Caminhos do fascismo
11/05/2022 15:15
Rafael Serfaty

Professores analisam as configurações da extrema direita no século XXI

Em 20 de janeiro de 1942, altas autoridades nazistas se reuniram em Wannsee, subúrbio de Berlim, para coordenar a “Solução Final”, projeto para exterminar os judeus. Foi o início do Holocausto. Mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, esta ideologia ainda encontra ecos na atualidade. De acordo com dados divulgados em janeiro de 2022, no jornal O Globo, em três anos, grupos neonazistas cresceram 270% no Brasil. Há 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10 mil pessoas.

Professor de História Contemporânea na PUC-Rio, Leonardo Carvalho aponta a existência de uma conjuntura que favorece discursos de ódio, a solução de conflitos por meio da violência. Há incentivo governamental para o armamento, e Carvalho afirma que isto se cruza com outro debate contemporâneo: o das mídias sociais. Para ele, essas tecnologias incentivam o anonimato.

– Nada disso é aleatório. Existem pessoas que se sentem legitimadas a dizer barbaridades contra grupos sociais minoritários, atentando contra os direitos das pessoas. Boa parte deles se organiza e troca informações pela deep web. Depois, a comunicação deles se torna mais intensa por esses aplicativos de mensagens utilizados cotidianamente, como o WhatsApp e o Telegram. O próprio Telegram tem uma segurança mais restrita, que dificulta a filtragem das mensagens e o acesso das forças de segurança aos grupos deles. É mais difícil coibir a disseminação de notícias falsas.

A deep web é traduzida literalmente como “internet profunda”: a camada que guarda todo tipo de informação que requer senhas, logins, tokens e usa criptografia para ser acessada. O professor alega que o nazismo foi revolucionário ao se apropriar dos novos meios de comunicação e canalizá-los para seus objetivos políticos. Para ele, hoje podemos ver algo semelhante, só que com outra roupagem. E estes grupos neonazistas estão espalhados por diversos estados do Brasil, especialmente no Sul e no Sudeste.

– Isso é histórico e tem a ver com a imigração europeia. Os primeiros focos das células e Landesgruppe (grupos locais) eram formados por imigrantes alemães. Muitos deles sequer reivindicaram cidadania brasileira e aprenderam a falar o português. Dentro desses grupos, ainda vigora a visão estereotipada de que eles são ‘mais europeus’, e isto confere mais credibilidade aos membros desses lugares.

Professor Leonardo Carvalho

O segundo Brasil

Carvalho diz que a tendência de aparecimento dos grupos neonazistas acompanha a do separatismo – por motivos econômicos ou identitários – no Brasil. E ele aponta que, mesmo após a exclusão do espaço público, há vários indícios de que esses grupos existem de forma diferenciada, principalmente por uma organização chamada DAF (Deutsche Arbeitsfront): a frente para os trabalhadores alemães.

– Os canais de propaganda foram mantidos intocados mesmo depois de 1938, desde que eles se enquadrassem à censura do Estado Novo e, de acordo com a nova lei de imprensa, fossem publicados em português e estivessem registrados em nome de cidadãos brasileiros.

A carona

O neonazismo, entretanto, é apenas uma das diversas ramificações da extrema direita. De acordo com o professor Romulo Mattos, especializado em História Contemporânea, o nazismo é uma manifestação extremada do fascismo. Ao mesmo tempo, nem toda extrema direita é fascista. Mattos alega que, dentro do eleitorado do presidente Jair Bolsonaro (PL), há anarcocapitalistas, monarquistas, evangélicos, entre outros. O professor acredita que Bolsonaro unificou as extremas direitas dispersas no Brasil, e essas ideologias foram beneficiadas por fatos recentes da política nacional.

Mattos aponta que todo o bombardeamento contra as esquerdas e o PT, devido aos episódios de corrupção, culminou numa pauta única na imprensa. Isto gerou uma crise de representação política e uma crise econômica, mais para o fim dos governos petistas – inflação, desemprego. Para ele, houve uma reação às demandas das esquerdas no espaço público.

– A extrema direita pegou carona nessa reação às conquistas da era petista. Houve aumento no poder de consumo dos trabalhadores, que levou empregadas domésticas a frequentar lugares como aeroportos. A política de cotas fez com que filhos da classe média disputassem vagas com filhos de porteiros. É uma reação contra o achatamento da pirâmide social. Há uma estratégia de ‘nós contra eles’.

Mattos afirma que Bolsonaro atrai um eleitorado que cultua a violência, com caráter destrutivo e irracional. Segundo ele, é uma ideologia repressiva, na qual pode-se identificar um nacionalismo autoritário e conservador, além da politização do racismo e do machismo. O professor acredita que entender como as pessoas pensam é fundamental para o combate ao fascismo.

– É importante qualificar o debate para que isto que chamamos de fascismo não se torne um mero instrumento para xingar o outro. Quem não sabe o que está combatendo jamais vai ganhar a luta. Você precisa entender qual é o seu inimigo. O fascismo do século XXI, no Brasil, cresceu devido à falta de debate.

Embora haja escândalos de corrupção e uma condução questionável da pandemia, ainda há uma ala que se mantém firme ao atual governo. De acordo com a mais recente Pesquisa Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), o presidente soma 31% das intenções de voto, e hoje é um dos favoritos a ir para o segundo turno, junto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 44%.

