Usinas flexíveis são a chave para matrizes energéticas limpas
14/09/2017 11:41
Paula Ferro Freitas

Para os especialistas Gabriel Cavados e Jorge Alcaide, palestrantes da Semana de Engenharia, a conjugação ótima no uso das fontes de energia revela-se essencial para potencializar usinas eólicas e solares.

Há muito as fontes limpas e renováveis, como o sol e os ventos, ganharam o protagonismo de uma matriz energética sustentável. Entretanto, a adoção hegemônica dessas opções esbarra ainda na inconstância e na imprevisibilidade que as acompanham. Para potencializá-las e difundi-las, é preciso um sistema flexível capaz de responder rapidamente às entradas e saídas das energias limpas. A proposta, apresentada na Semana Integrada de Engenharia (SIEng) da PUC-Rio, em agosto, é defendida pelos engenheiros mecânicos Jorge Alcaide e Gabriel Cavados, convidados da palestra Smart power generation: inserção de novas fontes renováveis no planejamento energético.

Embora usinas solares e eólicas utilizem fontes renováveis, gratuitas, de fácil captação, a imprevisibilidade ainda se mostra uma pedra no caminho da popularização do recurso. Um dia nublado diminui drasticamente a produção das plantas solares.

A inconstância também atormenta as usinas eólicas. Mesmo em áreas beneficiadas por ventos fortes, há variações de velocidade e momentos de calmaria, reduzindo a potência gerada. Nesses casos, quando a produção de energia limpa cai ou a demanda se sobrepõe à capacidade de produção, é preciso acionar opções tradicionais da matriz: entram em ação as hidros e termelétricas. Fora a perda ecológica, tal circunstância é cercada de dois desafios: a sobrecarga do sistema, causada pela variação produtiva, e o tempo de resposta das usinas termelétricas. Para o diretor regional da Wärtsilä, Jorge Alcaide, o caminho para contornar adversidades assim e efetivar uma matriz energética avançada passa pelo "plano de fundo" das fontes renováveis.

O engenheiro Jorge Alcaide Foto: Fernanda Maia

— A gente vai precisar de sistemas que deem flexibilidade às usinas. Uma usina flexível é aquela capaz de ligar e desligar rapidamente conforme a necessidade do sistema. Usinas nucleares e a carvão sao inflexíveis, não têm essa capacidade de ligar e desligar. Você precisa de algo que acompanhe o movimento de subir e descer da produção — explica o engenheiro.

Para o também engenheiro Gabriel Cavados, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Wärtsilä, o modelo ideal seria um sistema híbrido, que conjugue baterias, usinas solares e eólicas. Nesta configuração, seria possível, por exemplo, usar de forma eficiente, na madrugada e nas fases sem vento, a energia solar acumulada ao longo do dia.

Investir em fontes renováveis é uma tendência mundial, capitaneada por países desenvolvidos. Depois do acidente na usina nuclear japonesa de Fukushima, castigada por terremoto em 2011, a Alemanha iniciou um plano para desligar seus reatores. A lei aprovada pelo governo alemão, chamada Energiewende ("virada de energia", em tradução livre), prevê o desligamento de todas as usinas do gênero no país até 2020. Envolve também a diminuição do uso de combustíveis fósseis e o amadurecimento de uma matriz 80% limpa e renovável.

A Alemanha, ao contrário do Brasil, não desfruta de oferta abundante de fontes energéticas limpas. O país tem menor incidência de raios solares e menos recursos hídricos. Os alemães já alcançaram, contudo, 30% de energia renovável.

Gabriel Cavados Foto: Fernanda Maia

Para Cavados, ainda que alguns líderes mundiais negligenciem os diálogos sobre o tema, o mercado já embarcou no bonde rumo à matriz energética formada, senão totalmente (devido às limitações produtivas), predominantemente limpa e renovável:

— Hoje a matriz energética do mundo usa carvão. Carvão toca a China, a Índia, os Estados Unidos. Isso vai mudar, é algo natural. A [energia] solar e a eólica já são economicamente competitivas, não precisam mais de subsídios. O mercado vai parar de investir em carvão porque o surgirá um novo ramo e essa fonte não será mais rentável — projeta o especialista.

Os executivos convidados da Semana Integrada de Engenharia da PUC-Rio garantiram, aos estudantes reunidos na palestra, que o desenvolvimento de uma matriz energética sustentável e eficiente amplia o cardápio de oportunidades profissionais na área: 

— Mesmo em tempos de crise, sempre haverá oportunidade nesse mercado. Independente do que aconteça, todos estarão usando suas geladeiras, carregando seus celulares. E ainda seremos cada vez mais dependentes de energia — prevê Gabriel.

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