Analistas dimensionam efeitos do bombardeio americano à Síria
10/04/2017 15:52
Fernanda Teixeira

Primeira intervenção direta de Washington na Guerra da Síria indica uma mudança de estratégia na política externa adotada pela Casa Branca de Donald Trump.

Um ataque com armas químicas contra regiões controladas por rebeldes na Síria, atribuído ao governo Bashar al-Assad, deixou 86 mortos, entre eles 30 crianças, no último dia 4 de abril. Em represália, o presidente norte-americano Donald Trump autorizou, na noite do dia 6, um bombardeio à base militar síria de al-Shayrate. Para especialistas, a primeira intervenção direta de Washington na Guerra da Síria, que completou seis anos, indica uma mudança de estratégia na política externa adotada pela Casa Branca. A postura norte-americana no episódio também deixa no ar a possibilidade de conflito com a Rússia, principal aliada do regime sírio, e serve de advertência para os demais países que dispõem de arsenais de armas químicas ou nucleares. 

A decisão de abrir fogo e intervir diretamente no conflito Sírio representa uma guinada na política externa norte-americana. Diferentemente do antecessor, Barack Obama, que evitou qualquer choque com o regime de Assad – estratégia vista como diplomática mas também como omissão –, Trump comandou o lançamento de 59 mísseis Tomahawk, desde dois destróieres da Marinha norte-americana baseados no Mar Mediterrâneo. E acusou o regime sírio pelo ataque químico à cidade de Khan Sheikhun.

Apesar de considerarem prematuras quaisquer análises mais aprofundadas, especialistas concordam que a imprevisível e pronta resposta de Donald Trump à Síria indica uma mudança de estratégia na política externa adotada pela Casa Branca na região e na própria postura do republicano, que busca recuperar seu prestígio no âmbito interno e reafirmar sua liderança internacional.

Ex-cônsul-geral do Brasil em Paris e ex-Embaixadora do Brasil junto à União Europeia, a diplomata aposentada Maria Celina Azevedo Rodrigues acredita que a decisão de Trump de abrir fogo sobre a Síria reafirma o seu discurso de campanha, em que se projetou como um defensor dos valores “puros” norte-americanos e as promessas de retomar o protagonismo de seu país no cenário internacional. Celina também ressalta a intenção do republicano de recuperar sua credibilidade, após ter ficado desprestigiado internamente: 

– Donald Trump se projetou como defensor de certos valores norte-americanos puros, seus discursos têm sempre o mote da segurança americana, e a todo momento se mostrou disposto a retomar a posição de vanguardismo dos Estados Unidos no mundo. O bombardeio à Síria indica que ele não irá tolerar o uso de armas químicas, que colocam em risco a segurança dos Estados Unidos. Esse ato acontece após Trump ter ficado extremamente desprestigiado internamente em relação a temas como imigração e saúde, quando teve contestada sua capacidade de comandar o país. Com esse ato, ele busca recuperar sua credibilidade.

A ofensiva americana à base de al-Shayrate pode afetar, ainda mais, as já complexas relações entre  Estados Unidos e Rússia, sobre a guerra civil na Síria e outros temas. Nos dias que sucederam ao bombardeio, a tensão entre Washington e Moscou se elevou – o que remeteu o mundo aos tempos da Guerra Fria. 

O Kremlin classificou a ação americana de “agressão” e “violação da lei internacional”. Os americanos, entretanto, receberam apoio de nações europeias como Alemanha, Reino Unido e França. Preliminarmente, analistas internacionais apontaram o lançamento dos mísseis Tomahawk como um possível ato pontual por parte dos EUA, que serviu de advertência à Síria e aos demais países que dispõem de armas químicas e nucleares, principalmente a Coreia do Norte.

Para o professor Paulo Wrobel, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio (IRI), a reação negativa da Rússia era previsível, em razão do Princípio da Não-Intervenção (que impede a intervenção de um país em questões internas de outro), e realmente dificulta as relações entre EUA e Rússia, mas não de forma incontornável. Mas destaca que este não é o aspecto mais importante a ser considerado neste caso, mas sim o simbolismo do ato praticado pelos americanos, que serve como um recado às demais nações que tenham intenções de fazer uso do gás sarín ou armas semelhantes. 

