Potencial transformado em ação
21/09/2023 18:07
Carolina Smolentzov

Alunos da PUC-Rio criam projetos sociais e apresentam diferentes perspectivas sobre cada iniciativa

Arte: Editoria de Arte PUC-Rio

Rocinha, Cidade de Deus, Jardim Gramacho, Parque da Cidade e Aldeia Mutum. É engano dizer que a PUC-Rio fica restrita apenas ao campus Gávea. Ao redor da cidade e do país, as vozes de estudantes que fazem a diferença produzem ecos. Inconformados e inquietos, alguns alunos transformaram demandas reais em ações para impactar e melhorar a vida das pessoas. Da engenharia ao design, conheça a proposta de cinco projetos sociais criados por alunos e ex-alunos da PUC-Rio.
 
Água Camelo

Durante o inverno amazônico, as chuvas aumentam, e os leitos dos rios sobem. O resultado é a contaminação da água e, consequentemente, das famílias que dependem deles. Na Aldeia Mutum, no Acre, 96% dos entrevistados pelo projeto de um estudante de Design da PUC-Rio relataram sintomas de doenças de veiculação hídrica. Durante uma disciplina de 4º período, Rodrigo Belli, 26 anos, idealizou o que se tornaria, futuramente, o Água Camelo. Ao longo do curso, influenciado pelos colegas e professores, o jovem percebeu o poder do design para gerar ferramentas de transformação e mobilidade social.

O serviço possibilita o acesso a uma fonte segura de água tratada para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Os kits Camelo são compostos por uma mochila, um filtro de água portátil, um suporte de parede e um manual de uso e manutenção. O filtro consegue reter até 99.9% de todas as bactérias, protozoários e partículas de suspensão na água, inclusive microplásticos. O primeiro kit foi entregue em 2019 no Jardim Gramacho, na Baixada Fluminense, a partir de parceiros dentro da comunidade.

Rodrigo Belli, CEO do Água Camelo. Foto: Arquivo Pessoal

Nos anos seguintes, foram muitos os passos até a consolidação do empreendimento social: capacitações, iniciação científica, cursos por fora, aceleradoras de startups, até uma colocação na lista da revista Forbes “30 Under 30”. A empresa foi oficializada em agosto de 2020 e, em quatro meses, quase 500 kits tinham sido entregues em sete estados do país, e impactado mais de 4 mil pessoas

– Sou muito emotivo, choro para caramba e idealizo as coisas. No início, ninguém acreditou como eu acreditei. O grande aprendizado do curso de design é não ter medo de errar. E, ao mesmo tempo, saber lidar com o erro com a maior tranquilidade do universo. Errar não é ruim, é o que te faz mover para frente, ele não pode te paralisar.
Em março de 2023, a empresa marcou presença na Conferência Mundial da água, na sede da ONU em Nova York.

Kit Camelo consegue reter até 99.9% de todas as bactérias, protozoários e partículas de suspensão na água. Foto: Reprodução

Atualmente, Belli trabalha para expandir o impacto e pensar em soluções e produtos em contextos mais comunitários em relação ao acesso à água limpa. Outros dois produtos Camelos já estão disponíveis: a central de filtragem e distribuição, pensada para larga escala; e o totem Camelo, desenvolvido para eventos, como foi o caso da Expofavela e da Tardezinha, evento do cantor Thiaguinho.

Apoie:  https://www.aguacamelo.com.br/
Contato: rodrigobelli@aguacamelo.com.br
Redes sociais: @agua_camelo

ReMar 

Dois dos colegas que foram inspirados pelo esforço de Belli e pelo curso de design são Nicolau Locatelli e Frederico Mello, de 27 e 26 anos. Eles começaram a frequentar o Jardim Gramacho por causa do Água Camelo. O bairro de Duque de Caxias se desenvolveu em torno de um lixão que existiu por mais de 30 anos, e considerado o maior da América Latina em volume de resíduos recebidos por dia. Quando o local foi desativado em 2012, a maioria das famílias da região ficou sem nenhuma fonte de renda e em situação de extrema pobreza.

