Meio ambiente: sistema completo e interconectado
16/05/2023 11:29
Sophia Marques

A ambientalista franco-norte-americana Céline Cousteau esteve na PUC-Rio para falar das experiências que teve na Amazônia.

Céline Cousteau, neta de Jacques Yves Cousteau, é ativista e cineasta. Foto: Caio Matheus

Não vivemos à parte da natureza, somos parte dela. Este foi o lema da Aula Inaugural do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, cuja convidada foi a ativista sócio-ambiental Céline Cousteau. A neta do oceanógrafo Jacques Cousteau ocupou na manhã do dia 31 de março o Auditório Del Castilho (RDC) com detalhes das suas experiências no Vale do Javari, território na Amazônia que é lar de sete mil povos indígenas, incluindo algumas das últimas tribos isoladas remanescentes no mundo. Ela explicou como essas vivências moldaram o caráter da sua militância, que tem como base a integração do indivíduo com o todo.

Assim como o avô, Céline também se aventurou na sétima arte. Em 2019, lançou o documentário Tribes on the Edge, que retrata a luta que as comunidades indígenas do Vale do Javari enfrentam para sobreviver. Ela também é responsável pelo Javari Project, que visa mapear questões locais e desenvolver soluções sustentáveis. A palestra foi uma iniciativa do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, e o professor Flávio SIlva foi o mediador.

Foi em uma expedição junto aos avós, em 1982, que Céline se conectou com a Amazônia pela primeira vez. A menina de nove anos veio para o Brasil com Jacques Yves Cousteau para navegar o maior rio do mundo, a bordo do Calypso, o “laboratório flutuante” da família. O explorador estava em busca de entender como as correntes fluviais, contaminadas pela poluição, afetam a saúde da biodiversidade ao desaguar no oceano. Para isso, atravessou os principais afluentes do Rio Amazonas e, próximo à fronteira do Brasil com o Peru, deparou-se com o Vale do Javari, segundo maior território indígena do país, com a maior concentração de populações isoladas do mundo. Para Céline, não houve um momento específico em que escolheu se dedicar à Amazônia, mas sim um conjunto de vivências que, segundo ela, ficarão para sempre preservadas no seu ser.

—  Eu enxergava aquilo através da minha própria visão, como uma criança. Eu não estava intelectualizando a destruição da Amazônia, apenas estava lá, experimentando tudo. Lembro de estar com um cientista, capturando piranhas, e próximo à mata tinha um senhor vendendo bananas. Nós saímos do barco, compramos as bananas e, dentro da floresta, eu vi como a família dele estava vivendo. Conheci a esposa dele, que estava cozinhando algo na fogueira, e ela me ofereceu. Eu provei, e aquele sabor ficou comigo. Mas anos depois, quando senti aquele gosto de novo, me lembrei daquele momento. As coisas que fazemos enquanto crianças permanecem com a gente para sempre. O Vale do Javari me escolheu. Eu não fui em busca dele, eu apareci lá, e quando alguém me pediu ajuda, eu disse sim.

Céline se inspirava na avó, Simone Cousteau, uma das poucas presenças femininas na embarcação. Foto: Reprodução/Tribes on the Edge (2019)

A estadunidense de sangue francês retornou à região pela primeira vez em 2007, para filmar o documentário Return to the Amazon, no qual voltou aos locais que o avô havia visitado no começo da década de 1980. Céline e a equipe estavam lá junto à Fundação Nacional de Saúde, entidade pública federal dedicada ao combate à mortalidade infantil e males  causados pela falta de saneamento básico e ambiental. As populações mostradas no filme sofriam com surtos de hepatite e outras doenças que poderiam ser curadas, mas na contramão disso, a Funasa anunciou um corte de gastos e, no meio da madrugada, bateu em retirada. Na manhã seguinte, quando os equipamentos de filmagem ficaram sem bateria, os estrangeiros pretendiam deixar o território em uma embarcação. Tensos com a oscilação do nível da água e as 15 horas de viagem que teriam pela frente até a próxima parada, eles esperaram pelo barco durante uma hora. No dia seguinte, descobriram que, na verdade, estavam aguardando pela negociação da soltura deles, os reféns.

