Construção de teias para ensino e aprendizagem
01/12/2021 17:37
Carolina Smolentzov

Função dos livros didáticos foi tema do primeiro dia de encontro do III TEIAS

Ler é mais importante que estudar? Este questionamento, feito originalmente pelo cartunista mineiro Ziraldo, foi um dos fios condutores para a discussão sobre a relação entre educação, livros didáticos e literatura no Brasil. Os temas foram abordados no III TEIAS – Congresso Transformações no Ensino pela Inclusão para Aprendizagens com foco na sustentabilidade humana. Durante o congresso, profissionais da educação de várias instituições se reuniram para avaliar a questão dos materiais didáticos e do sistema educacional vigente. Entre eles, o consenso foi que a formação dos professores é incompleta, porque não inclui a produção dos próprios recursos pedagógicos e os torna reféns de materiais limitantes.

Para tentar responder à indagação de Ziraldo, o professor Guto Lins, do Departamento de Artes & Design, fez uma ponte entre o livro de literatura e o livro didático, em relação ao conteúdo e à questão de mercado. Ilustrador de livros infantis, o professor livros infantis, explicou que, além do número de livros per capita no Brasil ser baixo, os títulos são na maioria didáticos, fornecidos pelas escolas. O hábito de leitura, pouco exercido no país, apontou Lins, produz um impacto na formação de alunos e professores. Segundo o designer, a literatura ajuda uma pessoa a se colocar no lugar do outro, o que quebra preconceitos e favorece o respeito às diferenças.

- A escola que temos hoje forma cidadãos? Nós estamos formando profissionais ou formando adultos? Todo o ensino não formal e a literatura têm um papel fundamental nisto. Eu acho que ler é mais importante que estudar. A literatura faz a gente querer estudar, ser curioso, ter capacidade de ter escolhas e desenhar o próprio destino. Estudar é isso, e a gente se abrir para o mundo, entender o que está a nossa volta, se relacionar com as pessoas e com o mundo. A leitura abre portas, que, infelizmente, a escola tem fechado - observou Lins.

Professor Guto Lins

Professor do Departamento de Comunicação Social na UFF, Alexandre Farbiarz demonstrou formas de adaptar o ensino à realidade atual – de pandemia e ensino remoto – com as próprias experiências em sala de aula. Junto aos alunos da graduação em Jornalismo, ele aplica o método da gameficação: a partir de missões inseridas dentro do universo de um jogo virtual, eles devem adentrar a narrativa do game e aprender com os conteúdos programáticos da disciplina. Neste caso, o objetivo final do jogo concebido por Farbiarz é combater um dragão medieval que acaba com a comunicação.

A cada semana, os alunos são desafiados com “feitiços”, e devem produzir relatos para subir de “nível místico”. Tudo isso é associado ao conteúdo e às competências da disciplina. De acordo com o professor, o game e outros recursos didáticos usados são formas divertidas de motivar e engajar, de modo a dar ao estudante um papel ativo, ao invés de o aluno assistir os conteúdos de forma passiva. Assim, é possível fortalecer participação e engajamento, não só no jogo, mas também na disciplina. Além disso, apontou Farbiarz, o principal objetivo é estimular a diversidade e a criatividade das formas de expressão no uso de mídias, já que os estudantes usarão estes recursos profissionalmente na carreira de jornalismo.

Professor Alexandre Farbiarz

Além das soluções, no entanto, é preciso também examinar as origens do problema do livro didático. Para esta tarefa, a mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens do CEFET-MG Vanessa Teixeira pesquisa a produção editorial brasileira de livros didáticos de inglês no ensino básico. A aluna investiga como é o processo de decisão por parte dos editores de livros ao tratar dos temas transversais. Estas definições, segundo ela, reverberam no ensino e na aprendizagem de inglês

Os temas transversais, mencionados por Vanessa, são previamente definidos pelo Ministério da Educação, e têm o objetivo de motivar os estudantes a refletir sobre a sociedade. Porém, de acordo com a mestranda, os produtores destes livros temem sofrer pressões internas e externas ao tratar de tópicos sensíveis e polêmicos. Por isso, ela argumenta que, uma vez que o livro didático é um produto criado especificamente para a escola, é importante entender os limites e a dimensão do poder de quem o produz.

- Muitas vezes, o livro didático é a principal fonte de informação que configura uma autoridade na sala de aula. Mas antes dele exercer este papel tão importante no ensino, ele também está inserido na esfera mercadológica, e está sujeito a interferências no processo de produção e circulação. Este material não é criado apenas para atender demandas pedagógicas, ele acaba levando determinações políticas e econômicas para o currículo escolar.

O mediador da discussão, professor do Departamento de Linguagem e Tecnologia do CEFET-MG Renato Caixeta da Silva, forneceu um panorama da situação de materiais didáticos durante a pandemia. Durante a fala, ele frisou elementos como a dificuldade de adaptar a cultura educacional ao ensino remoto, e a importância da produção de materiais didáticos na formação acadêmica de professores. Segundo ele, é preciso considerar as questões locais e não gerais, algo que não foi levando em conta durante a pandemia. Para o professor, houve apenas uma transposição do que se faz na sala de aula presencial para o remoto, o que ele apontou como erro, uma vez que são realidades e dinâmicas completamente diferentes. Caixeta afirmou que a produção de material deve ser parte da formação docente.

- Não houve tempo ou expectativa de criar um material bem elaborado, não houve investimento na educação. E há ainda uma dificuldade de quebrar essa cultura educacional vigente, que está arraigada nos professores, nos alunos, nos gestores e no próprio material didático convencional. Todos seguem o modelo presencial e tradicional, que de certa forma desmerece o aluno como agente e o trata como ser passivo. A pandemia veio descortinar toda a fragilidade desta cultura educacional.

Professor Renato Caixeta da Silva

No final da mesa, Caixeta citou um trecho do poema do poeta e cordelista brasileiro Bráulio Bessa, chamado A Força do Professor.

Já na terceira edição, o TEIAS contou com convidados do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), da Universidade Federal Fluminense (UFF), e dos departamentos de Artes & Design e de Letras da PUC-Rio. Durante a abertura do congresso, os organizadores conversaram sobre a origem do encontro e celebraram a duradoura interdisciplinaridade entre os departamentos de Artes & Design e Letras. A professora Barbara Jane Wilcox Hemais, do Departamento de Letras, relembrou que o seminário foi concebido junto à professora e diretora do Departamento de Artes & Design, Jackeline Farbiarz. Segundo Bárbara, as duas acreditavam que algo faltava na discussão dos livros didáticos e ensino de línguas.

- Começamos a achar que tínhamos que abrir um espaço para as pessoas falarem, juntar professores com o mercado editorial, escolas, pais, alunos e academia, e achar espaços para discutir. Achávamos que era importante essa troca entre mercado e ensino. Eram ideias caras para nós e mereciam atenção.

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