Juntos, Locatelli e Mello fundaram a ReMar, ONG que busca o desenvolvimento do território de Jardim Gramacho. O objetivo é aumentar a renda das mulheres, chefes de família, na maioria catadoras do antigo lixão. Isto é feito por meio da compra dos materiais recicláveis coletados por elas, pelo dobro do que o mercado oferece. A ONG também elimina dificuldades como a locomoção do produto e a separação dos resíduos. Ao doar o material para as cooperativas, a ReMar faz a roda econômica da comunidade girar com maior êxito. Tudo é bancado por doações e parcerias com empresas.

– A romantização da dificuldade é muito perigosa. Quando você sente na pele, recebe uma ligação de alguém falando que a mãe está morrendo ou o filho está com tuberculose e não tem dinheiro para ir ao hospital, percebe que ninguém tem que passar por essas mazelas. Nosso trabalho tem o objetivo de garantir condições para que eles sejam os protagonistas de mudanças, porque são os que vivem aquilo – opina Locatelli.

Nicolau Locatelli e Frederico Mello. Foto: Carolina Smolentzov

Os dois alunos já compartilhavam o desejo de fazer a diferença e contribuir, mas foi na Universidade que tiveram as condições para encontrar a melhor forma de concretizar um projeto. Para Locatelli, o curso de design trouxe referências e oportunidades, além de professores que os apoiaram e se colocaram à disposição para aflorar e amadurecer as ideias. Mello relembra, ainda, que o primeiro contato com o Jardim Gramacho solidificou a possibilidade de causar o impacto que tanto buscavam.

– Nós imaginávamos como era o cenário e conhecíamos os números. Mas é muito diferente chegar lá, pisar, sentir o cheiro, conversar com as pessoas. É um choque de realidade que nos faz continuar todos os dias, trabalhar, produzir, arrumar outros caminhos e se relacionar. Apesar de sermos completamente diferentes, em vários aspectos, nós somos iguais.

ReMar busca aumentar a renda das chefes de família do antigo lixão. Foto: Reprodução

A estrutura de ONG é importante para causar o máximo de impacto possível, já que a ideia é que, posteriormente, o projeto seja formado só por pessoas de Jardim Gramacho. Locatelli acredita que o intercâmbio entre o asfalto e a favela seja necessário para estimular diferentes olhares. Para ele, estes lugares precisam estar dentro da PUC-Rio e vice-versa, para pensar em novos tempos. A ReMar, ele avalia, é um início.

– É um caminho não convencional, mais ligado à paixão. Eu acho que é um sentimento latente em qualquer área, mas pode ser uma inspiração de um novo caminho a se seguir e que funciona. Se de alguma forma pudermos, além de gerar impacto, servir de referência para pessoas e estimular, potencializar, catalisar um desejo a se transformar em ação, vai ser muito satisfatório.
Em 2022, a ReMar ajudou a retirar mais de 13 toneladas de plásticos do meio ambiente. O número representa um crescimento de 316% em relação ao ano anterior. No total, 88 famílias foram atendidas neste ano.

Apoie: https://apoia.se/remar
Contatos: +55 21 98173-0225 (Nicolau Locatelli) e +55 21 99494-4596 (Frederico Mello)
Redes sociais: @remar.ong

Só Cria

Há quatro anos, cerca de dez amigos de diferentes universidades do Rio de Janeiro compartilhavam de um mesmo anseio, fomentado pelo tenso momento político e pelas falhas do sistema de ensino. Destas insatisfações nasceu o Só Cria, projeto de educação social que funciona como pré-vestibular popular para o Ensino Superior. Entre os amigos, estava o engenheiro de petróleo Lucas Almeida, de 29 anos. Um verdadeiro filho da PUC-Rio, onde ele cursou a graduação, o mestrado, e agora, conclui o doutorado. Almeida é nascido e criado na Rocinha. Mas, apesar de ser uma das maiores favelas da América Latina, a comunidade oferecia na época apenas um pré-vestibular.

– Eu percebo o valor da conversa e do tempo que se dedica às outras pessoas. Olhar para alguém e mostrar que você tem interesse na vida dela faz toda a diferença. Nossa proposta sempre foi sobre o cuidado com as pessoas, ou seja, entender o sujeito, o contexto e o território onde ele está. Eu ainda nem tenho 30 anos, saí de uma comunidade e acabo de terminar meu doutorado. Comparado à expectativa da minha família ou qualquer pessoa da minha realidade, estou na ponta do iceberg. Mas às vezes, não paro para pensar nas coisas que já conquistei. Fico muito orgulhoso.

