alerta, no entanto, para a problemática dos jogos de azar – pois ultrapassam o limite saudável entre a simulação e o mundo concreto – e para o consumo em excesso das atividades lúdicas, que desconecta a pessoa da realidade e pode gerar sedentarismo.

– Os jogos têm este potencial catártico, mas também ensinam muito sobre ética, moral e o nosso comportamento, como a gente reagiria em situações específicas de pressão, de adversidades. Eles permitem que a gente experimente tudo isto dentro de um ambiente lúdico, porém seguro, sem consequências. Você pode brigar com o amigo, discutir com ele, ficar naquele calor do momento, você pode ficar aborrecido, mas acabou o jogo e a amizade volta – analisa.

Professor Leonardo Cardarelli, co-orientador de Andreza

Apesar de a tese de doutorado ter sido aprovada pela banca, Andreza pretende desenvolver mais o jogo Fábulas & Fantasias. Segundo ela, os próximos passos são fazer algumas adaptações ao manual e à produção final para poder ter um resultado sobre a eficácia da ferramenta por meio da aplicação em outros grupos de crianças. Esta nova etapa vai ser realizada na Santa Casa, mas a data ainda não foi marcada.

Esta não foi a primeira vez que Helenice e Leonardo trabalharam juntos na utilização de jogos para fins clínicos. Ambos auxiliaram na criação do Souvenir, do então mestrando Gabriel Areal Costa e Silva. A ferramenta eletrônica tem como objetivo auxiliar no tratamento de idosos com Alzheimer leve e consiste em espalhar objetos do cotidiano por uma casa virtual e procurá-los depois de assistir a um vídeo de dois minutos. O intuito é exercitar a memória de curto prazo, a principal área afetada pela doença.

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