Mitos modernos
23/06/2022 16:52
Carolina Smolentzov

Há 65 anos, Roland Barthes lançava o livro ‘Mitologias’, importante obra da semiologia

(Arte: Emanuel Leite)

Em 1957, o semiólogo, escritor, crítico literário e filósofo francês Roland Barthes afirmava no livro Mitologias: o mito é uma fala. Passadas seis décadas e meia, esta afirmação mostra-se ainda complexa e relevante. A obra reuniu uma série de ensaios sobre os mitos cotidianos da sociedade francesa, e até hoje influencia diversas áreas do pensamento, como a comunicação social, a psicologia e o design.

Entre os temas discutidos, estão as lutas de catch, o cérebro de Albert Einstein, o vinho francês e a astrologia. Nestes ensaios, Barthes faz uma análise semiológica do que ele entende como mito. Segundo o autor, não é uma fala qualquer, é um discurso escolhido pela história, que é roubado, e surge em uma situação de conflito. Isto porque estas falas partem da linguagem e atribuem a ela um novo significado. Desta forma, o mito está escrito na cultura e coordena a vida social, além de transmitir valores e ideologias que são aceitos como naturais.

Embora sejam sobre a França dos anos 1950, os ensaios de Barthes podem dialogar diretamente com as sociedades ocidentais contemporâneas, inclusive o Brasil de 2022. De acordo com o professor Lenivaldo Gomes, do Departamento de Comunicação, alguns mitos brasileiros podem ser identificados em falas como “inflação é um monstro”, “imposto é roubo”, e “bandido bom é bandido morto”. Em todos estes casos, aponta o professor, uma conotação mitológica é criada, para que mensagens políticas sejam transmitidas de forma subliminar.

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Para o professor, o livro permanece atual porque o homem é um ser de linguagem. Por isso, a semiologia em Mitologias oferece instrumentos de interpretação da realidade para que, a partir dos conceitos organizados por Barthes, o leitor possa intervir no mundo em que vive.

- Os conceitos são instrumentos teóricos, não verdades universais: são comparados a uma tesoura, uma faca, um serrote, um martelo, uma chave de fenda. Você utiliza para operar na realidade; produzir e desmontar a mensagem. Barthes nos dá elementos que, quando se tornam orgânicos, ficam com a gente. É importante que a gente não despreze a teoria no mundo da informação fast food. Teorizar é contemplar.

Outro exemplo de uma linguagem mitificada é a publicidade. No mundo da tecnologia, o símbolo da maçã, da Apple, é um signo mítico. Gomes explica que, aquilo que antes significava apenas uma fruta mordida, torna-se, pelo processo da mitificação, uma fala de exclusividade e de um grupo seleto.

- Não é todo mundo que pode comprar, e nem todo mundo vai ter inteligência suficiente para lidar com essa linguagem. O sistema não é amigável, ele cria um cerco do qual é muito difícil você migrar. Se você é deste grupo, você não precisa trocar. Não vá com os plebeus, você é um rei.

 

Grupo Barthes

No Programa de Pós-Graduação Departamento de Artes & Design, Roland Barthes é o tema de estudos sobre corpo, gênero, subjetividade e cidades. O Grupo Barthes foi criado em 2004 para atender, de acordo com a coordenadora, professora Denise Portinari, uma demanda reprimida dentro do DAD. Ela conta que a porta de entrada foi Mitologias -  uma leitura que traz a dimensão poética quanto a possibilidade crítica.

Foto: Acervo Grupo Barthes

- O design é muitas vezes um reprodutor do status quo, de formas de normatividade. Barthes nos ajuda a desmontar o estereótipo e nos propõe uma forma poética de pensamento crítico: ele tinha verdadeira aversão ao estereótipo, este monstro que dorme em cada signo. Barthes é sempre apaixonado, não necessariamente pelo objeto da crítica, mas pela própria forma, e pela maneira como a forma se conduz. Isso traz ferramentas interessantes para um pensamento crítico dentro do campo design.

A pesquisadora explica que a reflexão e os instrumentos de crítica propostos por Barthes continuam relevantes, apesar de datados. Os mitos, além de servirem para mascarar uma situação de conflito, não param de se produzir. Hoje, no entanto, são mais difundidos e têm um alcance muito maior. Nesse sentido, Denise exemplifica o mito como fake news. Em Mitologias, Barthes afirma que o mito distorce, mas não esconde nada, e é importante que ele mostre tudo.

- Isto nos serve para pensar o mecanismo dessa fábrica de falsidades. O mito é um falseamento, no sentido que ele procura apresentar alguma coisa meio estapafúrdia de uma maneira que aquilo pareça perfeitamente natural. É interessante essa volta do parafuso que a direita aprendeu a dar, fazendo uma espécie de mitologias às avessas.

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