O desafio de escrever um bom texto
17/04/2023 16:57
Henrique Barbi e Luzi Alves

Ex-aluna da PUC-Rio, a cronista Martha Batalha participa de um encontro com alunos de Comunicação

Martha Batalha em sessão de autógrafos após palestra. Foto: Caio Matheus

De volta ao país das crônicas, a jornalista Martha Batalha veio de Nova York à sala 102-K para falar sobre o novo livro Cidade de Papel. Na palestra, que ocorreu no dia 28 de março, ela ainda relembrou os tempos de PUC-Rio, onde se formou em jornalismo e estagiou no projeto Comunicar. O encontro, organizado pela professora Rose Esquenazi, do Departamento de Comunicação, contou com uma pequena sessão de autógrafos da escritora que escolheu a Universidade para fazer o pré-lançamento da obra.

Considerada atualmente uma das principais cronistas do Brasil, Martha também é autora dos livros Nunca Houve um Castelo e A vida invisível de Eurídice Gusmão — best-seller adaptado para o cinema pelo diretor Karim Aïnouz sob o homônimo A Vida Invisível. O terceiro romance da escritora, Cidade de Papel, é inspirado nos tempos em que ela atuava nas redações de jornais do Rio de Janeiro.

— Eu pego um pouco da impressão que tive do jornalismo da época e tento responder a pergunta “O que a cidade faz com seus com seus cidadãos?". A história é baseada em um repórter de polícia chamado Joel e, para isso, entrevistei vários jornalistas do Rio que tiveram uma grande carreira no ramo, como o Antonio Werneck. Tem uma parte do livro que fala muito sobre a história do jornalismo carioca e de como a cidade caiu nos últimos anos. O Rio de Janeiro é uma cidade tão partida, com tanta violência, tanta notícia ruim, que te faz pensar como estes cidadãos conseguem lidar com isso. Por trás das histórias há causas de condição humana e tragédias humanas, mas também de bondade e generosidade.

Exemplares dos livros de Martha Batalha foram comercializados na entrada da sala 102-K. Foto: Caio Matheus

De acordo com a autora, o jornalismo foi essencial para a construção da sua trajetória como escritora, pois, além de aprender a escrever com clareza e organizar informação, a ensinou a ter empatia pelas pessoas. Martha ainda enfatizou que saber construir um bom lead, ou seja, priorizar as informações mais relevantes, contribuiu para que ela pudesse elaborar bons inícios para os seus livros.

— Eu aprendi a ser jornalista circulando na redação do Comunicar para fazer entrevistas para o Jornal da PUC. Foram experiências muito marcantes. Sou completamente filha da PUC, fiz Comunicação Social, mestrado em Literatura, e elaborei um projeto na incubadora de empresas da PUC-Rio, o Gênesis, para criar uma editora. Devo muito a esta Universidade, aprendi demais aqui.

Martha revelou que já vendeu os direitos autorais de Cidade de Papel para o cinema, mas não vai acompanhar o andamento da adaptação do romance. Da mesma forma, a escritora não participou da construção do filme A Vida Invisível. Mas afirmou que se sentiu honrada ao ver que o longa-metragem, inspirado no seu primeiro livro, além de receber vários prêmios, foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar.

— Quando o Karim Aïnouz começou a fazer A Vida Invisível, eu estava no começo da minha carreira e só agora, depois de 12 anos de escrita, que consigo entender melhor o que é a carreira de escritora. Se tivesse parado naquele momento para ir para o cinema, teria atrapalhado o meu percurso pessoal. Além disso, não entendo nada de cinema, então, acho que eu não ia ajudar. Outra questão, e isso eu só soube depois de assistir ao filme, é que, diferente de mim, que uso muito humor no que escrevo, o Karim utiliza um melodrama na obra. Eu adoro o resultado do filme, e é uma honra ter ele como diretor e a Fernanda Montenegro como um personagem principal, mas nós dois, juntos, não ia dar certo, pois são dois estilos muito diferentes.

Martha Batalha em palestra na sala 102-K. Foto: Caio Matheus

Há mais de dois anos que a jornalista mora nos Estados Unidos, e ainda escreve crônicas para O Globo. Em meio a realidades diferentes, ela afirmou que às vezes é um desafio conseguir escrever um bom texto, pois não quer se fixar na comparação do cotidiano entre os dois países. Martha enfatiza, no entanto, que tudo isto se vence a partir da prática. De acordo com a escritora, a crônica é um fenômeno brasileiro, por mais que alguns países tenham o exercício tímido desta forma literária. Para a escritora, apesar da liberdade de expressão oferecida por este tipo de narração, o período de pandemia foi o mais sufocante.

— Na crônica, você pode escrever sobre o que quiser, o que é o mais legal. Mas durante a pandemia, você se sentia forçado a comentar a situação do Brasil. Como eu poderia falar da escola da minha filha enquanto milhares de brasileiros morriam? Isto foi um obstáculo para qualquer cronista.

A professora Rose Esquenazi apontou as motivações que a fizeram convidar Martha para o bate-papo. Ela acredita que um dos traços mais marcantes na obra da escritora é a brasilidade carioca, sempre com um olhar crítico e generoso.

— A Martha é uma ótima cronista, além de ser uma ótima escritora. Como uma parte da minha cadeira é edição de jornalismo, eu comecei a falar de crônica e achei que ela ilustraria bem o que era escrever uma crônica. Ela veio para coroar esta parte da matéria.

Professora Rose Esquenazi ao lado da cronista Martha Batalha após palestra. Foto: Caio Matheus

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