Vozes da humanidade
20/04/2023 17:34
Bernardo Brigagão e Henrique Barbi

PUC-Rio recebe exposição sobre os intérpretes de Nuremberg, em iniciativa do Departamento de Letras

1 julgamento, 4 llínguas. Foto: Kathleen Chelles

A exposição “1 julgamento, 4 línguas: os pioneiros da interpretação simultânea em Nuremberg" foi aberta oficialmente na noite de sexta-feira, dia 14, nos pilotis do Edifício Cardeal Leme. Com início na Grécia, passagem por mais de dez países e edição recente em São Paulo, a mostra traz à tona o papel precursor dos 36 tradutores no Tribunal Militar Internacional, em 1945, além de destacar os impactos da complexa atividade na vida de cada um deles. A presidente da Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (AIIC), a alemã Jennifer Fearnside-Bitsie, marcou presença no lançamento junto à presidente da AIIC Brasil, Fernanda Mathias e a ex-presidente da Associação Profissional de Intérpretes de Conferência (APIC), Laura Mortara.

Os intérpretes de Nuremberg deram início à prática da tradução simultânea, o que conferiu a agilidade e precisão necessárias ao julgamento. Durante 11 meses, eles ajudaram a expor as atrocidades cometidas pelos nazistas do Terceiro Reich. No início da cerimônia de abertura, houve uma representação do que era a modalidade consecutiva, ou seja, o mesmo discurso falado sucessivamente nas quatro línguas (alemão, francês, inglês e russo) que foram utilizadas no tribunal pelos juízes, testemunhas, réus, membros da acusação e da defesa. Esta edição, que chegou ao país em março, é uma parceria da AIIC Brasil com a APIC.

Exposição reuniu muitos visitantes. Foto: Kathleen Chelles

Responsável por levar a feira para além do território alemão, Jennifer apontou como principal marca da mostra a abordagem humana sobre os intérpretes e a realidade enfrentada por eles. Ela discursou em inglês e foi interpretada simultaneamente pelas tradutoras Ana Viana e Patrícia Loreto, que estavam em uma cabine montada na exposição.

— A importância desta exposição é que ela destaca algo que é horrível. Os intérpretes não tiveram nenhum apoio psicológico e aconselhamento que é oferecido hoje em dia aos intérpretes que trabalham em tribunais internacionais ou outras situações de alto estresse. Foi um caso de “abaixar a cabeça e seguir em frente”. A introdução da tradução simultânea desencadeou uma revolução na forma como a comunicação internacional acontece - afirmou Jennifer.

Jennifer Fearnside-Bitsios. Foto: Kathleen Chelles

Fernanda Mathias definiu como simbólica a presença da presidente da AIIC para os membros das associações realizadoras e também para os intérpretes em geral, pois grande parte das normas de trabalho de hoje resultam do que foi constituído desde a fundação da AIIC, em 1953. Em linha semelhante à de Jennifer, ela acredita que a maior contribuição da feira é mostrar a interpretação de conferências inserida em contextos, que podem impactar o ofício e até mesmo a vida pessoal dos profissionais da área.

— Acreditamos que diversos departamentos da Universidade poderão se beneficiar com a exploração deste tema. O foco da exposição são os homens e as mulheres que atuaram como intérpretes, com suas diferentes experiências e histórias de vida. Muitos, inclusive, foram vítimas dos mesmos crimes que estavam sendo julgados. Estamos falando não somente de interpretação, justiça, guerra, história, tecnologia, mas de humanidade. 

Fernanda Mathias. Foto: Kathleen Chelles

A ex-presidente da APIC, Laura Mortara, comentou sobre o propósito do julgamento de Nuremberg e o papel fundamental dos intérpretes que trabalharam sob condições extremamente desgastantes. Ela afirmou que a interpretação é, acima de tudo, um ato de humanidade, inspirada em declaração semelhante de Armand Jacobovitch, intérprete de Nuremberg e filho de judeus mortos no Holocausto.

— O julgamento de Nuremberg não foi estabelecido com o propósito de realizar uma vingança. Ele foi estabelecido com o propósito de fazer justiça e, para fazer justiça, era preciso que os réus compreendessem todos os procedimentos realizados pelo tribunal. Para que os réus compreendessem era preciso haver interpretação. Coube aos corajosos, pioneiros e pioneiras de Nuremberg trabalhar em condições inimagináveis de estresse físico e emocional numa cidade em ruínas com as feridas da guerra ainda abertas.

Um dos convidados também presente na exposição foi o Cônsul-Geral Adjunto e Adido Cultural da Alemanha, Joachim Schemel. Apesar de ser alemão, um dos idiomas de Nuremberg, ele fez um breve discurso em português sobre o contexto da Segunda Guerra Mundial e a importância da interpretação no âmbito internacional. 

O Departamento de Letras, representado pelo seu diretor, Alexandre Coutinho, apoiou a exposição junto ao Decanato do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH). Os professores exaltaram a iniciativa da Universidade em trazer a exibição para os pilotis do Edifício Cardeal Leme. Para o decano do CTCH, Júlio Cesar Diniz, é um espaço em que os direitos humanos serão respeitados. Alexandre, por sua vez, ressaltou o interesse do departamento no estudo de línguas estrangeiras. 

O Vice-Reitor Geral da PUC-Rio, Padre André Luís de Araújo, S.J., ressaltou o valor da mostra para a comunidade acadêmica, em nome do Reitor, Padre Anderson Antonio Pedroso, S.J., que estava viajando. Ele afirmou que a promoção de momentos como este, de diálogos que levam à reflexão, fazem ter certeza de que a Universidade continua na vanguarda do conhecimento.

A exposição ficará montada de 15 de abril a 13 de maio, das 8h às 18h, e contará com outras atividades, como palestras, debates e visitas guiadas.

Ana Viana e Patrícia Loreto na cabine. Foto: Kathleen Chelles

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