Bastidores da nova direita no Brasil
21/09/2022 16:43
Sophia Marques

A jornalista Consuelo Dieguez lança um novo livro em palestra na PUC-Rio.

Jornalista Consuelo Dieguez autografa exemplares de seu novo livro. Foto: Sophia Marques

Formada pela PUC-Rio, a jornalista Consuelo Dieguez voltou a Universidade para lançar o livro O Ovo da Serpente: Nova direita e bolsonarismo: seus bastidores, personagens e a chegada ao poder. Em uma palestra organizada pelo Departamento de Comunicação, ela abordou a ascensão da Nova Direita no Brasil, o papel da imprensa, e o fenômeno que surgiu em meio a este cenário: o atual presidente do país, Jair Bolsonaro.

O coordenador do curso de Jornalismo, professor Leonel Aguiar, foi o responsável pela mediação da palestra, e aproveitou para reforçar o papel político do jornalismo e enaltecer a carreira de Consuelo, que recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1996, pela reportagem Guerrilha no Araguaia publicada no jornal O Globo.

- O jornalismo, historicamente, tem esse lado, de estar atrelado com a defesa da democracia e também com a defesa dos Direitos Humanos. A Consuelo, uma jornalista muito conhecida, competente, e um dos expoentes do jornalismo brasileiro, vai apresentar não só o livro dela, mas a questão da relação histórica entre o jornalismo e a democracia. Pelo próprio título, dá para ver que é um livro que toma partido em defesa da democracia.

Professor Leonel Aguiar, coordenador do curso de Jornalismo. Foto: Raissa Miranda

Consuelo, que também escreveu o livro Bilhões e Lágrimas: A Economia Brasileira e seus Atores, publicado em 2014 pela editora Portfolio-Penguin, lembrou do momento em que se surpreendeu ao descobrir, em meio a uma apuração em Brasília, em  2016, que o então deputado Jair Bolsonaro estava conquistando o apoio de empresários. E foi naquele momento que ela decidiu se debruçar sobre o assunto e acompanhar os rastros do parlamentar.

A palestrante contou que desde o início Bolsonaro apresentou relutância em falar com repórteres, porque, na lógica dele, eles eram os responsáveis pelas proporções que as falas e posicionamentos do político tomavam quando publicados. Segundo a autora, este foi o motivo do afastamento entre a base de apoio bolsonarista e a mídia tradicional, e a consequente migração deles para as redes sociais como meio principal de comunicação.

- O Jair Bolsonaro foi lançar a candidatura do Flávio Bolsonaro para prefeito, em um clube em Bangu, e eu fui para lá. Havia uma multidão gritando “Mito! Mito! Mito!”. Eu perguntava “Por que você apoia Bolsonaro?”, e as pessoas respondiam “Porque eu sou de direita, tenho orgulho de ser de direita. Vocês, jornalistas, não têm o menor respeito pela gente. Vocês debocham dos nossos valores, da nossa fé. Agora a gente tem as redes sociais, a gente se comunica com a gente”. Foi aí que eu percebi o quanto a gente ignorou esse público, o quanto havia de ressentimento.

Consuelo descreveu o constrangimento que muitos brasileiros demonstravam para se declarar de direita, desde o final da ditadura militar em 1985. Segundo ela, a omissão desta parcela da sociedade do debate político popular e o ressentimento de não se sentir devidamente representada pela mídia provocaram uma “bolha ideológica”. Nela, comentou a jornalista, as pessoas não apenas passaram a cultivar abertamente ideais de extrema direita, mas também a legitimar a identidade a partir de Bolsonaro, que se tornou um ícone. Um fenômeno que Consuelo definiu como “nova direita”.

Jornalista Consuelo Dieguez, repórter da Revista Piauí desde 2007. Foto: Raissa Miranda

A jornalista contou que o ano 2013 é, no Calendário Chinês, o ano da Serpente de Água, e esta é a razão do nome da obra. Isto porque, historicamente, outros momentos relevantes para a conjuntura política mundial aconteceram, também, em anos da Serpente: a Revolução Russa, em 1917, e a derrubada do Muro de Berlim, em 1989, por exemplo. Ela julga que 2013 foi um ano determinante para a política brasileira, porque houve manifestações populares em oposição ao governo Dilma.

- Tudo começou em 2013, com o Movimento Passe Livre, com a esquerda na rua para protestar contra o aumento da passagem. O Brasil estava em crise econômica e política, e toda essa gente que estava insatisfeita foi para as ruas também. Alguns declaravam que não faziam parte da esquerda brasileira. Nas ruas, as partes começaram a se opor. Aí, eles se encontraram nas redes sociais e formaram esses grupos, e o discurso se transforma:  "Eu não sou de esquerda, então eu sou o quê? Eu sou de direita". Nessa época, começou a difusão do pensamento de direita. E quem se apropriou deste  discurso é Bolsonaro.

A palestrante ressaltou que o objetivo do livro não é fazer juízo de valor acerca de ideais políticos, mas sim resgatar acontecimentos e jogar luz sobre este processo que culminou no momento político que o Brasil vive atualmente. Ela também abordou a responsabilidade da imprensa em demorar a reconhecer as proporções que o “fenômeno Bolsonaro” havia tomado.

- Quando eu entendi o ressentimento, eu quis explicar, sem debochar, e tentar entender o que verdadeiramente aconteceu. Tentei contar essa história sem rancor, sem juízo de valor, sem atacar, porque eu acho que parte desse ódio vem do ataque mútuo. Muitas dessas pessoas não são de direita radical, são conservadoras. E em uma sociedade democrática, existe o direito de se ter o pensamento conservador. O que espanta é o Bolsonaro.

O Coordenador do Curso de Jornalismo, professor Leonel Aguiar, enfatizou como os profissionais da área de Comunicação e, especificamente, do Jornalismo, não perceberam o que ele qualificou de “eficácia comunicacional”.

- Eles ganharam as eleições pelas mídias sociais, falando diretamente com o público, sem precisar da mediação jornalística, que tem um papel fundamental numa democracia: a busca da verdade.

Consuelo Dieguez ainda abordou questões como a aproximação de Bolsonaro, que a princípio era pautado apenas por interesses da classe militar, com os evangélicos, o impacto da Operação Lava Jato na crise política e o futuro da nova direita no Brasil. Ela acredita que o extremismo nascido deste processo, um dos problemas do país atualmente, vá muito além do bolsonarismo, e aponta a responsabilidade da imprensa em resgatar o diálogo e o bom senso na sociedade brasileira.

- Eu acho que o nosso papel, agora, e dos jovens jornalistas, é refletir sobre como trazer a racionalidade de volta. Estamos fazendo algo errado nesta comunicação. É preciso refletir sobre isto, repensar como nós nos comunicamos com a sociedade.

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