Nada de novo no front
03/04/2023 16:59
Angelo Ye e Bernardo Brigagão

Professores poloneses apontam que Guerra da Ucrânia já dura há uma década

Xadrez da guerra. Foto: Reprodução

O conflito entre Rússia e Ucrânia completou um ano no mês passado. Neste contexto, o Instituto de Relações Internacionais (IRI) e a Coordenação Central de Cooperação Internacional (CCCI) realizaram a palestra “War in Ukraine from International Law Perspective”, no dia 27 de março. O encontro foi ministrado pelos PhDs em ciência política Dorota Heidrich e Jakub Zajaczkowski, da Universidade de Varsóvia, Polônia. Os dois são decanos da Universidade de Varsóvia e estiveram na PUC-Rio para renovar e ampliar o convênio entre as instituições. 

Os convidados abriram a palestra com um panorama histórico das regiões atingidas pela guerra e assinalaram aspectos geopolíticos de Rússia e Ucrânia. O conflito já vinha sendo monitorado pela comunidade internacional desde fevereiro de 2014 até as tensões entre os países explodirem no ano passado, quando as forças russas invadiram o território ucraniano.

Hoje, a possibilidade de um cessar-fogo é incerta, e os relatos de crimes de guerra aumentam a cada dia. Como em todo confronto e disputas territoriais, provoca uma série de adversidades para a população local, vítima do belicismo, como economia em declínio e governos ditatoriais. Em números oficiais, são mais de 40 mil civis feridos e mais de 8 mil mortos, embora a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheça que o valor real de mortes é muito maior.

Os palestrantes frisaram a complexidade do assunto e fizeram um panorama geral do conflito. Dorota Heidrich destacou a desproporcionalidade, militar e econômica, entre Rússia e Ucrânia. Citou, por exemplo, o tamanho do território russo e ucraniano e o Produto Interno Bruto (PIB) de ambos os países. Além disso, ela também abordou fatos históricos que ajudam a entender melhor a situação.

— A guerra na Ucrânia é, na verdade, um tópico muito complexo. Ela conta com um panorama histórico e todas as consequências que vieram com a recente agressão contra a Ucrânia por parte da Federação Russa. Pensamos que uma pequena contextualização do conflito seria útil para entender tudo que aconteceu lá (Ucrânia). O território ucraniano tem 600 mil quilômetros quadrados, enquanto o russo tem 17 milhões. A população russa é de 140 milhões de pessoas contra 36 milhões da Ucrânia. Os ucranianos têm um PIB nominal de US$ 198 bilhões, o russo conta com mais de US$ 3 trilhões.

Dorota Heidrich. Foto: Kathleen Chelles

A superioridade militar russa sobre os ucranianos é vertiginosa. O exército russo conta com mais de um milhão de soldados, enquanto os ucranianos apresentam números ínfimos em relação a isto. Além disso, ressaltaram os palestrantes,  os ucranianos não têm armas nucleares, pois elas foram confiscadas pela Federação Russa depois do término da Guerra Fria, marcado pela queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Ucranianos, no entanto, usam energia nuclear para outros fins, como produção de energia elétrica. Segundo os palestrantes, isto torna o conflito ainda mais perigoso, pois os russos têm atacado lugares onde as usinas nucleares estão instaladas. Dessa maneira, a ameaça de um desastre nuclear é iminente. 

Com o auxílio de um mapa, a pesquisadora comentou sobre a questão do território da Criméia, que fica no sul da Ucrânia. A região é ocupada desde 2014, quando os russos a invadiram. Para os ucranianos, a batalha começou quando o local foi tomado e anexado por tropas russas e não em fevereiro do ano passado. Ou seja, para eles, a guerra já dura dez anos. Desde então, muitas pessoas têm sido mortas em consequência da ocupação estrangeira. 

Dorota também chamou atenção para o fato de que 30% da população ucraniana fala russo, não ucraniano. No início do conflito, o presidente Vladimir Putin usou isto como justificativa para a invasão. Um dado curioso em relação é que muitos ucranianos deixaram de falar russo por causa de questões patriotas: rejeitam o uso da língua russa e optam por se comunicar em ucraniano, mesmo não sendo seu idioma nativo.

