"Racismo e machismo atrapalham o desenvolvimento das pesquisas"
08/06/2017 16:38
Diana Fidalgo

Educadores e estudantes debatem questões étnico-raciais na Semana de Educação da PUC-Rio.

Mesmo depois de 129 anos da abolição da escravidão no Brasil, em 1888, e a despeito do mito da democracia racial, o preconceito de raça continua disseminado na sociedade brasileira. Indício disso é que apenas 3% das bonecas disponíveis no mercado são negras, segundo levantamento feito pela ONG Avante, em 2016, embora negros somem 54% da população. A falta de representatividade na sociedade e a atuação de pedagogos em diferentes espaços em torno das questões étnico-raciais foram tema de debate na VII Semana de Educação na PUC-Rio, organizada pelo Decanato do CTCH, pelo Departamento de Educação e pelo Centro Acadêmico de Pedagogia, no dia 29 de maio.

Especialistas criticaram o processo de “branqueamento” de personalidades negras e na formação. Integrante do Gecec (Grupos de Estudos sobre Cotidiano, Educação e Cultura(s), Rogério José questionou a falta de registros sobre negros na Antiguidade Clássica, o que contribui para a crítica aos currículos de história, e defendeu a decolonialidade, processo que busca superar o padrão de poder colonial instituído historicamente:

– Precisamos nos libertar de tudo aquilo que nos amarra. O racismo, o machismo atrapalham o desenvolvimento das pesquisas. Precisamos exercitar a decolonialidade, que precisa vir de dentro de nós. E isso se faz com pesquisas, experimentação, buscas, novas bibliografias, novas leituras, com outras referências que não só as europeias.

Foto de Lucas Simões

A cientista social Lua Fonseca, integrante do Coletivo Nuvem Negra da PUC-Rio, também comentou sobre a falta de representatividade nos estudos, em que há pouca referência a autores negros:

– Os professores têm que pensar no que fazer para a sala deles ser menos branca. Não estamos pedindo algo específico, e sim pedindo para todos refletirem. Precisamos falar de racismo não quando acontece, e sim para evitar.

Lua Fonseca. Foto de Lucas Simões

Para outra integrante do Gecec, Sandra Marcelino, ainda falta muito para se chegar a ter a devida representatividade e o “protagonismo de negritude” em todos os ambientes, inclusive escolares e acadêmicos. Ela contou que, convidada a fazer a abertura de um evento de professores, ouviu como sugestão que se caracterizasse de “Nega Maluca”.

– Hoje, assumo outro protagonismo de negritude. Há o reconhecimento de diferenças, mas não há representatividade de fato nas escolas, universidades... A criança chega à escola e nos murais só tem aquele desenho de personagens branquinhos de cabelo amarelo ou castanho. A escola tem que ter a diversidade.

Foto de Lucas Simões

A empresária e historiadora Jaciana Melquiades, militante do movimento negro, criou em 2013 o projeto Era Uma Vez o Mundo, com o objetivo de desenvolver brinquedos representativos para crianças. Ela contou que seu filho de 5 anos, Matias, faz com que ela reflita sobre o seu próprio comportamento no cotidiano:

– Na minha formação não tive nenhuma disciplina que tratasse de questões raciais. Só comecei a tratar quando tive uma motivação pessoal, que foi o meu filho. Percebi que os únicos exemplos de sucesso que conheci na minha infância eram de pessoas que tinham um horizonte de expectativa muito limitado. O que o negro pode ser na sociedade? Que caminhos a gente pode trilhar? Agora, sou uma mulher negra empresária, viajo o Brasil falando da minha experiência, penso no melhor jeito de ver o mundo e de como essas discussões podem ganhar repercussão.

Foto de Lucas Simões

Leia também: A realidade de jovens negros no ensino superior brasileiro

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