Quase metade das profissões será afetada pela automação
06/03/2017 18:55
Mariana Salles

Previsão é de estudo de Oxford sobre avanço da inteligência artificial no mercado. Economista Graciela Chichilnisky, Nobel da Paz em 2007, sugere ajustes

Automação e desemprego. Montagem: Luis Colas e Mariana Salles

Imerso há dois anos numa crise política e econômica, o Brasil soma mais de 20 milhões sem trabalho formal e informal. O desemprego só deve retroceder em setembro do próximo ano, estima levantamento do Ministério da Fazenda, revelado pelo jornalista Lauro Jardim, do Globo. Aos prognósticos desanimadores, soma-se a previsão de ameaças derivadas do desenvolvimento da inteligência artificial. A tecnologia deixa o imaginário da ficção científica para virar um vetor de mudanças nos mercados brasileiro e mundial: quase a metade das profissões será afetada, num “futuro próximo”, pela automação crescente na indústria e no setor de serviços, alerta estudo da universidade americana de Oxford. A projeção já se materializa em casos como a extinção, anunciada mês passado, de 781 das 5.430 agências do Banco do Brasil – 379 delas se tornarão postos de atendimento “de acordo com as inovações digitais”, justifica a empresa. O Itaú já havia comunicado passo semelhante: pretende reduzir à metade o número de agências físicas nos próximos dez anos.

Para o economista Mark Witte, da universidade Northwestern, nos Estados Unidos, o ingresso da inteligência artificial na indústria, nas rotinas profissionais e no consumo tende a polarizar os empregos. Baseado em pesquisas como O crescimento da polarização do trabalho no Reino Unido (Maarten Goos e Alan Manning, MIT Press Journals/2007), o especialista prevê, nos próximos anos, uma pulverização dos empregos de nível médio:

– Com a automação consolidada, os empregos de nível médio deixarão de existir. O mercado tenderá a se polarizar, com empregos de alta qualificação, como os associados aos próprios desenvolvedores dessas máquinas e tecnologias, e de baixa qualificação ainda insubstituíveis por robôs, como garçons e faxineiros ­– exemplifica Witte, em entrevista, por Skype, ao Jornal da PUC.

A também economista Graciela Chichilnisky, prêmio Nobel da Paz em 2007, não acredita numa crise no mercado de trabalho. Desde que sejam feitos ajustes ao cenário emergente, ressalva a professora da Universidade de Columbia, em Nova York:

– Os empregos se transformarão, assim como cavalos foram substituídos por carros – compara – O que não podemos é continuar a construir estábulos e não adaptar a nossa estrutura econômica à nova realidade – ressalva. (Leia no fim do texto a entrevista completa.)

Por muito tempo, ter o emprego ameaçada ou mesmo ocupado por uma máquina era exclusividade das indústrias, como satirizou Charles Chaplin em Tempos Modernos (EUA, 1936). Hoje o critério para uma profissão ou função ganhar a mira da automação passa pelo grau de repetição. Funções baseadas na reprodução contínua provavelmente serão exercidas por robôs. O alarme foi deflagrado, há cerca de três anos, pelos pesquisadores americanos Carl Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford. Eles analisaram a vulnerabiliadde de 702 ocupações à troca por um robô. Distribuído em três eixos (necessidade de inteligência social, criatividade e percepção e manipulação), o estudo constatou que as áreas mais afetadas tendem a ser as administrativas, de transporte, vendas e serviço.

De acordo com a pesquisa, o telemarketing é o posto de trabalho com a mais chance de automação, enquanto setores ligados à capacidade de diagnóstico avançada e à criatividade, como advocacia, engenharia, educação, artes, tendem a seguir nas mãos humanas. Sócia-diretora da Consulting CG, a professora de Administração da FGV Cristina Goldschmidt pondera que os efeitos da automação acelerada sobre os empregos dependem também do contexto socioeconômico da cada país. Ela prevê também impactos positivos: 

– Uma avaliação das consequências e probabilidades do avanço da tecnologia sobre determinadas atividades depende da realidade social e econômica de cada país. Um impacto positivo da automação na indústria, por exemplo, é a redução de falhas, porque robôs não erram. Mas, se levarmos em conta que no Brasil a indústria em 2012 empregava, segundo do IBGE, 8,78 milhões, e que, em termos de capacitação, temos questões ainda estruturais por resolver, a perda dessas oportunidades de emprego para robôs teria sérias implicações negativas.

