Violência em discussão na Baixada
12/06/2018 16:18
Julia Carvalho

Palestra no Polo de Caxias aborda o assunto em diferentes espaços da sociedade

O encontro teve a presença do Vice-Reitor, professor padre Álvaro Mendoça, o decano do CTCH, professor Júlio Diniz, e a coordenadora do IEAHU, professora Luisa Buarque de Holanda. Foto: Jorge Paulo

Violência e Poder: Cidadania em Risco foi o tema da palestra ministrada no sábado, 9, no Polo de Duque de Caxias da PUC-Rio. Durante o encontro, os professores Andrea Gill, do Instituto de Relações Internacionais (IRI), Rafael Soares Gonçalves, do Departamento de Serviço Social, e Solange Jobim, do Departamento de Psicologia, falaram sobre diferentes temas relacionados à violência e seus desdobramentos na sociedade. O debate faz parte de uma parceria entre o polo de Caxias e o campus Gávea, cuja ideia é aproximar os alunos do Centro de Ciências Sociais (CCS) e do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH) que, juntos, reúnem 16 cursos de graduação da PUC-Rio.

Participaram da discussão o Vice-Reitor, padre Álvaro Mendonça Pimentel S.J., os Decanos do CCS, professor Luiz Roberto da Cunha, e do CTCH, professor Júlio Diniz, e a coordenadora do Instituto de Estudos Avançados em Humanidades (IEAHu), professora Luisa Buarque de Holanda.

Após agradecer a participação do público, a professora Luisa fez questão de ressaltar que a “mãe” da ideia de organizar o encontro foi da professora Andréia Clapp, diretora do Departamento de Serviço Social. O Vice-Reitor, que está há um mês no cargo, afirmou estar muito feliz por ter a oportunidade de conhecer outras unidades da PUC e destacou a importância do tema do seminário. Para ele, discutir a violência é necessário para colocar o poder a serviço da justiça e não da discriminação, do privilégio e da exploração.

— Aquilo que todos nós sentimos e tem nos angustiado muito é a presença da violência em várias formas na nossa sociedade. A violência, que não aceitamos e rejeitamos, nos faz mal e nos adoece. Então, temos que lutar contra ela e promover o bem comum na nossa sociedade. Isso, infelizmente, não acontece nunca de cima para baixo, nós vencemos a violência da sociedade para cima.

Para o Decano do CTCH, professor Júlio Diniz, é necessário cada vez mais ter discussões como essa, porque elas são extremamente importantes para entender melhor as questões do tempo atual. Ele disse que é preciso encontrar caminhos em que seja possível integrar aqueles que estão marginalizados ou fora do próprio sistema. O Decano do CCS, professor Luiz Roberto da Cunha, acredita que a origem da violência está na desigualdade.

— A desigualdade de renda talvez seja a razão básica da violência. A violência não é do ser humano, o ser humano não é violento por natureza, ele é levado a violência por vários fatores que condicionam a atitude humana. E, sem nenhuma dúvida, a desigualdade de renda é a razão básica.

Os professores Andrea Gil, Rafael Gonçalves e Solange Jobim debateram a violência a partir de diferentes temas. Foto: Jorge Paulo

A professora Andrea Gill, do IRI, abordou sobre desigualdades, opressão e privilégio: violência em contexto. Ela questionou que violência é essa, presente na população. Segundo Andrea, a violência está em todos os lugares, e a forma como é tratada tem muito a dizer sobre o governo democrático em que o país vive. Para ela, a atual ideia de violência é abstraída como algo fora de contexto, por isso, as pessoas deixaram de nivelar os diversos tipos de violência que existem. A professora afirmou ainda que o primeiro passo para acabar com a violência é combater os privilégios e ressaltou que o problema principal não é a corrupção, e, sim, a desigualdade.

Violência Urbana no Rio pós-olímpico: da vitrine nacional à intervenção federal, foi o assunto discutido pelo professor Rafael Gonçalves logo após a exposição de Andrea Gill. Ele analisou o legado para a cidade após sediar dez eventos que foram organizados no Rio de Janeiro nos últimos anos. Ele argumentou que a cidade tem o status de grande vitrine do país, porém, para ele, o fenômeno do Rio como espetáculo gerou uma grande especulação imobiliária, o que levou a uma política de guerra nas intervenções de remoção. Gonçalves lembrou que o Rio é mais que um ponto turístico e que, para combater a violência, é necessário construir tecnologias sociais.

— É importante nós imaginarmos, também na sua especificidade, que o Rio de Janeiro já perdeu sua realeza há muito tempo. Desde o recuo da questão econômica e política, mas eu acho que isso é um aspecto importante para que entendamos o período atual da intervenção federal. O Rio de Janeiro não perdeu esse estatuto de uma certa capitalidade, talvez muito mais simbólica, mas, de alguma forma, é a grande vitrine do país, mesmo que economicamente isso já não se manifeste, a cidade absolve esse parâmetro.

A professora Solange Jobim discutiu o tema infância, violência e consumo: por uma crítica da prática da violência no âmbito da cultura do consumo. Ela mostrou o consumismo como uma forma de violência, principalmente relacionado à nova geração. Solange questionou a maneira como as pessoas permitem que o mercado dialogue mais com as crianças que as escolas, porque isso leva, de forma indireta, ao trabalho infantil em que a criança sustenta o sistema. Segundo a professora, essa relação coloca a cidadania em risco, e a única forma de solução é a escuta e o diálogo verdadeiro.

— De que maneira nós estamos permitindo que esse mercado ocupe um lugar de diálogo com essa criança muito maior do que a escola? Se a gente for pensar o quanto se investe hoje em publicidade é infinitamente maior, no mundo inteiro, do que se investe em educação. Ao discutir essas questões, começamos a perceber que existe uma forma de trabalho infantil, no sentido que não é remunerado, mas é um trabalho infantil porque sustenta e faz com que o sistema se reproduza.

O seminário ocorreu no polo de Caxias da Universidade. Foto: Jorge Paulo

Polo de Caxias

Com 13 anos de existência, a Unidade de Duque de Caxias da PUC-Rio oferece cursos de extensão e de especialização voltados para projetos sociais da Baixada Fluminense e atende pessoas de diversas áreas profissionais e de várias regiões do estado. Uma das coordenadoras do polo, a professora Luciene Medeiros, do Departamento de Serviço Social, afirma que já foram formadas mais de mil pessoas, em cursos regulares.

Segundo Luciene, quando ainda funcionava no bairro São Bento, o Polo registrou, em um semestre, mais de 300 alunos. Hoje, a unidade está no bairro Vila Meriti, no centro de Caxias, e há uma baixa evasão dos alunos. Ela afirma que a maioria dos estudantes se inscreve em mais de um curso. Luciene acredita, no entanto, que ainda falta consolidar a marca em Caxias, porque muitas pessoas não acreditam que ter uma unidade da Universidade no bairro é de fato real.

— Esse Polo não é só da Baixada Fluminense, ele está na Baixada Fluminense, mas pega esse segmento social de trabalhadores que estão no mercado de trabalho tentando se inserir e que estão por todo o estado. Eu gosto muito de uma frase do padre Francisco Ivern, S.J. que está no primeiro folder que fizemos, que diz que esse Polo ultrapassa a fronteira do espaço geográfico desse prédio.

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