Os rumos do Brasil
06/09/2022 18:50
Danilo Akel e Jeane Moraes

No bicentenário da Independência, país comemora conquistas, mas deve repensar o futuro

Bicentenario da Independencia (Arte: Emanuel Bonfim)

Enquanto um Estado nacional independente, o Brasil nasceu em 7 de setembro de 1822 e, segundo alguns especialistas, o bicentenário da Independência do país é o momento para refletir sobre a nação. Descendente direto dos povos originários do Brasil, o líder indígena e ambientalista Ailton Krenak considera que o país é uma “invenção”. Ele classifica a Independência como uma farsa, porque, desde então, a segregação racial e econômica se mantém. 

O processo de separação política resultou em permanências, como também em rupturas. Após a cisão com Portugal, o soberano Dom Pedro I continuou como governante do país, mas, diferentemente dos vizinhos latino-americanos, a escravidão e a monarquia se estenderam. O regime escravista se encerrou em 1888; a República foi instaurada apenas em 1889. Mas, como pondera o professor Felipe Azevedo, do Departamento de História, o país se tornou independente no sentido de ser capaz de se autodeterminar e de criar uma Constituição autônoma. 

A criação das fronteiras, do hino, da bandeira, de heróis e de mitos é comum a todos os Estados nacionais modernos. Autor de 17 livros, a maioria sobre História do Brasil, o jornalista e escritor Eduardo Bueno considera que os símbolos são fundamentais para a construção de uma nação. 

– O mundo é simbólico, os seres humanos são simbólicos. Eles interpõem o símbolo entre si e a realidade, interpretam o real por meio dele. Apesar de carregar a fama de iconoclasta, respeito os signos, mas é fundamental conhecer a história, ou seja, o contexto e as motivações por trás deles – até para contestá-los.

O pintor Pedro Américo foi o responsável por um dos símbolos mais populares da Independência do Brasil. No quadro “Independência ou Morte”, o artista representa o momento em que o príncipe regente Dom Pedro I dá o grito da Independência. O quadro exibe um retrato de proclamação sem guerras sob a liderança de um imperador em seu cavalo. Felipe Azevedo considera que a obra, pintada no período Imperial, apresenta de forma errônea a ideia de uma sociedade constituída de forma harmônica.

O professor destaca que representações artísticas de grandes processos políticos dificilmente buscam se ater à especificidade dos fatos como eles foram. Ele explica que, na maioria das vezes, a realidade é extraída de uma verossimilhança que pretende construir uma mensagem final. O historiador considera que a obra foi feita na tentativa de aprofundar uma imagem nacional baseada em uma liderança política.

Quadro Idependencia ou Morte de Pedro Américo

As comemorações: 1922, 1972 e 2022

No decorrer dos anos, a Independência passou por comemorações históricas no Brasil. Para Azevedo, as celebrações são releituras: a cada momento, o passado é revivido e atualizado de acordo com o ponto de vista do presente. 

– Quando a gente pensa em recriações do passado, temos que entender quem está produzindo elas e quais são os poderes por trás.

Em 1922, no centenário, o Brasil almejava alcançar a modernidade europeia. O rompimento dos padrões artísticos adquiridos até então e a busca pela expansão industrial e urbana eram os principais objetivos de parte da elite. A Semana de Arte Moderna de 1922 é um exemplo do desejo do Brasil pelo ideal moderno europeu.

Em 1972, nos 150 anos da Independência, o Brasil vivia o período da ditadura militar. O sentimento patriótico de nação comandou as motivações dos integrantes das Forças Armadas para as festividades. Houve grandes investimentos em transmissões televisivas, produções de filmes e desfiles cívico-militares a fim de criar uma imagem de ordem e harmonia.

Neste ano do bicentenário, o professor Felipe Azevedo observa uma instabilidade política, o que resulta em um contexto de incerteza acerca das comemorações. Ele ressalta que, nas últimas três décadas, produções acadêmicas e questionamentos sociais entraram em vigor, mas são ignorados pelos atuais governantes. O professor observa que a ausência de reflexões críticas sobre o Brasil por parte do poder público pode significar um retrocesso. O historiador compara decisões tomadas pelo terceiro presidente da época da ditadura militar, Emílio Garrastazu Médici, que comandou o país de 1969 a 1974, e o atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro. 

– Na época da ditadura, o Médici fez questão de trazer os restos mortais de Dom Pedro I, e o Jair Bolsonaro repete este tipo de morbidez institucional, trazendo o coração do nosso primeiro imperador, que foi tirânico. É como se o Brasil ainda fizesse parte de um corpo maior europeu. São as elites tentando vincular a origem da ordem brasileira às raízes europeias. Mas não somos brancos nem europeus.

Conquistas e caminhos para o futuro

Professor Felipe Azevedo, do Departamento de História

Para Felipe Azevedo, uma das razões para o país celebrar é a conquista da Constituição Cidadã de 1988. Elaborada a várias mãos, inclusive por grupos minoritários da sociedade civil brasileira, a Carta Magna carrega consigo preceitos humanísticos em defesa da liberdade e da igualdade. Apesar de todas as garantias, o professor reconhece a distância entre o que está escrito e o Brasil real. Para ele, a luta pela obtenção e manutenção da cidadania é diária e ininterrupta, porque os direitos conquistados a partir de muita luta são passíveis de retrocesso.

Tanto Azevedo quanto Eduardo Bueno ressaltam que o bicentenário é um bom momento para refletir sobre o que o país deseja para o futuro. Bueno destaca a existência de uma história extensa e complexa, tecida pelos mais variados sujeitos, que deve ser rememorada e relida. 

– Temos a necessidade urgente e gritante de projetar um país mais inclusivo, menos cruel, menos desigual, menos injusto, e ver o quanto ainda falta para isso.

A cultura do Brasil nasceu do encontro entre os povos originários e o resto do mundo. Após 200 anos de Independência política, o país dispõe de um pedaço de terra de 8,5 milhões de km², de uma população de 212 milhões de habitantes, social e etnicamente variada. Compreender as raízes da narrativa oficial é indispensável na orientação ativa do desenvolvimento da nação.

Mais Recentes
Mesma essência em diferentes frequências
Em comemoração do centenário do rádio, a professora Rose Esquenazi analisa as transformações do meio de comunicação
Avanço sobre o desconhecido
No XXX Seminário de Iniciação Científica da PUC-Rio, alunos da Universidade recebem certificados e discutem o ofício da ciência neste século
Amizade e fraternidade social
XIII Semana da CRE discute maneiras de incentivar autonomia e cidadania na Universidade