Música, expansão e negócio
02/09/2022 19:12
Giulia Matos e Sophia Marques

Mercado musical será objeto de pesquisa de novo laboratório do Departamento de Comunicação  

Eduardo Sena e Carlo durante a palestra. Foto: Raíssa Miranda

A indústria musical, suas características e as dificuldades enfrentadas no mercado fonográfico nos dias de hoje foram tema da palestra promovida pelo Departamento de Comunicação, em parceria com o MangoLab. O CMO e sócio-fundador, Eduardo Sena, conduziu a apresentação acompanhado de Carlo Aquino, integrante da banda Valuá, associada à empresa. Também foi anunciada a abertura de um novo laboratório na PUC-Rio, com o MangoLab, exclusivo para pesquisas acerca do mercado da música, sob orientação da professora Cláudia Pereira.

Sena, que se formou em Comunicação na PUC-Rio em 2016, analisou o cenário atual da música brasileira. Segundo ele, existe um conflito porque há o surgimento de uma geração de artistas autênticos, mas falta clareza no mercado. Ele atribui essa incompatibilidade à ausência de pesquisas referentes à cena da música.

- Somos testemunhas de uma geração muito original de artistas, motivada a renovar as linguagens e a ter a arte como sua função social, de vanguarda e integração. Tudo isso acompanhado de um acesso relativamente fácil aos meios de produção, interlocução, distribuição e consumo. A dificuldade é a falta de clareza acerca da cadeia desse mercado, e sem entender isso os artistas e os empresários não conseguem definir boas metodologias para organizar, argumentar, valorar e condicionar trabalho.

O Mangolab é um laboratório cultural e vitrine artística, que evidencia, cria palcos alternativos, como festas com música ao vivo e pocket-shows, com o intuito de aproximar os novos músicos com o público. A empresa atua em duas frentes: para o consumidor final e o mercado. No primeiro, ocorre a produção de eventos, projetos fonográficos e audiovisuais. No segundo, funciona como uma produtora audiovisual, agência de marketing e branding, trabalha com a venda de shows e selo-editora, com atuação fonográfica e autoral dos direitos de distribuição musical.

O CMO e sócio-fundador do MangoLab, Eduardo Sena. Foto: Raíssa Miranda

O CMO afirmou que a Mangolab é, também, uma busca pela justa tradução do arte-negócio, isto é, uma maneira de intermediar os setores. Sena comentou que o primeiro passo para esta relação é o reconhecimento do artista como uma empresa.

- O primeiro lugar para traduzir a dinâmica arte-negócio é reconhecer que quando você faz arte, lança um álbum, tem uma banda, você tem uma empresa. Há gastos, receita, fluxo de caixa, tributação, contratos, tudo isso. Já ouvi muita gente refutar essa afirmação, só que não digo isto como uma opinião e nem como proposta de como o artista tem que montar a empresa. Para uma artista vender um show de R$40 mil , é preciso emitir nota fiscal para receber o dinheiro. Para emitir uma nota, consequentemente, é necessário ter CNPJ, e se existe pessoa jurídica é uma empresa. Você é uma empresa, tem linha de investimento, tem linhas de receita, tem que pagar impostos.

A cadeia mercadológica da indústria musical corresponde a etapas além do reconhecimento do artista como empresa. Estas fases seriam a matéria-prima, isto é, a criação musical; o processamento, que é a produção musical, quando a ideia é transformada em produto; a patente, que define os direitos autorais e quem são os envolvidos com o produto. Também há o empacotamento, que envolve design, embalagem; a distribuição, promoção, que incentiva o consumo da música; o ponto de venda, com plataformas de streaming; e o consumidor.

Guitarrista da banda Valuá, Carlo destacou que a proposta do MangoLab em formar parcerias com marcas, em criar palcos e eventos alternativos nos quais os artistas possam apresentar os trabalhos é importante. Ele enfatizou que, principalmente no Rio de Janeiro, esta é uma alternativa para suprir a demanda na indústria musical, pois a quantidade de artistas que gostariam de cantar e tocar se sobressai em relação às casas de shows disponíveis na cidade.

- Acho que há uma carência de palcos e lugares que deem conta da oferta artística. Temos o Circo Voador, a Fundição Progresso, lugares menores como o Audio Rebel, porém a quantidade de artistas que produzem música, desejam performar, é muito grande. Com a criação de espaços e palcos, você consegue sair só das plataformas de streaming, que correspondem a uma larga porção do foco de um artista. Assim, a importância da experiência ao vivo da música é reforçada ao se apresentar em um show. Nós fazemos música para nos conectarmos com as pessoas. A quantidade de palcos que surgem é uma tentativa de criar espaço e conexão entre o artista e o público.

O guitarrista da banda Valuá, Carlo. Foto: Raissa Miranda

O integrante do grupo reforçou a necessidade de o artista enxergar a música como negócio, isto é, uma atividade com fins lucrativos. Com este olhar, o músico saberia com qual público ele se comunica, e também conheceria todas as etapas e ferramentas necessárias para a publicação do material, da obra, que produz ou participa.

- O objetivo do artista é produzir a própria arte, fazer música, de forma que chegue ao consumidor, e que ele ou ela a escute e vá a um show. Ao ver a música como um negócio, você compreende que é preciso argumentar em todos esses espaços. Se aviso o Eduardo que a Valuá planeja fazer um disco, ele vai levantar diversas questões como: o que pretendemos transmitir com o projeto; quem vamos acessar; qual nosso nicho; e o que sugerimos em termos estéticos. Isto é para que toda a cadeia faça sentido, para obter um conteúdo que seja comunicável e que satisfaça tanto a ponta, o artista e o consumidor final. A arte como negócio é pensar o caminho que a sua música vai fazer.

Parceria MangoLab e PUC-Rio

O LabCOM + MangoLab, que vai funcionar no 5º andar do Edifício Kennedy, onde atualmente é o LAB-EM, é fruto da relação entre a Universidade e o Mangolab. A parceria tem como objetivo pesquisar o mercado da música, a dinâmica mercadológica que o envolve, e sanar a defasagem de conteúdo acerca desse tema. Segundo o palestrante Eduardo Sena, esse é o motivo pelo qual o segmento econômico e cultural da música progride tão devagar.

- Quem são os agentes da produção de um evento? Quantos eventos acontecem no Rio de Janeiro, por ano? Como é que isto reflete no crescimento da publicidade? Qual é a correlação entre o volume de streams e a venda de shows? São questões como essas que o laboratório que a gente está propondo vai se debruçar sobre.

O projeto tem previsão de início no mês de setembro. Para saber mais sobre o MangoLab acesse as redes sociais do grupo e o site oficial.

 

 

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