Genocídio Negro no Brasil
28/11/2017 10:08
Julia Carvalho

O tema, pouco debatido no Brasil, foi destaque no seminário Consciência Negra – Identidade, História e Resistência, que ocorreu na PUC-Rio

A falta de oportunidade, o desemprego, o racismo e o genocídio foram os temas debatidos na mesa Genocídio Negro no Brasil, que encerrou  o seminário Consciência Negra – Identidade, História e Resistência na quinta-feira, 23, na Universidade. O aluno do Departamento de Teologia e articulador social no Viva Rio Ronilso Pacheco foi o mediador do debate, que teve a presença do professor da PUC-SP padre Geraldo Natalino e da socióloga Raquel Barros.

Raquel abordou a falta de oportunidade e o desemprego para a população negra. Ela disse que essa afirmação é quase uma redundância, porque eles ainda ocupam os piores lugares nas categorias ocupacionais e recebem os piores salários. Segundo Raquel, justificativas como a falta de escolaridade são dadas para explicar essa disparidade, o que ela afirma ser uma forma de mascarar a dimensão do racismo. A socióloga afirmou que a desumanização dos negros, que começou no período colonial, não desapareceu da nossa sociedade. O que vem ocorrendo é a atualização dessa marca.

— A ideia de democracia racial cria uma noção de povo brasileiro que torna invisível as desigualdades constituintes desse próprio povo, que mascara o passado escravocrata e, ainda hoje, tem impacto sobre a maioria da população. Por isso, as crises econômicas são importantes, porque trazem à tona movimentos extremistas, vistos como solução para os problemas econômicos ou para a sociedade permanecer como estava. E isso vai recair sobre a população negra.

Padre Geraldo, mais conhecido como padre Gegê, falou sobre a importância em defender a voz das vítimas. Segundo ele, a maior violência é não poder falar sobre o racismo, ou qualquer outra forma de violência, que é considerado um tabu na sociedade. Padre Gegê afirma que o Brasil é cínico ao negar o passado escravista e violento. Da mesma forma, ele afirmou que a Igreja Católica só vai conseguir assumir a causa dos negros após fazer uma análise sobre o passado de exploração. Ele acredita que a criação de uma teologia negra só será possível se começar do Valongo, porque, como ele explica, foi de lá que chegou a cultura Africana no país.

– O Valongo, que foi soterrado para se tornar o cais da Imperatriz, é a evidencia material mais importante do tráfico de escravizados para as Américas. Papa Francisco diz que se o homem perde a capacidade de chorar, ele não é mais humano, e esse é o grande perigo, perdemos a capacidade de sentir. O Valongo tem todo o pensar Afrobrasileiro. A história do Valongo fala e diz quem somos. Na minha compreensão, tem que ser uma teologia que comece com o Valongo, que foi encontrado por acaso, escondido pelo sistema colonial escravista. O Valongo é a denúncia do que a humanidade é capaz de fazer contra o negro. Quando pudermos assumir o Valongo, começar a falar e a pensar a partir dele, que o Brasil poderá trilhar um novo caminho.  Agora, enquanto o Brasil quiser soterrar o Valongo, será sempre uma terra ambígua, porque ama e mata ao mesmo tempo e isso adoece não só a negros, mas a todos.

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