Interfaces com as Humanidades
21/03/2024 16:18
Laura Tura

Simpósio de Neurociências proporcionou palestras interdisciplinares entre discentes e docentes

O 1º Simpósio de Neurociências e suas Interfaces com as Humanidades promoveu debates interdisciplinares entre os campos de Psicologia, Direito e Neurociências. O encontro foi organizado pelos alunos Lis Kogan e Ana Salmistraro, de Neurociências, Luiza Mezavilla e Leonardo Ferreira, de Psicologia, e Eudes Filho, de Direito. O projeto foi contemplado por um edital do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades (IEAHu) em 2023. 

Os palestrantes abordaram temas como “Tomada de Decisão e Processo Judicial: Vieses Cognitivos, Livre Arbítrio, Interfaces com as Neurociências”, “Estados Alterados de Consciência, Terapias, Uso de Cannabis” e “Responsabilização e Marcos Regulatórios e Mídias Digitais: Implicações das Redes Sociais, Neurodireitos e Neurodesenvolvimento”. Após o desenvolvimento de cada um dos convidados, foi aberta uma sessão de perguntas e interatividade com a plateia. 

O simpósio recebeu a doutora em neurociências Fernanda Palhano, a advogada criminalista Marcela Sanches, o médico e professor João Menezes, o psicólogo clínico Fernando Bezerra e a mestra em psicologia Bheatrix Biennemann. Um dos assuntos abordados foi a evolução dos estudos do MDMA para tratamentos de estresse pós-traumático. 

Bheatrix Biennemann e Fernando Bezerra participaram do Primeiro Simpósio de Neurociências e Humanidades da PUC-Rio. Foto: Caio Matheus

Segundo o psicólogo Fernando Bezerra, a regulação da substância já está prevista nos Estados Unidos e a decisão pode reverberar em outros países. Ele ainda destacou que o resultado de pesquisas clínicas para estudos de eficácia foram superiores a tratamentos de primeira linha prescritos atualmente no mercado.

A  psicóloga Bheatrix Bienneman constatou que as questões relativas aos psicodélicos estão relacionadas com a autoconsciência. Algumas doenças como a depressão estão ligadas a alterações de autorreferência e visões de mundo. De acordo com a psicóloga, estudar psicodélicos como uma ferramenta de entender os processos modificados de autoconsciência permitiria uma compreensão, com mais profundidade, em relação às questões psiquiátricas desse processo.

Apesar dos recentes avanços sobre o uso de cannabis medicinal no Brasil, para os psicodélicos ainda há um longo caminho a se percorrer. A advogada criminalista Marcela Sanches explicou que, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), só será possível regulamentar o uso dessas substâncias sob demanda da população. É preciso fazer uma regulamentação inclusiva e estabelecer mecanismos para reparar os danos que foram cometidos ao longo dos anos pelas guerras de drogas. Para Marcela, a mídia tem extrema importância em ajudar a disseminar informações e desmistificar o tema.

Marcela Sanches discursou sobre a regulamentação de substâncias e a necessidade de reparar os impactos da guerra das drogas. Foto: Caio Matheus

Mundo digital e neurodireitos

Durante o encontro, foram discutidos assuntos sobre os impactos das mídias digitais no neurodesenvolvimento e debates sobre neurodireitos que envolvem questões éticas e legais, relacionadas à privacidade. Os palestrantes do dia foram a professora do Departamento de Psicologia Patricia Bado, a psicóloga e pedagoga Jacqueline Maia, o advogado especializado em demandas de Direito Digital, Tecnologia e Proteção de Dados Pessoais Vinicius Padrão e a pesquisadora e advogada Rafaela Ferreira.

A professora Patricia Bado alertou sobre um estudo com adolescentes norte-americanos que tiveram uma piora na saúde mental ao serem expostos por um longo tempo às redes. Ela ressaltou que a qualidade do sono e exercícios físicos também afetam o bem-estar.

— É possível achar efeitos positivos, nulos ou negativos no uso de telas para a saúde mental. Apesar do uso das mídias explicar menos de 1% dos sintomas, as pesquisas revelaram associações negativas. É muito pouco, mas, ainda assim, é uma associação negativa.

Patricia Bado falou sobre os efeitos da exposição digital na saúde dos jovens. Foto: Kathleen Chelles

Outro tema abordado no simpósio foi o uso da neurotecnologia, uma categoria de tecnologias que se concentram na interação entre o sistema nervoso e dispositivos eletrônicos que permitem monitorar, manipular ou entender o funcionamento do cérebro. Para o advogado Vinicius Padrão, os neurodireitos são uma resposta jurídica aos desdobramentos destas ferramentas. O objetivo é antecipar consequências negativas ou positivas das neurotecnologias para que a regulação possa extrair o melhor possível para a sociedade.

A psicóloga e pedagoga Jacqueline Maia alertou sobre os riscos do uso das redes sociais por crianças sem a fiscalização de adultos. É muito comum ver crianças ganharem visibilidade nas redes ao protagonizar vídeos dos mais diversos nichos. Na maioria dos casos com influências dos pais, elas  sofrem uma exposição excessiva nas redes, o que pode atrair perigos para integridade física e mental desse indivíduo. Na opinião de Jacqueline,  seria preciso repensar os contextos sociais e jurídicos do uso de internet por crianças.

A aluna do Departamento de Neurociências e organizadora do evento Lis Kogan achou muito satisfatória a experiência do simpósio. Ela destacou como a interdisciplinaridade nos encontros se conectaram e renderam conversas relevantes que permitiu  aprofundar os temas propostos.

— A sensação é que as pessoas que estavam aqui estão mais conectadas agora. Depois do Simpósio, nós também  temos outras possibilidades de  pesquisa. Foi recompensador juntar os novatos, os que já se conheciam e os que estão se aprofundando nos temas. O encontro abriu leques de pensamento.

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