Integração de pastorais e movimentos sociais, caminho para reduzir a violência contra negros
22/06/2017 12:59
Fernanda Teixeira

Para o padre Clóvis Cabral e o estudante Ronilso Pacheco, reunidos em debate na PUC-Rio, aproximação de comunidades pobres e abordagem em sermões ajudam a dirimir vilipêndos concentrados na população negra.

O Atlas da Violência, recém-divulgado pelo Ipea (Instituo de Pesquisa Econômica Aplicada), constata que de 100 vítimas de homicídios no Brasil, 71 são negras. Dar conforto, ouvir e conhecer as histórias de vida por meio da fé são algumas das contribuições da religião para reduzir a violência concentrada nesta parcela da população. Assim lembraram, em encontro na PUC-Rio, o padre Clóvis Cabral, S.J., co-fundador do Movimento Negro Unificado em Salvador e integrante da Pastoral Afro-Brasileira da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e o estudante de Teologia Ronilso Pacheco, membro do Coletivo Nuvem Negra, do Viva Rio e da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS). Para os especialistas, resultados efetivos dependem, por exemplo, da aproximação com movimentos sociais.  

Mediado pelo padre Luis Correa, S.J. e aberto com o tema musical Em Nome do Deus, de Milton Nascimento, o debate Teologia e Pastoral Negras, convergiu para a importância dessas iniciativas para dar visibilidade a problemas como violência e o encarceramento que atingem, predominantemente, a população negra e pobre no país. Os dois participantes concordaram ser "quase impossível ignorar a dimensão política da religião e da própria fé". Depois de relatarem experiências em comunidades carentes ao longo dos anos de militância no Movimento Negro, o padre Clóvis Cabral, também professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), e Ronilso Pacheco, autor do livro Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão (Novos Diálogos, 2016), destacaram a importância das pastorais negras "na vida dos oprimidos". Para eles, se aproximar das "pessoas que sofrem", conhecer as "histórias de dores e sonhos interrompidos" pode parecer pouco, revela-se fundamental para abrir-lhes novas perspectivas de vida – um "papel exclusivo da fé", oxigênio à democracia:

– A fé é um componente importantíssimo de nossa história. Não podemos negar a contribuição da Igreja no processo de reconstrução do Estado Democrático de Direito no país. Os maiores avanços que conseguimos tiveram a ajuda de gente da Igreja, como Dom Helder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns. A fé no Brasil e na América Latina não tem sido somente o ópio do povo. As comunidades religiosas mostraram que a fé tem um componente político, uma dimensão de crítica e de inserção social – observa padre Clóvis – Todas as coisas a nossa volta têm uma dimensão política, inclusive a própria fé. Aprendi que há momentos em que não dá para fazer discursos, apenas ficar próximo de quem sofre, estar junto. Isso é uma experiência que só a Igreja proporciona: estar ao lado, acompanhar, ouvir os que sofrem. Ficar junto e compartilhar estes aspectos da vida faz toda a diferença. Isso é fundamental para quem quer evangelizar.

Ronislo acrescentou:

– O papel da teologia negra na redução da violência é o de se aproximar das comunidades, fazer um trabalho de base. Precisamos discutir como tratar da violência a partir das Igrejas, como o tema da violência entra no sermão, nas pregações e nas homilias.  Não podemos ignorar esses acontecimentos, pelo contrário, temos que regatar a memória desses casos. Por exemplo, como fazer as revistas pascais dominicais que falem da violência, pois não faz sentido termos tantos jovens de uma comunidade sendo assassinados e a revista falar de outra coisa que não tem nada a ver com a realidade da comunidade. É necessário que a história de um menino ou menina que morreu por bala perdida esteja na revista e que a comunidade pense na violência pelo lugar da fé. As pessoas se apegam na fé, e este lugar é importante. Temos o privilégio de lidar com isso – ressalta o estudante e militante, bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), com pesquisa sobre teologia negra.

