A participação das mulheres no cinema brasileiro
29/05/2018 11:11
Paula Ferro

Pesquisadora remonta o crescimento da atuação das mulheres desde o século XX

Professora discute papel da mulher no Cinema

Em 2016, 20% dos longas-metragens lançados comercialmente no Brasil tinham uma mulher no posto de diretora, e todas eram brancas. Os dados revelados em pesquisa divulgada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), em janeiro deste ano, retratam a minoria feminina, uma realidade que data do século passado. A palestra Mulheres no Cinema Brasileiro, realizada no dia 22 de maio, recebeu a diretora e professora Karla Holanda, da Universidade Federal Fluminense (UFF), para discutir a presença feminina nas produções nacionais entre as décadas de 1960 e 1970.

Pesquisadora do protagonismo feminino no cinema e autora do livro Feminino e plural: Mulheres no cinema brasileiro (Editora Papirus, 2017), Karla montou com os alunos o site documentariobrasileiro.org, um catálogo de todos os documentários brasileiros. Ao reunir a base de dados, a pesquisadora descobriu que, na década de 60, apenas 11 filmes tiveram uma mulher na direção. Antes disso, em 1930, Cléo de Verberena foi registrada como a primeira a dirigir um filme no Brasil, o longa O mistério do dominó preto. Segundo Karla, a imprensa da época ressalta a presença de Cléo, também atriz, no posto da direção, mas adota uma postura diferenciada no julgamento da obra.

— Um dos trechos dos jornais diz "O leitor se submeteria à direção de uma senhora? Não abra seus olhos. Não há razão para espanto”. A grande novidade que é ter uma mulher é tida com uma humilhação, o leitor da época vai se submeter a isso? A faceta de Cléo como atriz é ressaltada, porque ela pode estar naquele lugar, é o normal, mas e como diretora? - questiona.

A cineasta, que é diretora do documentário Kátia (2012), destaca a disparada na produção cinematográfica na década de 1970, quando são lançados 183 longas com direção feminina. Desta época, a pesquisadora destaca “Os homens Que Eu Tive” (1973), dirigido por Teresa Trautman. O filme retrata um casal de vanguarda, que mantém recorrentes casos extraconjugais, e aborda temas pouco discutidos à época, como relacionamentos abertos. Segundo Karla, ainda que não tenha cena explícitas, a obra foi barrada pela censura da época e só voltou a ser exibida dez anos depois. A diretora Teresa Trautman sofreu impedimentos na hora de buscar financiamento para outros projetos.

— O que se vê na tela é quase pueril, não há nada muito explícito. O que acontece é uma censura moral. A mulher é retratada com uma liberdade que não representa um comportamento que elas devessem ter.

Mais Recentes
Trinta e dois pontos de reflexão
Padre Josafá Carlos de Siqueira S.J. lança livro sobre questões vivenciadas no ambiente universitário
Favelas do Rio em forma de conto
Autor do livro O Sol na Cabeça, Geovani Martins participa de bate-papo sobre a obra
A ginga de IZA
Ex-aluna da Universidade, cantora conversa com alunos sobre a indústria musical e representatividade