Os russos também justificam a invasão à Ucrânia pelo fato de o país expressar o desejo de entrar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A organização é uma aliança política e militar que fornece segurança para os países-membros. Para o governo de Putin, o ingresso da Ucrânia ao tratado permitiria que forças ocidentais, como o rival Estados Unidos, se aproximassem do território russo. Dorota também destacou o fato de a Crimeia ser uma região comercial e militarmente estratégica, pois tem saída para o Mar Negro, o que permite o trânsito de mercadorias e navios de guerra.

Em razão de todo esse histórico, uma nova agressão russa era somente uma questão de tempo para os ucranianos e esta foi uma das razões que levaram o país a cogitar fazer parte da OTAN. Mas, apesar disso, a professora pontuou que o conflito era algo imprevisto para o resto da Europa. Ela também decidiu abordar a guerra sob uma perspectiva diferente de outras apresentadas até então.

— Para a Europa, é uma guerra inesperada. Já houve guerras na Ucrânia, mas foi em um contexto doméstico. A Western Conference tem uma perspectiva diferente, mas resolvemos falar sobre uma perspectiva das leis internacionais. Por isto, antes, queria mostrar como as coisas funcionavam em 1991 e como elas estão agora.

Alunos durante a palestra. Foto: Kathleen Chelles

Movimento migratório

Após fazer uma pequena contextualização sobre como a Rússia e a Ucrânia estavam organizadas depois da Guerra Fria, ela forneceu detalhes sobre o movimento de migração de ucranianos para a Polônia por conta da proximidade entre os dois países. Segundo dados expostos pela pesquisadora, já são milhões de refugiados desde o início do conflito. A palestrante lembrou que tal fato era inimaginável antes do fatídico 24 de fevereiro - início da invasão russa - e observou que a guerra traz consequências que ultrapassam as fronteiras europeias. 

— Temos uma grande fronteira com a Ucrânia e temos sido o primeiro país da lista a receber um grande número de refugiados da guerra. Eles (imigrantes forçados) são protegidos pela União Europeia, e a Polônia tem uma boa lei para os ucranianos que vão para lá (Polônia). Hospedamos aproximadamente um milhão e meio de ucranianos que migraram depois do dia 24 de fevereiro, do ano passado, desde que as fronteiras foram abertas. No pico da crise, chegamos a ter mais de três milhões. É uma coisa que nunca imaginamos antes do dia 24 de fevereiro. Quero dizer, tem uma guerra realmente acontecendo na fronteira entre a Polônia e a Ucrânia. Quando você vê a massa de imigrantes, percebe que isto não é só um problema da Europa, você realmente pode sentir as consequências da guerra ao mesmo tempo.

A situação dos imigrantes oriundos da guerra e o estado destes refugiados na Europa atingiram um ponto crítico. Um ano após a invasão russa, mais de 13 milhões de pessoas estão longe de casa, sendo oito milhões espalhadas pelo continente europeu e cinco milhões deslocados dentro da Ucrânia. As dificuldades enfrentadas pelos imigrantes são incontáveis e, mesmo assim, a maioria pretende retornar ao país de origem num futuro pós-guerra. 

Jakub Zajaczkowski comentou sobre o descaso da União Europeia em relação às atitudes do governo Putin ao longo dos anos e, inclusive, disse que a Alemanha pecou por não demonstrar liderança ao enviar poucos recursos à Ucrânia.

— Putin não achava que a Ucrânia teria uma resposta rápida para os ataques. Um grande erro de cálculo. Aceitamos a Geórgia e outros conflitos. Foi o nosso erro, deveríamos ter dito “pare”. A Alemanha perdeu a oportunidade de ser um líder internacional por não doar um número significativo de ajuda à Ucrânia. Estão na 14ª posição no ranking da ONU dos países que mais dão auxílio aos ucranianos.

Jakub Zajaczkowski. Foto: Kathleen Chelles

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