Professor Romulo Mattos (Foto: Thaiane Vieira)

Liberdade para quem?

O youtuber Bruno Aiub, conhecido como Monark, foi desligado do podcast Flow, no dia 9 de fevereiro, após ter defendido, em uma conversa com os deputados federais Kim Kataguiri (DEM-SP) e Tabata Amaral (PSB-SP), que o Brasil deveria ter um partido nazista legalizado. "A esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical. As duas tinham que ter espaço. Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei", disse Monark.

A repercussão negativa da fala fez o programa perder vários patrocinadores, a ponto de o youtuber se justificar que “estava bêbado”. Pouco depois, o  Ministério Público de São Paulo (MP-SP) anunciou que investigaria o apresentador Monark pelas falas durante o episódio do Flow Podcast, por suposto crime de apologia ao nazismo. Embora Carvalho não acredite que esse seja o caso, ele considera a declaração bastante problemática.

– Em stricto sensu, pegando o que é dito, não é apologia ao nazismo. Mas o relativismo com qualquer organização que se aproxime do nazismo é extremamente pernicioso. Supor que isto é uma das prerrogativas democráticas do pluralismo partidário é uma leitura deturpada do conceito de liberdade de expressão. O limite da liberdade de expressão vai até o ponto onde se defende projetos de sociedade em que a diferença é negada.

O professor aponta que não há fórmula para combater o discurso de ódio. Porém, diz que o Estado deveria impor sanções a essas pessoas e dar repercussão às consequências que o discurso de ódio pode ter – inclusive nas redes sociais, descritas por Carvalho como “terra de ninguém”. O problema, para ele, é a vontade política de executar a lei.

– A lei contra o racismo existe há muito tempo. É difícil que alguém que seja encarcerado cometa um crime como esse. Mas é importante ter um estágio anterior a esse, que é o da formação dos chamados operadores do Direito. Temos que criar sensibilidade nas pessoas que têm o papel de processar essas ações. Elas devem produzir efeito. A questão fundamental é encarar isso como um problema já importante. Haver um protocolo disseminado de alto a baixo sobre como se lida com crimes de ódio. O exemplo vem de cima.

Futuro nebuloso

O Brasil, no entanto, não é o único país que deveria se preocupar com o crescimento da extrema direita. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán saiu como o grande vitorioso nas eleições de 3 de março, apesar de a oposição ter costurado uma ampla aliança para tentar vencer o líder populista. Na França, a candidata de extrema direita Marine Le Pen registrou uma votação recorde para o partido, com 12 milhões de votos, contra 17 milhões para Macron.

Le Pen foi normalizada como parte do cenário político e ganhou o status hoje de principal oposição ao poder. Na primeira vez que a extrema direita esteve no segundo turno francês, em 2002, teve menos de 18% dos votos. Le Pen teve cerca de 42% dos votos este ano. Para Mattos, houve um fortalecimento da ideologia.

– O avanço é evidente. Dentro dos marcos da democracia cada vez mais blindada às reivindicações sociais, vemos a combinação de um ultraliberalismo econômico com um ultraconservadorismo. Preconceitos ancestrais voltam à tona. O fascismo do século XXI ganha força com a crise social, seja ela decorrente das políticas econômicas neoliberais do fim dos anos 80, seja através da crise econômica em escala global de 2008.

Segundo Mattos, os liberais se renderam aos nazistas nos tempos de Hitler. Curiosamente, no fascismo do século XXI ocorre o contrário: ele se rende ao neoliberalismo. O professor afirma que a pandemia piorou a situação, e que o eventual vencedor das eleições brasileiras de 2022, caso queira brecar o avanço da extrema direita em solo nacional, precisa solucionar esta crise. Mas é incerto se o atual favorito – ex-presidente Lula (PT) – seria o nome mais adequado.

– O governo Lula não se distanciou do neoliberalismo. Os próprios ideólogos petistas enxergam uma continuidade da época do FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). O aprofundamento das receitas neoliberais leva a crises sociais. Não sabemos a real extensão da capacidade do projeto petista em responder a essa imposição do bloco neoliberal, ou se mesmo isto é uma intenção deste governo.

Até a escolha de Geraldo Alckmin (PSB) como vice da chapa, antigo adversário de Lula em pleitos passados, ganha uma conotação mais profunda neste contexto. Mattos alega que o objetivo não é garantir votos para o PT, mas dar um recado para o mercado, de que ele não vai contrariar os interesses do neoliberalismo brasileiro. É uma tentativa de aceitação da candidatura pelos empresários. Entretanto, se mesmo assim Bolsonaro for reeleito, o professor aponta um cenário desastroso para a esquerda.

– Em 2018, ainda havia aquele discurso de que o Lula não pôde se candidatar. Uma vitória contra o principal candidato da oposição seria bem mais expressiva, significaria maior poder de barganha para o Bolsonaro. Existem projetos no Congresso que tratam da criminalização do socialismo. Seria terra arrasada para as esquerdas, que podem temer o pior. Ele avançaria muito mais no terreno das contrarreformas sociais, com medidas impopulares. O que resta da Constituição de 1988 tem enormes chances de ser jogado por terra. Se o Lula não for capaz de pará-lo, quem vai ser?

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