 

Probabilidade de automação em diferentes ocupações (1=100%). Arte: Mariana Salles

Recolocação no mercado depende de qualificação tecnológica

O avanço da automação traz, na esteira da ameaça a empregos, uma preocupação adjacente: a recolocação no mercado dos profissionais substituídos por máquinas. Para o professor de economia da PUC-Rio José Márcio Camargo, a tarefa não é nada fácil, porque eles "estão formados na tecnologia antiga". 

Analistas divergem sobre as saídas para um desemprego tecnológico. Para alguns, o governo deve adotar políticas alinhadas às novas formas de produção. “O maior desafio é gerar políticas de emprego e renda para uma população com baixo índice de escolaridade e, consequentemente, com péssima qualificação profissional”, argumenta a especialista em Recursos Humanos Julia Fernandes, formada pela Universidade Gama Filho.

Apesar de grande parte dos especialistas desenganar iniciativas assistencialistas para prevenir ou dirimir demissões associadas à crescente automação, uma das soluções em debate remete à renda básica (basic income, em inglês). A controversa proposta de garantir uma renda mínima por mês, independentemente de se estar empregado, precisa ser amadurecida e adaptada às condições socieconômicas de cada país. José Camargo e Graciela Chichilnisky concordam que este tipo de iniciativa, embora possa resolver parte do problema, tende a ser extremamente prejudicial se mal projetada:

– A ideia de uma renda básica soluciona um dos maiores problemas atuais, a pobreza, mas causa um outro problema, o de incentivo. Quanto menos incentivo, menos produtividade, menos crescimento e menos riqueza. É uma questão de desenho, de saber como criar uma rede de proteção social que gere produtividade – pondera Camargo.

O Bolsa Família, por exemplo, é qualificada de incentivo, pois está condicionada à matrícula do(s) filho(s) na escola, o que garantiria produtividade no futuro e compensaria, de certa forma, acomodação do pai, explica o professor. Para o economista Mark Witte, o assistencialismo ainda é uma solução válida para estimular a educação, mas ressalva:

– Nossas experiências passadas com o Estado tentando prover a educação não foram boas. 

O principal esforço para se manter no mercado, porém, deve vir do próprio trabalhador e da iniciativa privada, recomendam especialistas em economia e RH. É preciso investir na própria qualificação e, se for o caso, na dos empregados, além de empreender ajustes a novas condições de mercado, ressalta o consultor de carreiras (coach) Alexandre Prado:

– A saída é se adaptar. Há atividades que serão pouco afetadas (pela automação): aquelas que exigem empatia, senso de moral e outras características inerentes aos seres humanos. Portanto, uma das soluções é desenvolver essas competências típicas ao homem.

Também nesta perspectiva, Cristina sugere a capacitação para funções analíticas, relacionais e de inovação. Para a professora, tais competências também serão trunfos competitivos num mercado cada vez mais aberto à inteligência artificial. 

 

Robô projetado por ex-aluno de Engenharia da PUC substitui o homem em desastres e incêndios. Foto: MIT Biomimetic Robotics Lab 

 Graciela: "Precisamos investir no acesso ao conhecimento e à produtividade na nova economia"

“Não existe outra forma de aumentar a riqueza no mundo finito senão pelo aumento de produtividade, que só virá por meio do progresso tecnológico”, afirma Camargo. Apesar de prognósticos preocupantes em relação ao empregos no médio prazo, especialistas acreditam que os avanços em torno da inteligência artificial serão proveitosos no longo prazo. Camargo pondera, por outro lado, que é difícil de prever um saldo tecnológico positivo, porque o processo em curso revela-se diferente dos congêneres anteriores, como na Revoluções Industriais. Se aqueles eram puramente técnicos, agora o salto tectológico é "uma questão de informação e conhecimento".

Graciela até cunhou, há 15 anos, o termo Revolução do Conhecimento (Knowledge Revolution, em inglês). A principal diferença entre esta revolução e as industriais estaria na centralidade que o conhecimento assume para a produção:

– O conhecimento é diferente, porque pode ser compartilhado sem ser perdido. Pode até ser chamado de “bem público”. Isso é ótimo. Mas economias retrógradas tendem a não saber lidar bem com bens públicos, que podem ser fontes de progresso e liberdade, se forem administradas da forma correta. Precisamos investir massivamente para o acesso ao conhecimento e à produtividade na nova economia.

