Luta política em espaços populares
11/11/2022 18:30
Luzi Alves

Em um e-book lançado pela Editora PUC, professora Nilza Rogéria retrata a vida de 200 mulheres que representam 169 favelas do Rio

Doutora em Serviço Social pela PUC-Rio, a professora Nilza Rogéria Nunes tem pós-doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília (UnB), e mestrado em Psicossociologia de Comunidades, Ecologia Social e Serviço Social pela UFRJ. Em 2019, ela escreveu o livro Mulher de Favela – O poder feminino em territórios populares com base em sua pesquisa de doutorado Mulher de favela: a feminização do poder através do testemunho de quinze lideranças comunitárias do Rio de Janeiro, de 2015. Debruçada nos estudos do poder da mulher nas comunidades, a professora lançou outros projetos de pesquisa como Lideranças femininas das favelas e periferias e as estratégias para o enfrentamento das consequências da Covid-19 e A feminização do poder nas favelas cariocas: processos participativos e a interface com as políticas públicas. Este ano, ela decidiu publicar o e-book Mulher de Favela – Experiências compartilhadas, com o propósito de identificar e dar visibilidade a ação das lideranças femininas dentro da periferia.

O que o leitor pode esperar do e-book Mulher de Favela – Experiências compartilhadas?

Nilza Rogéria: No livro, eu busquei retratar o perfil que essas mulheres desenvolvem: o trabalho que realizam, quem são elas, com quais pautas dialogam, como se articulam em termos de participação social e política, e como que se desenvolvem na perspectiva da promoção da saúde. Elas são muito engajadas em lutas coletivas e trazem nas suas experiências um fazer saúde que não é relacionado ao binômio saúde-doença, mas trabalha a partir das determinações sociais. Essas 200 mulheres que foram entrevistadas para o livro são ativistas socialmente e politicamente reconhecidas nos espaços populares e representam 169 favelas, dentre elas Maré, Complexo do Alemão e Rocinha.

Como foi o processo de estudo e pesquisa para a elaboração do livro?

Nilza Rogéria: O livro é resultado de uma pesquisa que desenvolvi nos últimos anos, no meu estudo de doutorado, em que trabalhei com a narrativa de 15 histórias de vida de mulheres que são iconográficas nesses espaços populares. A partir destes estudos, produzi o meu primeiro livro Mulher de favela: o poder feminino em territórios populares. Depois da publicação do livro, resolvi ampliar o universo do estudo e utilizei como estratégia metodológica a "bola de neve", em que eu busco uma e ela me indica outra, que me indica outra, e assim, continuamente, pude alcançar muitas mulheres mesmo em meio à pandemia. E eu tenho uma rede bastante ampliada por conta da minha experiência de vida e trabalho, pois, além de professora, sempre fui uma ativista e militante de projetos em espaços populares. Tenho 36 anos de trabalhos em favelas, e isto me dá permeabilidade. Também tive ajuda de duas bolsistas de iniciação científica que contribuíram para as entrevistas com a coleta de dados. E o nome Mulher de favela é um construto teórico, pois a "mulher de favela" é uma que traz a pauta política dentro da sua prática comunitária, e não só habita o espaço popular, mas se engaja a ele.

Quais as experiências mais marcantes que foram adquiridas neste processo?

Nilza Rogéria: O reconhecimento público do papel e da importância que essas mulheres têm para os espaços das favelas e para a cidade. O resultado que a pesquisa aponta é o do perfil que ocupa, hoje, esse lugar de visibilidade, de engajamento, e luta política nos espaços populares. Essas mulheres têm um espaço e uma potência gigante, elas merecem ser conhecidas pelas outras pessoas. O mais importante é saber que elas têm voz e nós precisamos ouvi-las.

O que inspirou a senhora a fazer este segundo volume do livro Mulher de Favela?

Nilza Rogéria: Ampliar as vozes de pessoas que fazem estes espaços acontecerem, que lutam contra as adversidades da precariedade dos serviços que são ofertados, por parte do poder público, foi a minha principal motivação. É fazer conhecer que favela não é problema, ela é solução. Elas trabalham com participação política, com saúde, educação, assistência. E onde a presença do Estado é precária, existem pessoas fazendo contraponto a isto, a única presença que chega com robustez à favela é a segurança pública da forma que chega, metendo o pé na porta. A construção social que nós temos dos espaços da favela é sempre uma marca do negativo, da violência, preconceito, e de questões que atravessam os espaços populares como uma marca que não é a realidade que aquele lugar oferece, muito pelo contrário. As favelas são potência, resistência, berços de cultura, e de trabalhadores e trabalhadoras.

