A realidade de Gramacho seis anos depois
25/05/2018 13:12
Eduardo Diniz

Moradores de Jardim Gramacho enfrentam dificuldades e abandono do poder público após encerramento de atividades

A realidade de Jardim Gramacho, o maior lixão da América Latina Foto: Wikipedia-Commons

O maior lixão da América Latina, que ocupa uma área de 1,3 milhão de metros quadrados à beira da Baía de Guanabara, famoso cartão postal do Rio de Janeiro, foi desativado em junho de 2012 com a promessa de que o sub-bairro seria revitalizado. Seis anos depois, porém, os moradores relatam que a realidade não foi como a prometida. O local servia como fonte de renda para mais de 1.600 catadores e, mesmo após o fechamento, continua recebendo resíduos de forma ilegal. Para debater sobre esses temas, o Departamento de Ciências Sociais organizou na quinta-feira, 24, um seminário com representantes locais e com a Defensoria Pública de Duque de Caxias no Auditório Padre José de Anchieta.

O presidente da Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (ACAMJG), Tião Santos, destacou que a região nunca recebeu investimentos do governo e que foi ainda mais esquecida após o fechamento do lixão. As famílias que moram lá, segundo ele, perderam a principal fonte de renda e, agora, muitas delas não têm de onde tirar o salário mensal. Santos pontuou ainda que a miséria no sub-bairro está pior do que quando Gramacho recebia lixo, pois agora os moradores não têm onde trabalhar.

— Minha mãe criou os oito filhos em Gramacho. Ela não escolheu ser catadora porque queria salvar o planeta, mas porque era o único lugar em que ela conseguia trabalhar. O governo fechou o lixão e falou que nós precisávamos ter uma melhor qualidade de vida, mas não inseriu a gente no mercado de trabalho. É muito fácil falar isso, parece um discurso bonito, mas ninguém oferece uma alternativa para a gente.

O presidente da Associação de Catadores de Gramacho, Tião Santos Foto: Gabriela Azevedo

Ao lado de porcos, urubus, ratos e lixo tóxico, os catadores enfrentam também a falta de direitos que deveriam ser garantidos pelo Estado. A defensora pública Alessandra Bentes, do Núcleo Civil de Duque de Caxias, relembrou que os moradores são esquecidos pela prefeitura e não têm unidade de saúde no local. Documentos essenciais, como certidão de nascimento e identidade, também não estão ao acesso dessas pessoas, o que dificulta na hora de atendimentos médicos e também prejudicou muitos moradores a receberem a indenização paga pelo governo do Rio quando o lixão foi fechado, em 2012.

— Gramacho fica a 13 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, uma das mais importantes do mundo. A sociedade não se sente parte desse processo que produz tanto lixo e não enxerga os catadores. Os moradores enfrentem, quase todos, diversos problemas de pele e, muitas vezes, contraem até doenças sérias por andarem em cima de seringas usadas e lixo hospitalar. O governo indenizou as famílias em R$ 14 mil na época do encerramento das atividades do lixão, depois de muita luta dos catadores, e não fez mais nada.

Para contornar essa situação de abandono, a Defensoria Pública de Duque de Caxias criou diversas ações sociais na comunidade. Alessandra relatou que foi levado educação aos jovens, atendimento de saúde e até opções de planejamento familiar. A defensora relembrou também que essa situação que Gramacho vive é resultado de uma prática que visa apenas o dinheiro. Ainda segundo ela, tratar o lixo, os gases que ele produz e o chorume é muito mais caro do que só depositá-lo em um lugar sem estruturas.

A presidente do Fórum Comunitário de Jardim Gramacho, Rosinete dos Santos Foto: Gabriela Azevedo 

Apesar dos problemas que Gramacho enfrenta diariamente, os moradores procuram alternativas para desenvolver a região e oferecer novos caminhos para os jovens. A presidente do Fórum Comunitário de Jardim Gramacho e presidente da Cooperjardim, Maria Rosinete dos Santos, destacou que, se a própria comunidade não se organizar e oferecer cursos para os moradores, nada será feito. Por isso, o Fórum Comunitário criou projetos sociais para esses jovens, que variam de roda de capoeira a oficinas de artesanato.

— O primeiro projeto foi a oficina de artesanatos para mulheres de Gramacho. Começamos com exposições a cada 15 dias em uma feira em Duque de Caxias, e agora já participamos semanalmente dela. Estamos também capacitando nossas artesãs para participarem, em breve, de feiras por toda a cidade. Tenho muito orgulho de ser presidente do Fórum Comunitário e ver de perto esses jovens se desenvolverem.

Jardim Gramacho existe há 35 anos em Duque de Caxias e vive uma realidade de pobreza extrema. Segundo pesquisa da ONG TETO, a renda média per capita dos moradores de Jardim Gramacho é de R$ 331,96, cerca de R$ 11 por dia. Não há energia elétrica, saneamento básico nem agua encanada. O lixão ganhou destaque após o documentário Lixo Extraordinário, do artista plástico Vik Muniz, que mostrou a realidade dos catadores de lixo da região. O filme ganhou diversos prêmios pelo mundo e foi indicado a categoria de Melhor Documentário do Oscar de 2011.

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