— Eu saí de lá querendo ter feito mais. Eu não me senti ameaçada em momento nenhum, só queria saber o motivo, porque sabia que não tinha a ver conosco. A resposta que recebi foi devastadora: “Te mantiveram como refém pensando que talvez isso obrigasse o governo a escutá-los. Porque a sua vida tem mais valor”. Isto só me trouxe mais vontade de fazer algo. Em 2010, eles disseram “volte e conte a nossa história”, e eu disse “claro!”.

Céline observa menino doente, na aldeia Matis Tawaya. Foto: Michael Clark

Em 2011, Céline retornou ao local a pedido do líder indígena Beto Marubo, e retratou esta aventura no documentário Tribes on the Edge, produzido pela CauseCentric Productions, produtora audiovisual criada por ela. O projeto foi filmado durante três anos, entre idas e vindas ao Vale do Javari, e foi lançado em 2019. Anos depois, a situação dos povos envolvidos era ainda muito semelhante à do passado, e isto chamou a atenção da documentarista. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, embora a população indígena seja 5% da população mundial, 80% da biodiversidade do planeta está sob seus cuidados. A ambientalista relembrou a importância da diversidade biológica na saúde de um ecossistema, e disse que a extinção dos povos nativos causaria, também, a destruição da floresta. Para ela, o mundo deveria considerar a preservação dos povos nativos como um investimento na saúde global.

— Antigamente, tínhamos a ideia de que “conservação” significava que a natureza seria melhor sem os humanos. Isto não é verdade. A natureza pode ser melhor com os humanos certos, nós podemos fazer o bem enormemente. Os indígenas são guardiões naturais dos ecossistemas. Eu não vou tentar convencer você a dar importância para árvores apenas por serem árvores. Mas cuidar do meio ambiente, para o bem da nossa sobrevivência, encarando-o como um sistema completo e interconectado. Acho que isso é algo que merece atenção.

Céline contou que existiram tentativas de lançar o filme no Brasil, mas não é tarefa fácil. Foto: Michael Clark

A negligência que os povos indígenas sofrem inspirou o Javari Project, organização sem fins lucrativos, co-fundada por Céline Cousteau e o jornalista ambiental Tadzio Mac Gregor. A iniciativa une as comunidades do Vale do Javari, incluindo as tribos isoladas, a parceiros externos, em uma rede de apoio. O objetivo é conectar as organizações já envolvidas nas causas locais, e provê-las com recursos para desenvolver três pilares principais: a saúde indígena e do meio ambiente, a análise da biodiversidade e o desenvolvimento de meios de subsistência alternativos. A autonomia dos povos é um ponto importante no plano, para evitar que os indígenas precisem entrar em contato com as cidades em volta. Esta área é considerada uma das mais perigosas da Amazônia, devido às rotas de tráfico de drogas e armas, roubo de madeira e pontos de caça e pesca ilegais que cruzam a sua extensão.

Em 2022, o Vale do Javari repercurtiu internacionalmente por ser pano de fundo para o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phllips. Foto: Reprodução/Tribes on the Edge (2019)

Céline se inspira na obra do monge budista zen Thich Nhat Hanh, que pregava que “o caminho para fora é por dentro”. Considera o trabalho interno uma das tarefas mais árduas, porque demanda vontade genuína de evoluir e também uma honestidade firme no julgamento de si mesmo. Para a aventureira da terceira geração da família Cousteau, as vivências na floresta ensinaram que não há sentido em se colocar como uma peça maior e isolada do todo, e o que a move é uma ideia: somos pequenos, insignificantes e parte de uma história maior.

— Quando começamos a olhar para nós mesmos como o ponto essencial para a mudança no mundo, é aí que ela começa a realmente acontecer. Isto é muito mais difícil do que todo o trabalho ambiental que eu já fiz. Mas é o único caminho para que as coisas evoluam. O que me move, atualmente, é ajudar as pessoas a encarar o próprio sofrimento e a se curarem. Eu não acho que a crise ambiental seja a mais proeminente, mas acho que é a crise humana.

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