Silêncio e escuta
24/06/2022 15:59
Gabriel Meirelles

Centro Loyola abre as portas no último sábado do mês para momentos de espiritualidade

Momento de formação com o padre Anderson Antonio Pedroso, S.J / Foto: Gabriel Meirelles

Depois de dois anos fechado por conta da pandemia, o Centro Loyola de Fé e Cultura voltou com as programações presenciais em 2022. Como parte desta retomada, o Centro iniciou em maio o “Sábado de Espiritualidade”. Todo último sábado do mês, o local abre as portas para acolher pessoas que desejam participar de momentos de formação e oração na casa de retiro. O diretor do Centro Loyola e Vice- Reitor Geral, padre Anderson Antonio Pedroso, S.J., classificou este período de isolamento como um trauma na realidade de muitas famílias, e que estes encontros mensais podem servir como instrumento de escuta de Deus e do irmão.

As atividades iniciam de manhã com a apresentação de um ponto de oração, seguido de um período de silêncio no qual cada participante pode circular pela casa enquanto medita os pontos propostos. Após o almoço, a dinâmica se repete com a proposta de um aspecto diferente. O dia se encerra às 16h com a celebração da missa na capela São José de Anchieta.

Padre Anderson encerrou o encontro com a celebração da missa / Foto: Gabriel Meirelles

Padre Anderson destacou o impacto da Covid-19 na vida de cada indivíduo e  recordou uma frase do Papa Francisco na festa de Pentecostes em 2020. Na ocasião, o Sumo Pontífice disse que ninguém sairia igual deste período. Para o Vice-Reitor Geral da PUC-Rio, as pessoas precisam verbalizar as dificuldades vividas durante a pandemia e serem escutadas.

— Eu acho que, mais do que nunca, as pessoas estão precisando de lugares para serem acolhidas, escutadas, para recomeçar a vida. Depois de sofrer uma situação difícil, você não pode fazer de conta que não aconteceu nada. A gente tem que amadurecer isto, tem que cuidar. Acho que é esta a necessidade agora. A pandemia pede esta escuta, esta elaboração interior para retomar a vida de verdade. Todo mundo tem que pensar um pouco sobre o que foi esta experiência.

O Centro Loyola visa à adesão cada vez maior de jovens ao Sábado de Espiritualidade. Apesar de a proposta envolver momentos de silêncio e meditação pessoal, padre Anderson observou que os participantes serão também ouvidos. Assim como a pandemia ampliou a necessidade de escutar o próximo, o religioso acredita que é preciso ter uma escuta dos jovens. Para ele, este gesto educa-os a também escutarem o outro e Deus.

— Na verdade, o silêncio é escuta. Se você escuta uma pessoa, vai chegar um momento em que ela aprende a escutar, e aí é que vem o aprendizado da oração em silêncio. Ninguém faz silêncio se nunca viu alguém fazer silêncio. Ninguém escuta se nunca foi escutado. Os jovens vão ser escutados, e aí certamente vão aprender a questão da oração em silêncio.

Participantes se reúnem em círculo para ouvir uma música de apenas uma estrofe. A repetição dos versos contribui para a fixação do conteúdo e faz parte da espiritualidade inaciana / Foto: Gabriel Meirelles

Padre Anderson comparou o retorno das atividades presenciais no Centro Loyola com uma pessoa contaminada pelo coronavírus. Por conta desse reinício, os encontros neste ano serão apenas uma vez por mês. A casa precisou de reformas na parte hidráulica, no telhado, na construção e na segurança.

— Tivemos que ver tanta coisa, parte material, e de fato ela foi cuidada e agora começa a respirar de novo a espiritualidade. É uma casa muito grande, não se pode fazer qualquer reforma porque ela é uma obra arquitetônica, e aí chegou esse momento que ela começa a respirar, só que vai aos poucos.

Espiritualidade inaciana

A base da espiritualidade que o Centro Loyola traz para esta atividade mensal são os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Segundo padre Anderson, um dos objetivos da ação é introduzir os participantes na dinâmica dos exercícios espirituais para que eles possam praticá-los e desenvolvê-los em outros momentos também em outras casas de retiro.

— Os exercícios espirituais são uma grande experiência de Deus e de humanidade que Santo Inácio viveu. É um método de oração, uma escola, um caminho de oração. Não é o único, mas é um jeito muito próprio de oração e de encontro com Deus, e nasceu da experiência de Inácio de Loyola. Eles são um clássico na Igreja porque são baseados nessa busca da vontade de Deus.

Padre Anderson ministra formação / Foto: Gabriel Meirelles

O primeiro encontro ocorreu no dia 28 de maio. Pela manhã, a reflexão se concentrou no modo como os participantes viveram a pandemia. À luz do capítulo 3 do livro bíblico Eclesiastes, as pessoas puderam meditar, por exemplo, sobre os acontecimentos positivos e negativos dos últimos dois anos, os sucessos e fracassos, e as experiências de vazio e plenitude em todos os âmbitos da vida.

Na parte da tarde, padre Anderson apresentou o exame espiritual diário proposto por Santo Inácio de Loyola. De acordo com o sacerdote jesuíta, esta oração pode ser feita em 15 minutos e consiste em sete passos: agradecer a Deus pelos dons recebidos; pedir a ação do Espírito Santo; relembrar as experiências vividas ao longo do dia; escolher a mais marcante; analisá-la; pedir perdão; e fazer uma resolução para o futuro. Além disso, a segunda meditação do dia teve como foco os desejos, compromissos e limites do indivíduo.

Fotos: Gabriel Meirelles

Na homilia da missa de encerramento, padre Anderson comparou o final do Evangelho de São Lucas com as experiências vividas no Sábado de Espiritualidade. Baseado no relato da ascensão de Jesus, o religioso frisou que o afastamento de alguém amado alimenta o desejo do reencontro. Segundo o sacerdote, assim como os discípulos vivenciaram isto na despedida de Cristo, cada um dos presentes no Centro Loyola naquele dia voltaria para casa com um anseio maior por estar com Deus. Antes de concluir a pregação, ele ressaltou que a vida do cristão é uma busca constante da felicidade e da transcendência.

— Diz assim o Evangelho: ‘levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles’. Ele cumpriu a missão dele, e os discípulos voltaram para Jerusalém, que era o lugar do conflito. Isto confirma a metáfora daqui. A gente vem para um lugar de paz, só que a gente é abençoado para voltar para o lugar da vida: para a família, o trabalho, trânsito, conflito. Por mais que a gente quisesse viver sempre assim, vendo as coisas de Deus, com calma, rezando, Jesus nos educa para nos devolver para a vida.

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