Quais são as principais características que diferem este e-book do primeiro livro?

Nilza Rogéria: O primeiro traz uma narrativa mais longa e sem análise, só um conjunto de entrevistas. Eu escrevi o Mulher de favela: o poder feminino em territórios populares orientada por três perguntas: “o que é ser mulher?”, “o que é ter poder?”, e “o que é ser uma mulher com poder na favela?”, e, a partir das histórias, construí as narrativas e associei aos temas, mas não analisei a fundo as falas. Para este segundo livro, o questionário foi bem mais longo, realizei um agrupamento de dados importantes: 92% dessas 200 lideranças se declaram pretas e pardas e 61,8% já acessaram o ensino superior. Eu falo de um perfil de ativismo que não é só daquela pessoa cheia de boa vontade, mas de mulheres que vêm para a universidade, que se constroem, aprendem e voltam para a favela para criar referências para as outras. Outro dado importante é que 92% reconhecem que o seu trabalho promove saúde, pois, elas entendem que a cultura, a educação e o acesso à direitos são uma promoção de saúde. Portanto, nós não falamos em saúde em termo de ter alcance a clínicas ou a exames, mas sim de qualidade de vida.

O quanto representativo é poder dar a voz a estas mulheres por meio da literatura?

Nilza Rogéria: Não é dar voz, é fazer ecoar e amplificar essas vozes para além dos espaços onde elas circulam, dialogam, trabalham e militam. Eu sempre tenho cuidado de não falar "por elas", mas de falar com elas e, por isso, tem a foto e uma minibiografia delas no fim do livro, pois este material só existe porque disponibilizaram do seu tempo e de suas histórias. Só faltou a biografia de cerca de 30 mulheres porque não consegui pegar o termo de consentimento a tempo, mas o que importa é reverberar as suas vozes.

Como a senhora se sente ao abrir este espaço de fala?

Nilza Rogéria: Eu acredito que este é o meu papel como pessoa que tem compromisso com a cidade e com o próprio olhar sobre a sociedade, algo que vem da minha formação de assistente social. Mas penso também que este é um dever da Universidade em produzir conhecimentos que geram impacto e transformação. Assim, se elas se sentirem donas deste livro, como eu acho que são, elas poderão mostrar que o trabalho delas tem reconhecimento acadêmico e foi publicado pela editora de uma Universidade Comunitária. É muito importante frisar isso. O meu objetivo é fazer com que esta ação ganhe sementes, se multiplique e possa florir por outros campos. A nossa responsabilidade como Universidade não é produzir currículo, mas, sim, contribuir com a sociedade e para o melhor viver das pessoas.

O que é ser uma mulher com poder na favela?

Nilza Rogéria: Eu penso que esse não é um poder de dominação ou de autoridade, mas de legitimidade. Elas são reconhecidas como pessoas que centralizam e que constroem uma rede colaborativa, solidária e que faz a diferença para aqueles que elas conseguem alcançar. Eu penso sempre que, para além dos próprios filhos, elas têm uma pluralidade e um alcance de mães de muitos outros. E elas não fazem isso sozinhas, sempre agregam pessoas, e uma puxa a outra. Elas têm um exercício de serem pessoas que circulam, transitam, têm acentos em conselhos de direito e se permitem ser visíveis. Muitas, hoje, possuem uma inspiração na própria família, seja de uma avó ou mãe que foi militante, e mesmo que não tivessem este tipo de protagonismo, travaram outras lutas, desde as lutas de fixação de manter o lugar de estar na favela, a fazer daquele lugar um bem viver para a família.

Como é o desenvolvimento da mulher de poder no espaço favela?

Nilza Rogéria: O posicionamento, a militância e o engajamento estão crescendo em um movimento de espiral bastante fascinante. O protagonismo das mulheres negras, os coletivos, e a juventude que toma para si lutas populares, ganham cada vez mais força e fôlego. E o interessante é que esse ativismo também tem batalhado para fazer da universidade um lugar de todos e não só do privilégio de alguns. Eu faço parte do "Fala pra gente Rocinha", que é um projeto em conjunto com o Ecoa e o Laboratório de Humanidades Digitais PUC-Rio, e a turma que administro agora é 100% feminina. E não é uma intenção, mas na medida que a gente oferta, quem está tomando para si é a mulherada, e eu acho que essa mulherada preta vai fazer muita diferença, e eu quero que faça.

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