Acordo de Paris: fracasso seria trágico
08/06/2017 14:29
Ana Clara Silva

Coordenadora da Urban Climate Change Research Network, Martha Barata ressalta consequências especialmente para os mais pobres.

Promessa de campanha do presidente Donald Trump, o desembarque americano do histórico Acordo de Paris, firmado em 2015 pelos principais líderes globais, deixou o mundo em alerta na semana passada. Assinado por 195 países, representa um pacto em torno do teto de 2°C para o aumento de temperatura no século. Caso o rompimento dos Estados Unidos, segundo maior emissor de gás carbônico do planeta, se confirme – saída permitida só em 2019 –, a meta se tornaria inviável, com consequências socioeconômicas trágicas, especialmente nos países pobres. O prognóstico tende a intensificar a pressão não só de ambientalistas, mas da comunidade internacional e de boa parte do meio empresarial, inclusive nos EUA, para Trump rever a decisão. Assim acreditam, e esperam, especialistas como a coordenadora da Urban Climate Change Research Network, da Universidade de Columbia (EUA), Martha Barata. Na PUC-Rio para participar do debate Mudança climática e a cidade do Rio de Janeiro, na XXIII Semana do Meio Ambiente, ela alerta: se a meta acordada não se concretizar, os efeitos "serão graves em todos os setores e para todos os países", desde perdas drásticas no setor agrícola e na distribuição de água até queda expressiva no nível de saúde mundial. Em entrevista, por telefone, ao Jornal da PUC, Martha, também integrante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente da Escola Nacional de Saúde Publica/Fiocruz, reforça o coro de analistas mundo afora: "Trump está na contramão da História", até por se apegar, segundo ela, a informações contrárias às evidências de que o acordo mostra-se vital também para proteger o ambiente econômico. "Por isso acredito que a saída dos Estados Unidos não vai se efetivar. Como o aumento da temperatura afeta todos, os outros países têm de reagir, pressionar os americanos".

Martha Barata

Jornal da PUC: O Acordo de Paris voltou às manchetes na semana passada, com a saída dos Estados Unidos. Qual a importância deste pacto ambiental?

Martha Barata: O acordo visa manter um teto do aumento de temperatura: máximo de 2°C ao longo do século. Busca uma resposta global às ameaças das mudanças do clima, ou seja, aumentar a capacidade de os países lidarem com essas mudanças. Se ele não se concretizar, as consequências serão graves em todos os setores e para todos os países, apesar de os em desenvolvimento sofrerem mais.

Jornal da PUC: O pacto resistirá à saída americana? Quais os danos caso este rompimento se confirme?

Martha Barata: Os Estados Unidos são um dos maiores emissores de gases do efeito estufa. Se deixar de cumprir o o combinado, torna-se praticamente impossível atingir as metas do acordo. Mas acredito que a saída dos Estados Unidos não vai se efetivar, porque o aumento da temperatura afeta todos, e os outros países têm de reagir. Tendem a pressionar os americanos para que isso não aconteça. Já há muita tecnologia para a redução das emissões dos poluentes. Acho que conseguiremos manter a temperatura controlada.

Jornal da PUC: Caso o pior cenário se desenhe, com a saída efetiva dos Estadios Unidos e um aumento da temperatura acima da meta, quais seriam as consequências em âmbito mundial?

Martha Barata: Em termos globais, teríamos aumentos de temperatura cada vez mais intensos, com ilhas de calor e precipitações (atmosféricas), entre outras consequências. Haveria impactos também na saúde da população e na economia dos países menos desenvolvidos, mais vulneráveis a essas mudanças do clima.

Jornal da PUC: O presidente Donald Trump alega que saiu do acordo para melhorar a economia americana. Faz sentido o que ele argumenta?

Martha Barata: Não. O acordo também protege economicamente os países. Pois as mudanças afetariam o cenário econômico mundial, em especial setores ligados à agricultura, que sofreriam muito com eventos climáticos como precipitações. Isso afetaria o dia a dia das cidades. Já um aumento do nível do mar interfere diretamente no setor imobiliário, com perdas do valor de imóveis nas cidades litorâneas. Ou seja, se a temperatura subir mais que a meta de 2°C, haverá ocorrerão perdas econômicas, sobretudo no setor agrícola, e prejuízos à distribuição e à qualidade de água. A poluição atmosférica aumentaria, e assim teríamos perdas na saúde humana e na biodiversidade do planeta.

Jornal da PUC: Além do desembarque do Acordo de Paris, Trump também pretende valorizar o carvão como fonte de energia nos Estados Unidos. Quais seriam os impactos desta medida?

Martha Barata: O carvão é altamente poluente e traz consequências graves para a saúde humana, principalmente na parte respiratória. Este é um dos motivos que levaram a China a investir em tecnologias limpas e retirar indústrias carvoeiras da proximidade das grandes cidades. Trump está na contramão da História. Já temos novas fontes tecnológicas que comprovadamente fazem menos mal à população. Ao mesmo tempo, hoje em dia as indústrias de carvão parecem menos intensivas e mais modernas, ou seja, não geram tantos empregos como antigamente. Portanto, ele está mal informado sobre as justificativas para aquelas medidas, centradas num suposto crescimento econômico. Ele está voltando no tempo, apegando-se a informações não mais válidas e tecnologias que já estão sendo deixadas de lado no mundo justamente por conta dos males que causam à saúde.

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