Comunidade acadêmica se despede do professor Ricardo Benzaquen
09/02/2017 17:26
Gustavo Côrtes

Professor, historiador e antropólogo é lembrado pelos colegas por sua simplicidade e sua inestimável contribuição às ciências sociais e à Universidade, onde lecionou por mais de 40 anos.

Ricardo Benzaquen / Foto: Felipe Fittipaldi

Morreu, no último dia 1º de fevereiro, o professor, historiador e antropólogo Ricardo Benzaquen de Araújo, professor da PUC-Rio, universidade em que se formou e lecionou no Departamento de História por mais de 40 anos. Benzaquen foi um importante intérprete da sociologia brasileira do século 20, tendo se dedicado principalmente à análise das obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Diversos colegas lamentaram a perda, e instituições divulgaram notas de pesar.

O reitor da PUC-Rio, Padre Josafá Siqueira, lamentou a morte do professor e ressaltou suas virtudes como profissional e amigo:

– Quero manifestar meus sentimentos pelo falecimento de nosso querido professor Ricardo Benzaquen, que compartilhou conosco durante muitos anos os seus conhecimentos em história, com competência e seriedade. Ele sempre será lembrado não só como professor e pesquisador, mas também como uma pessoa que procurou participar das inúmeras atividades na PUC-Rio, com simplicidade e grandeza de coração. Que lá na pátria celeste onde ele viverá eternamente, certamente estará intercedendo por nós e pela PUC-Rio que ele tanto gostava.

O decano do CTCH, professor Julio Diniz, o vice-reitor Francisco Ivern, os diretores dos departamentos de Ciências Sociais, Educação, Engenharia Civil, Engenharia Mecânica e a Assessoria Jurídica também manifestaram sua solidariedade à família, e exaltaram sua inestimável contribuição para a Universidade.

A professora do Departamento de Antropologia da USP Lilia Shwarcz acompanhou o quadro agudo de saúde do amigo, com quem dividiu trabalhos acadêmicos – organizaram juntos Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Cia das Letras, 2006) – e experiências pessoais:

– Eu o conheci no final dos anos 90, através de um grupo da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) chamado História do Pensamento no Brasil, no qual ele ocupava uma posição central. A liderança do Ricardinho se devia à erudição, à generosidade com os outros e à curiosidade pelo conhecimento alheio. Então ele despertava nas pessoas uma vontade enorme de conhecê-lo. A frase que talvez melhor o defina é “deixa comigo”, tamanha era a vontade de ajudar. Só que ele era uma pessoa do mundo intelectual. Na vida prática, não era tão eficiente. Mesmo assim, sempre se dispunha a resolver problemas.

As palavras do professor do Departamento de direito da PUC-Rio Adriano Pilatti corroboram a descrição afetuosa de Lilia sobre Benzaquen.

– Maravilhoso ser humano, grande intelectual, generoso professor e orientador, fino escritor. Todos que privaram mais próxima e intimamente de sua convivência sentirão o tamanho da cratera que se abriu no Departamento de História, na PUC e muito além.

O professor Roberto DaMatta escreveu sobre o colega, ex-aluno no Museu Nacional, na coluna “A vida e os mortos”, no jornal O Globo: “Como sócio-historiador de primeira categoria, Ricardinho, como nós os chamávamos por causa de seu temperamento simples, doce e generoso, sabia tudo, mas fingia que você o ensinava alguma coisa”.

Também no Globo, o colunista Fred Coelho prestou sua homenagem, no texto “Anônimos e eternos”: “Ricardo Benzaquen de Araújo era parte de um grupo de pesquisadores que, hoje, são cada vez mais raros dentre as novas gerações. Talvez tenha sido a última leva de pensadores do século XX que ainda colocaram o Brasil e seus problemas profundos no centro de suas preocupações e delírios”.

A Biblioteca Nacional emitiu nota de pesar, em que a diretora do Centro de Cooperação e Difusão da Biblioteca Nacional, Maria Eduarda Marques, ex-aluna de Benzaquen, destaca que o professor era referência na área da Teoria de História no Rio de Janeiro, responsável pela formação de uma geração de alunos nos departamentos de História da PUC-Rio e do Iuperj.

Ela ainda destaca a perspectiva ampla e aberta da História de Benzaquen, que o levou a estudar tanto futebol como o Integralismo, “a partir de uma perspectiva antidogmática e anticientificista da história”. Na Biblioteca Nacional, Ricardo Benzaquen de Araújo integrou o Conselho Editorial da Revista de História. ­Doutor em antropologia, Benzaquen é autor de Totalitarismo e Revolução (1988, Zahar), sobre o movimento integralista no Brasil, mas foi Guerra e Paz: Casa-grande e Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30 (1994, Editora 34) o livro que o consagrou. No ensaio, premiado com o Jabuti, disseca o pensamento de Gilberto Freyre, um dos mais importantes intelectuais brasileiros.

DaMatta define o ensaio como inestimável contribuição, que só “uma alma com o seu equilíbrio de rabino” poderia ter produzido. “Ali ele revela o erro de reduzir Freyre a uma só gaveta e discute a presença dos desequilíbrios presentes no Brasil inventado pela obra deste que foi o maior conhecedor do Brasil”. Lilia completa:

– Ele certamente figura entre os nossos grandes intérpretes. A análise feita por ele em Guerra e Paz é pioneira, porque criou uma nova maneira de compreender o pensamento do Gilberto Freyre, sobretudo nessa ideia de equilíbrio de opostos, a acomodação de contradições, tão recorrente nas obras de Freyre.

O antropólogo também contribuiu para a coletânea de ensaios Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país (2009, Companhia das Letras), e desenvolvia um trabalho sobre Joaquim Nabuco.

O velório, realizado dia 2 no Cemitério do Caju, no Rio, reuniu cerca de duzentas pessoas. “Eu e a torcida do Flamengo adorávamos o Ricardinho. Num mundo de tão poucas unanimidades, ele sem dúvida era uma”, resumiu Lilia.

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