Bioconstrução reduz impacto ambiental na engenharia civil
28/08/2017 17:50
Dóris Duque

Professores e engenheiros defendem o uso de materiais como bambu – utilizado na cobertura do Anfiteatro Professor Junito Brandão, da PUC-Rio – além de terra, palha e até esterco, em lugar de ferro e alvenaria, como alternativa ecologica correta e socialmente inclusiva.

Estrutura de bambu do anfiteatro Prof° Junito Brandão na PUC-Rio. Foto: Juan Dias/ Acervo Bambutec
 

Durante o circuito de palestras promovidas pela Semana Integrada de Engenharia (SIEng), o engenheiro civil Bruno Liguori, fundador da Ibirá Engenharia Estrutural e Bioconstrução, apresentou diversos materiais orgânicos que podem ser utilizados na construção civil. O aço e o cimento, materiais básicos de toda construção desde que foram descobertos, acarretam um alto impacto ambiental, pois ambos envolvem mineração e emissão de CO2 em grandes quantidades, além do enorme gasto de energia e de combustível.

– Essa mentalidade leva a um déficit habitacional causado pela má distribuição de renda. Então, o uso indiscriminado desses materiais (e dessa lógica) causa impactos tanto ambientais como sociais – afirmou Liguori.

Bruno Liguori. Foto: Matheus Aguiar

Também palestraram na SIEng os professores da PUC-Rio Khosrow Ghavami, pioneiro em estudos e aplicação do bambu em construção civil no Brasil; e o professor Mário Seixas, designer na empresa especializada em bambu Bambutec, que atuou na construção da cobertura do Anfiteatro Professor Junito Brandão, da PUC-Rio, concluída em 25 dias.

O professor Ghavami apresentou resultados de seus estudos sobre a aplicabilidade do bambu, a planta de crescimento mais rápido do planeta, na construção civil. Depois de vários testes de resistência e dureza, o pesquisador chegou à conclusão de que algumas espécies do vegetal são tão resistentes quanto o aço. A vida útil das vigas de bambu é aumentada com defumações e pinturas especiais para proteger as fibras de ataques de insetos e fungos e da umidade. De origem iraniana, Ghavami ressaltou que o uso do bambu para construir não é novidade: “Culturas tradicionais já usavam há muito tempo, no mundo todo”.

Professor Mário Seixas. Foto: Dóris Duque

Seixas destacou que engenheiros, arquitetos e designers devem atentar para sua parcela de responsabilidade na geração de espaços mais inclusivos e que tenham o mínimo impacto ambiental possível:

– Os povos tradicionais já sabiam como construir poupando o ambiente e sem gerar lixo. Eles atendiam à lógica das pessoas e não a do dinheiro. Nosso excesso de racionalidade levou a uma irracionalidade na ocupação de nossos espaços.

Uma possível solução sugerida por Liguori é o retorno ao uso dos materiais disponíveis no entorno da obra e, consequentemente, uma adaptação da construção ao ambiente – como iglus e casas de pau a pique, por exemplo. Utilizando materiais de bioconstrução como terra, palha, bambu e até esterco, é possível erguer casas que, prontas, são idênticas às feitas de ferro e alvenaria.

Professor Khosrow Ghavami. Foto: Dóris Duque

Liguori frisou que a bioconstrução não deve nem pode ser utilizada em escala industrial, de modo a suprir o mercado dos materiais convencionais, justamente para evitar o impacto ambiental e também pela dificuldade de se criar uma padronização comercial desses materiais. Mas, segundo o engenheiro, o uso dessas técnicas na construção civil serve como forma de inclusão social e de independência habitacional, já que não são necessários muitos conhecimentos técnicos para realizar essas obras.

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