Giulia Balbi e Lucas Almeida. Foto: Carolina Smolentzov

Um consenso era o desejo de acolher públicos que normalmente têm pouco acesso a oportunidades de educação, como mães que não têm onde deixar os filhos ou pessoas mais velhas que pararam de estudar. Por isso, o projeto disponibiliza uma equipe de acolhimento com psicólogos e assistentes sociais, que busca identificar e sanar necessidades individuais dos alunos. Formada em psicologia pela PUC-Rio, Giulia Balbi Rodrigues, de 27 anos, entrou no projeto em 2019 e foi coordenadora da equipe psicossocial. Para ela, o objetivo - muito além de formar uma pessoa para fazer vestibular - é abrir horizontes de possibilidades dentro e fora da Rocinha.

– Entrei em um território que não era meu para fazer um trabalho voluntário, mas que é muito mais que um trabalho. É como eu vejo o mundo, o que acredito que deve ser feito enquanto psicóloga e como pessoa política atuando na sociedade. O aprendizado maior foi este: mudou muito a minha cabeça e minha forma de enxergar o mundo – relata Giulia.

O Só Cria desenvolve uma rede de educação popular, que articula serviços como saúde, saneamento, educação - e funciona como um espaço que gera identificação para os moradores dentro da comunidade. Vai desde iniciativas como aulas de rap e MC até a distribuição de cestas básicas durante a pandemia.
 
Apoie: https://abacashi.com/p/o-so-cria-da-rocinha-precisa-de-voce
Redes sociais: @rede.socria

GenerosaMente
 
Em meados de 2018, todos os professores de uma escola de Ensino Fundamental na Cidade de Deus sentavam enfileirados em uma sala de aula, esperando estudantes de psicologia da PUC-Rio, que estagiariam ali. Rodrigo Lino, que na época estava no 2° período do curso, escutou em sala os relatos dos professores sobre o trabalho desenvolvido na Cidade de Deus. Ao final, quase todos presentes se emocionaram. Naquele momento, surgiu o projeto GenerosaMente. 

Rodrigo Lino começou o projeto no curso de psicologia. Foto: Rodrigo Lino

No mesmo dia, Lino e o colega de curso Glênio Nascimento pediram à diretora da escola para fazer uma “brincadeira sobre as emoções” com as crianças. Mesmo sem nenhum planejamento, a primeira atividade foi um desenho: de um lado, algo que os deixassem alegres; do outro, o que os deixava tristes.

– Este primeiro momento já foi absurdo, porque todas as demandas e temas que discutimos na psicologia estavam presentes. Desenhos de tiroteio, de morte, de um menino negro pedindo lápis cor de pele e sem encontrar a cor dele. Todo empreendimento atende a uma dor. Aquilo foi uma oportunidade que surgiu para nós, porque vimos a dor escancarada dos 15 professores, que choravam porque não conseguiam dar aula

GenerosaMente desenvolve metodologia própria de educação emocional. Foto: Reprodução

O GenerosaMente é uma associação sem fins lucrativos que desenvolve uma metodologia própria para levar educação emocional para crianças em situação de vulnerabilidade. Composto por dinâmicas em grupo, o sistema é aplicado ao longo de dez meses que correspondem ao ano letivo, dividido em três momentos. Esta organização busca estreitar laços e criar um ambiente seguro; lidar com as funções das emoções; e, por último, com questões sociais e as competências socioemocionais, como bullying e racismo.
 
As dinâmicas são realizadas com linguagem clara e acessível para que as crianças não só entendam, mas incorporem os conhecimentos à realidade delas. O objetivo é ensiná-las que as emoções não são boas ou ruins, mas todas podem ser usadas de forma construtiva ou destrutiva. Outro propósito, de acordo com Lino, é a redução das iniquidades sociais e a democratização do acesso à psicologia.
– Na época, eu estava entrando na vida adulta, e acho que trabalhar com crianças te faz buscar sua melhor versão por elas. Eu gostaria de ter tido isso na infância. Queria ter alguém na escola que falasse gíria e ao mesmo tempo me ensinasse sobre as emoções, ou ter uma aula de meditação.
 
Apoie: www.apoia.se/generosamente
Site: www.generosamente.com.br/
Redes sociais: @projetogenerosamente

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