A realidade de jovens negros no ensino superior brasileiro
23/05/2017 17:27
Gabriela de Vicq, com fotos de Lucas Simões

Mesa-redonda “Racismo, Branquitude e Universidade”, organizada pelo Departamento de Relações Internacionais (IRI), reuniu historiadores, integrantes do Coletivo Nuvem Negra e estudantes.

Natany Luiz, Lourenço Cardoso, a mediadora Bruna Silva e Fransergio Goulart

A realidade de jovens negros no ensino superior brasileiro foi tema da mesa-redonda “Racismo, Branquitude e Universidade”, organizada pelo Departamento de Relações Internacionais (IRI), na terça-feira, 23, reunindo os historiadores Lourenço Cardoso, professor adjunto na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), e Fransérgio Goulart, morador da Favela de Manguinhos; e a estudante de RI Natany Luiz, integrante do Coletivo Nuvem Negra da PUC-Rio. O encontro permitiu a troca de impressões sobre diversidade e preconceito em instituições de ensino, também em pauta na série norte-americana Dear white people – em que um universitário usa seu programa de rádio para dar alertas contra o racismo.

“A universidade bem que podia ser uma ‘pluriversidade’, onde todos nós pudéssemos nos sentir confortáveis, com uma epistemologia variada, e não só um lugar onde só os brancos se sentem bem”, afirmou Cardoso, que antecipou no Auditório do RDC questões que aborda em minicurso de dois dias sobre “branquitude”. Em paralelo a negritude, termo referente à valorização da cultura negra, branquitude seria o lugar de onde os brancos veem os outros e a si mesmos, nas palavras da pesquisadora Ruth Frankenberg.

Para Cardoso, falar de branquitude é importante por apontar a naturalização dos brancos como um suposto padrão. Segundo o professor, o branco sempre foi protagonista como colonizador ou civilizador ao longo da história, sem que sua etnia fosse explicitada – o que, para ele, é uma das formas de se manter o privilégio racial. Cardoso observou que a definição de “branco” e “negro” é uma construção social ­– em que o branco comumente é tido como mais inteligente ou bonito, enquanto o negro é desvalorizado. Essas ideias, acredita, podem ser desconstruídas pela problematização da branquitude:

– Os brancos estão em todas as partes, nas melhores posições, mas nunca precisam definir sua raça nos textos. Essa definição fica para os outros: negros e índios sempre são marcados como tais. O valor do branco foi construído colonialmente, a partir da desvalorização das outras raças. É a mesma concepção para homem e mulher, ocidental e oriental, e para qualquer tipo de opressor e oprimido.

“A branquitude é um lugar de poder e de privilégio, seja ele simbólico, objetivo e material”, acrescentou Goulart, para quem o racismo não se resolve com desculpas nem com o reconhecimento dos privilégios por parte dos brancos – e sim com a igualdade. Ele considera excessivo e equivocado o grande volume de pesquisas acadêmicas realizadas sobre favelas no Brasil.

– A classe média branca não cansa de pesquisar o favelado e o oprimido. Por que não estudamos os brancos e a elite? Ao nos estudarem, se apropriam de nós. São os privilégios sendo mantidos e a branquitude intacta: brancos falando sobre os negros, sem olharem para si – questionou, anunciando que haverá um encontro, “Para que e para quem servem as pesquisas acadêmicas sobre as favelas?”, com a participação de moradores de favelas e de pesquisadores, na Maré, no sábado 10 de junho.

A estudante Natany Luiz, por sua vez, contou sobre a experiência de ser negra e fazer parte de uma minoria nas universidades, onde, para ela, o racismo se configura de uma forma diferente das relações duais e interpessoais de outros ambientes. Segundo ela, o choque ocorre quando os jovens negros entram nesse ambiente e se percebem, alguns pela primeira vez, como negros: “No início estamos sozinhos, e é muito difícil encarar esse lugar completamente diferente da nossa realidade sem os nossos pares”, contou a ex-aluna do Colégio Pedro II.

Uma das violências simbólicas mencionada por Natany é a travessia cotidiana entre mundos tão distantes, referindo-se mais à realidade social do que à distância geográfica que faz muitos alunos atravessarem a cidade para cursar uma faculdade:

– É difícil para um jovem negro e morador de periferia sair de um tiroteio e entrar na sala de aula. A cabeça não está aqui. Enquanto falam sobre Hegel, ele só pensa nos tiros perto de casa, na sua mãe que está desempregada e que precisa se formar logo para ter dinheiro.

Diante dessas situações, Natany lembrou que é comum que jovens negros se sintam incapazes academicamente e que desenvolvam baixa autoestima, o que leva muitos a desistir. Goulart aposta no apoio mútuo como solução para esse problema:

– Ter um grupo em desvantagem já é uma violência, e isso sempre vai ser doloroso. Algo que reduz isso são os coletivos, que têm encontros praticamente terapêuticos. Sentar em roda, se ouvir e trocar problemas é uma prática ancestral. Para mim, é a única possibilidade de se manter na luta. Além disso, temos que comemorar cada micro conquista. Temos que celebrar esse encontro, já que celebrar também é resistir.

Natany concordou:

– Se eu não tivesse conhecido o coletivo, nem sei se teria continuado na universidade. A gente precisa sempre procurar coisas que nos distraiam, como ir ao bar e sair com os amigos. Mas precisamos saber que são medidas paliativas. A busca por apoio pode ser muito necessária para que possamos cuidar da cabeça.

A estudante Natany Luiz

Cardoso defendeu a necessidade de pluralizar o conhecimento incluindo saberes afroculturais – uma das pautas do Coletivo Nuvem Negra, quando foi criado, em 2015. Com este intuito, o IRI passou a oferecer a disciplina Relações Raciais em Perspectiva Diaspórica, que tem autores negros como principais teóricos da bibliografia.

– Olhando as bibliografias, só encontramos os clássicos autores brancos e euro-centrados, que estão sempre falando dos negros. E você se percebe como esse outro e se pergunta: por que ele precisa falar tanto sobre mim? Não notam que ao escreverem sobre nós e nos tratarem como “outros”, continuam nos exotizando e nos colocando em um lugar subalterno? É uma escolha política e ideológica não querer ceder seu espaço para que outras narrativas sejam contadas.

Goulart concordou:

– Eu quero ler as pessoas historicamente invisibilizadas. Temos que construir uma nova epistemologia. Existe uma visão de mundo diferente da imposta por uma universidade majoritariamente branca. Não estou dizendo que a ótica do favelado e do preto é melhor. Só é diferente. É um tipo de conhecimento e deve ser compartilhada.

Bruna Silva e Fransérgio Goulart

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