 

Padre Clóvis Cabral S.J., Padre Luiz Correa S.J. e Ronilso Pacheco. Foto: Matheus Aguiar

Para o jesuíta Clóvis Cabral, ligado ao movimento negro desde a juventude e há 26 anos na função de sacerdote católico, também é necessário reduzir o preconceito contra comunidades tradicionais de terreiro, que podem, segundo ele dar uma "rica contribuição". Constituem-se, na avaliação do padre, pródigos espaços de diálogo para as comunidades negras:

 

Padre Clóvis Cabral S.J., Foto: Matheus Aguiar

— Nasci em um terreiro de candomblé em Salvador. Entrei para a Companhia de Jesus em 1978 e comecei a militar no Movimento Negro. Já tive cabelos black power e rastafári, era um verdadeiro jovem africano, com mil colares. Havia sempre alguém que se incomodava, mas nunca me disseram “não vá por esse caminho” dentro da Companhia de Jesus. Acredito em uma articulação solidária e epistemológica da Igreja com as tradicionais comunidades de terreiro. A Igreja tem uma dívida imensa com essas comunidades, que já sofreram tantas violações. Temos que integrar essa multidão que há alguns anos tenta nos dizer que, sem a presença deles, não vai haver um projeto novo de país

Já Ronilso esclarece que a teologia negra não quer invalidar "a teologia existente", mas sim "falar para os negros de uma forma pela qual se reconheçam, rompendo com a epistemologia branca e europeia”. A grande dificuldade, segundo ele, é o pouco acesso à teologia negra. O desafio dos teólogos é romper este bloqueio, por meio da articulação com os movimentos sociais:

 – A articulação com os movimentos sociais é um caminho construído de forma gradual, mas extremamente necessário. Os movimentos sociais percebem, cada vez mais, que a Igreja tem um lugar importante. Estamos conseguindo, aos poucos, construir uma história junto aos movimentos sociais. Há muito preconceito, muitas restrições com o universo evangélico, mas, aos poucos, os militantes vão percebendo que nossa participação é importante. 

Ronilso Pacheco, graduando em Teologia. Foto: Matheus Aguiar

Os dois convidados ressaltaram, ainda, a importância da leitura para melhor compreender e valorizar a teologia negra. Padre Clóvis conta que dois livros “mudaram sua cabeça” e o fizeram ampliar a percepção da causa: Os Nagô e a Morte (1975), de Juana Santos, e Jesus Cristo Libertador (1972), de Leonardo Boff. Já Ronilso foi influenciado pelo escritor americano James H Cone, em especial pela obra Deus dos Oprimidos (1975). Em meio ao acirramento da segregação racial nos Estados Unidos, nos anos 1960, Cone rompe com a teologia tradicional e propõe uma percepção mais positiva, em que o povo negro se reconheça.

Pastoral Afro-Brasileira nasce em 1998 para expandir diálogo interreligioso e militância social

A Pastoral Afro-Brasileira nasce, no fim dos anos 1990, como consequência de um processo de conscientização e militância de gerações de negros no interior da Igreja. Foi oficializada pela CNBB em 1998, iniciativa do bispo Dom Gilio Felicio,  primeiro negro a chegar ao episcopado na arquidiocese de Salvador. A ideia, entretanto, remonta à década de 1970, quando a CNBB convocara um grupo de sacerdotes negros para elaborar um documento a ser apresentado na Conferência de Puebla (Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano), em 1979, no México.

Em 1981, foi criado o Grupo de União e Consciência Negra da Igreja Católica, do qual fazia parte o padre Clóvis Cabral S.J.. Tinha a missão de produzir um levantamento dos padres e religiosos negros ou mulatos e de introduzir uma discussão sistemática da área. O passo seguinte foi a Campanha da Fraternidade de 1988, com tema “a fraternidade e o negro”, alusivo ao centenário da abolição da escravatura no Brasil. 

Questões como herança escravocrata, desigualdade racial, morte de jovens negros em bairros pobres, racismo, religiões de matriz africana e intolerância religiosa têm sido discutidas pela Pastoral Afro-brasileira. Integra-se a todas as dioceses do país, por meio de grupos ligados ou não à Igreja. Com sede em Brasília, o Secretariado da Pastoral Afro-brasileira articula-se com as Regionais da CNBB. Já os evangélicos dialogam com as religiões e questões sociais de origem africana por meio de uma instituição intereclesial, a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS), criada em 2004. 

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