Mark Witte descarta previsões pessimistas, ao enxergar um equilíbrio: a tecnologia reduz os empregos e a educação cria novos. Mudanças no mercado de trabalho decorrentes de novas tecnologias fecundam demandas novas e necessidades diferentes. A questão central, para Cristina Goldschmidt, é a incerteza sobre as profisssões e funções emergentes, o que alimenta um déficit de qualificação:

– Não se sabe ao certo quais serão as profissões do futuro, e há um descompasso entre o surgimento de novas tecnologias e a capacidade de qualificação de uma grande massa para o uso destas tecnologias.

Historicamente, lembram analistas, a tecnologia tende a gerar mais empregos do que destruir. Mas trabalhadores e empresas precisam invistam imediatamente em ajustes de qualificação para que não sejam atropelados pela arracanda da automação; e para que possam aproveitar as oportunidades decorrentes desta guinada da inteligência articial tanto na indústria quanto no setor de serviços.  

Como manter o seu emprego. Arte: Mariana Salles

Leia abaixo a entrevista da economista Graciela Chichilnisky, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2007, ao Jornal da PUC:

Jornal da PUC: Um estudo de Oxford mostra que quase metade dos postos de trabalho nos Estados Unidos provavelmente serão automatizados. Significa que milhares perderão os empregos?

Graciela Chichilnisky: Aproximadamente 50% dos empregos vão desaparecer ou se transformar, assim como ocorreu com os empregos em estábulos, que deixaram de existir quando cavalos foram substituídos por carros.

Jornal da PUC: Vem por aí, então, uma crise no mercado de trabalho? Como precavê-la ou superá-la?

Graciela: Ou nós adaptamos a nossa estrutura econômica à nova realidade ou entramos em uma crise. Não há controvérsia nisso. Insistir na construção de mais estábulos, como o presidente eleito (dos Estados Unidos), Donald Trump, está tentando fazer, não vai mudar a realidade econômica. No melhor cenário, vai só mascará-la por alguns anos.

Graciela Chichilnisky. Foto: Divulgação

Jornal da PUC: Parte dos analistas de economia e RH acredita que, com o avanço da automação, empregos não vão propriamente desaparecer, e sim mudar de perfil, o que implicaria trabalhadores mais especializados...

Graciela: Sim, como já aconteceu antes. É natural. O que não é natural é esperar que não haja nenhuma mudança em meio às muitas alterações tecnológicas e sociais que estão varrendo a sociedade.

Jornal da PUC: Para que os trabalhadores se especializem, precisam estudar mais e aprender mais sobre as novas tecnologias. O governo terá que empreender políticas para propiciar a essas pessoas uma qualificação que as ajude a manterem-se empregadas?

Graciela: A educação vai se adaptar sozinha, porém mais lentamente. Uma ajuda para acelerar esse processo é bem-vinda, mas não é muito fácil de ser realizada. Prover educação para adaptar a população a uma nova economia não é algo que os governos fazem bem. Inovação é uma atividade da iniciativa privada.

Jornal da PUC: Já passamos por processos semelhantes nas revoluções industriais, que também produziram desemprego, mas posteriormente à criação de mais empregos e a um salto de produtividade. Passamos agora por outra revolução? O que a difere das anteriores?

Graciela: Criei o termo “revolução do conhecimento” há 15 anos para descrever esse fenômeno. Existem muitas diferenças entre essa revolução e as industriais e agriculturais, assim como existem similaridades. A mais importante diferença, creio eu, é o protagonismo do conhecimento como fator de produção, mais do que o capital ou a terra, como era antes. O conhecimento pode ser compartilhado sem ser perdido, pode até ser chamado de “bem público”. Isso é ótimo. Mas economias retrógradas tendem a não saber lidar bem com bens públicos, que podem ser fontes de progresso e liberdade, se forem administradas da forma correta.

Jornal da PUC: Como assim?

Graciela: Pecisamos investir massivamente em prover o acesso ao conhecimento e à produtividade na nova economia. Em vez de construir mais estábulos como Trump está  tentando fazer, em um chute de nostalgia e talvez de ignorância, precisamos investir no acesso ao conhecimento e à produtividade. No fim (deste processo), as nações bem-sucedidas serão as que fizerem este dever de casa primeiro e melhor.

Jornal da PUC: A renda básica, que garante uma renda mínima aos que estão sem emprego, seria uma solução para o chamado desemprego tecnológico?

Graciela: Sim, mas deve ser feita em conjunto ao incentivo à produtividade e ao rápido acesso à novas oportunidades e instituições. Deve-se oferecer uma nova infraestrutura ao redor dessa renda básica, caso contrário ela pode ser destrutiva.

Leia mais: Ex-aluno de Engenharia cria robô que substitui o homem em desastres e incêndios

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