Mesma essência em diferentes frequências
27/09/2022 17:51
Luzi Alves

Em comemoração do centenário do rádio, a professora Rose Esquenazi analisa as transformações do meio de comunicação

Professora Rose Esquenazi (foto: Luzi Alves)

Do radinho de pilha à transmissão via internet: em um século de história, o rádio sobrevive no Brasil. De acordo com pesquisa do Kantar IBOPE Media 2022, 83% da população brasileira escuta rádio, o que significa que o meio ainda é bastante consumido. Neste mês, ele completou 100 anos de atividade no país, desde que foi implementado em 7 de setembro de 1922. E nesse domingo, 25, foi comemorado o Dia Nacional do Rádio. Para refletir sobre o atual momento do veículo de comunicação, a professora Rose Esquenazi, especialista em história do rádio, comenta como ele se mantém atrativo e de que forma este meio de comunicação se adapta às transformações tecnológicas.

Rose é jornalista, mestra em História Social da Cultura e professora do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. Ela é autora do livro O Rádio na Segunda Guerra: no Ar, Francis Hallawell, o Chico da BBC, e foi colunista no programa Todas as Vozes, da Rádio MEC AM, com o quadro “O rádio Faz História”.

Em 100 anos de história, o que faz com que o rádio se mantenha atrativo para grande parte da população brasileira?

Professora Rose Equenazi: O lado factual, tudo no rádio é muito factual. E o legal é que o público também participa da apuração de notícias, há uma interação muito grande das pessoas que, geralmente, enviam informações. Além disso, o rádio está sempre em transformação e modernização. É claro que houve a época de ouro que ninguém saía de casa sem ouvir determinadas novelas ou noticiários, mas, hoje, com o streaming, o rádio entrou mais ainda no gosto, pois, você pode ouvir um programa mais de uma vez e na hora que quiser. Ele é um meio de comunicação muito didático, divertido, prazeroso, dinâmico e instantâneo, além de ser muito ágil. Dá para ouvir no carro, durante o banho ou no meio de uma conversa. Enfim, não é preciso parar o que está fazendo para ouvir rádio. É como eu sempre falo: um meio de comunicação nunca acaba, ele se transforma e se adapta aos tempos.

O rádio foi fundamental para a construção da identidade brasileira?

Professora Rose: Com certeza. A nossa cultura foi modelada pelo rádio, a cultura musical, o samba urbano, toda a parte da teatralidade das radionovelas, isto virou uma tradição brasileira. É claro que sempre existiram histórias, mas o rádio deu vida a essas histórias e, só depois disso tudo, foi para a televisão. Nós somos um povo que gosta de histórias, que gosta de ouvir os dramas e acompanhar. O povo brasileiro foi moldado pelo rádio em várias áreas, inclusive, em relação à música clássica e às ficções seriadas, que começaram no rádio.

O podcast pode ser considerado uma evolução do rádio?

Professora Rose: Na verdade, o podcast sempre existiu de alguma maneira. Muitos programas eram elaborados da mesma forma que um podcast é produzido hoje, o que mudou mesmo foi o streaming elevar isso para além do ao vivo. O podcast é um plus para as emissoras. A programação ao vivo é importantíssima, porque o público pode participar. Portanto, o podcast não é algo que vai tomar o lugar da programação ao vivo, é uma outra oferta. Mas é preciso ter cuidado com o sistema de inteligência artificial que é aplicado dentro do streaming, pois ele oferece coisas que combinam com o seu perfil e com o tipo de conteúdo que você consome na rede, o que pode ser bom e ruim, pois é capaz de causar uma alienação de conteúdo.

Você acredita que o rádio ainda é utilizado como ferramenta política no Brasil?

Professora Rose: Totalmente. Apesar de os canais de rádio não poderem fazer propaganda política neste momento eleitoral, o próprio governo consegue vantagens de maneira indireta, mas isso é proibido por lei. Na época da ditadura militar, o programa A Voz do Brasil, que era obrigatório, só falava bem do governo, o que era completamente autoritário. Hoje, isso é ilegal, mas se o dono de uma rádio tem um partido, é uma propaganda política indireta. É preciso tomar muito cuidado com isso.

Além do factual, que outra grande vantagem o rádio oferece para os ouvintes?

Professora Rose: A oportunidade de conhecimento. Com a internet, você tem acesso a rádios do mundo inteiro, e é um grande aprendizado. É possível aprender novas línguas, culturas e sistemas políticos de diferentes países. O rádio é uma base muito importante para entender o que acontece ao redor do mundo. Atualmente, as pessoas não conseguem se concentrar no momento para ouvir um programa ou ler um livro, tudo é muito disperso, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É necessário parar um pouco.

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