– O aspecto mais importante é que Donald Trump reagiu, em nome do Direito Internacional, a um ataque com armas químicas realizado pelo governo sírio. Síria, Rússia e Coreia do Norte puderam ver que a reação do presidente norte-americano foi de não passividade. O que os EUA fizeram quinta-feira à noite foi um ataque aéreo cirúrgico a uma base militar, de onde, comprovadamente, ao contrário do que alega a Síria, partiu um ataque químico realizado pela Força Aérea síria. O bombardeio sinaliza, certamente, uma mudança na postura americana, não apenas em relação à Síria e à Rússia, mas também em relação a Coreia do Norte, Irã, Turquia, Arábia Saudita e a todos os envolvidos diretamente no conflito na Síria, além da China, cujo presidente assistiu a tudo isso “de camarote”, enquanto participava de um importante encontro bilateral na Flórida. A bandeira do ex-presidente Obama era a de não se envolver militarmente, de maneira direta. Foi a primeira vez que os Estados Unidos se envolveram diretamente com uso da força militar em seis anos de guerra na Síria. Se isso significa o início de uma intervenção, vai depender da reação da Síria – afirma.

A professora de Relações Internacionais da UFRJ Fernanda Barros dos Santos avalia que a reação norte-americana na Síria vai além do conflito interno e envolve temas como o controle do Mar Mediterrâneo, a hegemonia no Conselho de Segurança da ONU e as disputas entre as grandes potências mundiais:

 – Para entendermos o que tem se dado na Síria, é necessário perceber a importância geopolítica e geoestratégica da área no Oriente Médio. Ou seja, para além e acima do conflito interno entre o Estado Islâmico, mercenários em Aleppo e o Governo de Bashar al-Assad, as potências ocidentais (Estados Unidos, França e Inglaterra) almejam o controle do Mar Mediterrâneo, bem como o isolamento do Irã e a hegemonia no Conselho de Segurança da ONU.

Para a professora Fernanda, o acontecimento de 6 de abril indica que o governo de Donald Trump põe em prática o hard power (poder duro ou poder coercitivo) – conceito cunhado pelo cientista político americano Joseph Nye nos anos 1980 – com o uso da força militar por intermédio dos bombardeios dos mísseis Tomahawk, com vistas a reafirmar sua hegemonia mundial e conter o uso de armas químicas de destruição em massa.

– Ademais, conflui para a possibilidade de um campo hostil, ou mesmo o início de uma possível Guerra Fria entre as potências mundiais. Doutro modo, o conflito traz à tona a competição entre Estados Unidos, França e Inglaterra contra a Rússia, China e Irã pelo domínio de regiões fundamentais para o poderio político, militar e econômico do Ocidente. Em última análise, a ofensiva dos Estados Unidos assinala o cessar do diálogo diplomático mediado pelo Conselho de Segurança da ONU e instaura a competição bélica – completa.

 

Damasco, Síria. Foto: Omar Balaa

Relembrando o conflito na Síria

A guerra civil na Síria teve início em 2011, no contexto da Primavera Árabe, nome dado a uma série de protestos que eclodiram naquele ano contra governos ditatoriais árabes no Oriente Médio e no Norte da África (em alusão à Primavera dos Povos, onda de revoluções liberais na Europa, no ano de 1848), e tinham como raiz a crise econômica e a falta de democracia nestas nações. 

Ao contrário do que aconteceu em países como Tunísia, Líbia e Egito, na Síria o ditador Bashar al-Assad não caiu, e reagiu de forma imediata e violenta aos protestos. Daí nasceu o embate entre as forças leais ao presidente e os rebeldes que eram contra a permanência dele no poder.

Grupos anti-Assad se reuniram para combater as forças oficiais e retomar o controle das cidades e vilarejos. Os conflitos chegaram até Damasco e Aleppo, capital e segunda maior cidade do país, em 2012.

Com o país em guerra interna, o grupo terrorista Estado Islâmico, nascido no vizinho Iraque, aproveitou para ocupar territórios sírios.

Potências regionais e internacionais passaram a intervir no conflito, tanto a favor de Bashar al-Assad (Rússia, Irã e China), como contra o estadista (Estados Unidos, França Reino Unido, Turquia e Arábia Saudita). As interferências externas têm contribuído para a longa duração dos enfrentamentos, e transformado a Síria em um campo de guerra. O saldo dos seis anos de conflito são mais de 400 mil mortos e feridos, além de uma grave crise humanitária, com cerca de 6 milhões de deslocados e refugiados por todo o globo.

– Em termos de direitos humanos, a vulnerabilidade de civis em meio à guerra tem apresentado o fracasso do Conselho de Segurança da ONU em sanar o conflito a partir de um cessar-fogo. O conflito também ressaltou a obsolescência dos protocolos, tratados e convenções humanitárias, bem como pôs em xeque a soberania dos povos na contemporaneidade – avalia a professora Fernanda de Barros Santos.

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